PUB

Fact-Checks

A acupuntura ajuda a “regular o sistema imunitário” em altura de alergias? Especialista responde

16 Mai 2026 - 08:15

A acupuntura ajuda a “regular o sistema imunitário” em altura de alergias? Especialista responde

A alegação de que a acupunturaregula o sistema imunitário” e ajuda a combater as alergias sazonais tem circulado nas redes sociais. Mas existem provas de que a acupuntura consegue modular o sistema imunitário? E pode substituir anti-histamínicos ou outros tratamentos recomendados?

PUB

Em declarações ao Viral, Diana Silva, vice-presidente da região do Norte da Sociedade Portuguesa de Alergologia e Imunologia Clínica (SPAIC) e especialista em imunoalergologia da Unidade Local de Saúde São João, diz que a resposta exige cautela.

O que significa “regular o sistema imunitário”?

Diana Silva começa por indicar que “regular o sistema imunitário” é uma expressão muito vaga e frequentemente usada sem rigor científico.

“Em medicina, ‘regular o sistema imunitário’ significa controlar a intensidade, a duração e o tipo de resposta imune”, explica a imunoalergologista. “O sistema imunitário tem de reagir a infeções e outras ameaças, mas também tem de evitar respostas excessivas ou inadequadas, como acontece nas alergias ou nas doenças autoimunes”.

A médica refere que essa regulação depende de mecanismos muito complexos, envolvendo diferentes células e mediadores imunológicos. “Para que a afirmação tenha significado clínico, é necessário especificar que componente da resposta imune está a ser afetada, em que doença, com que efeito clínico e com que qualidade de evidência”, acrescenta.

Por isso, afirmações genéricas sobre “equilibrar” ou “fortalecer” o sistema imunitário devem ser vistas com prudência.

Há evidência científica?

De acordo com Diana Silva, “até ao momento, não há evidência científica robusta de que a acupuntura, por si só, consiga regular clinicamente a resposta imunológica ou tratar doenças por esse mecanismo”.

Existem alguns estudos experimentais e ensaios clínicos que apontam para possíveis efeitos sobre vias nervosas e inflamatórias, incluindo mecanismos ligados à dor, à inflamação e à resposta neuroimune. No entanto, a especialista refere que esses dados “não permitem concluir que a acupuntura ‘corrija’, ‘reforce’ ou ‘equilibre’ o sistema imunitário de forma previsível”.

Ou seja, apesar de haver investigação em curso, não existe consenso científico que sustente a ideia de que a acupuntura tenha capacidade comprovada para modular o sistema imunitário de forma clinicamente relevante.

PUB

E no caso das alergias sazonais?

No contexto da rinite alérgica sazonal, uma das formas mais comuns de alergia, há alguns estudos que sugerem benefícios sintomáticos.

Existem ensaios clínicos e revisões sistemáticas sobre acupuntura na rinite alérgica. “Alguns relatam melhoria dos sintomas nasais, da qualidade de vida e, em certos casos, menos necessidade de medicação de alívio”, descreve a especialista.

Uma meta-análise publicada em 2022 concluiu mesmo que a acupuntura pode ser superior à ausência de tratamento ou à chamada “acupuntura simulada” no alívio de sintomas nasais e melhoria da qualidade de vida em adultos com rinite alérgica.

Ainda assim, Diana Silva destaca as várias limitações desses estudos. “Os resultados devem ser interpretados com cautela, porque os estudos eram muito heterogéneos”, justifica, ao identificar diferenças nas técnicas usadas, número de sessões, pontos de acupuntura e duração do acompanhamento.

Além disso, acrescenta, “é difícil criar um verdadeiro placebo na acupuntura, pois a própria interação terapêutica e a expectativa de benefício podem influenciar os sintomas. Apesar de sugerir um possível benefício sintomático em algumas pessoas, este não é superior aos atuais tratamentos recomendados para rinite alérgica”.

Benefício fisiológico ou efeito placebo?

Segundo Diana Silva, os efeitos observados podem resultar de vários fatores em simultâneo.

“Os efeitos observados da acupuntura são múltiplos, incluindo a estimulação de nervos sensitivos periféricos, a modulação de vias da dor, a libertação de substâncias neuroativas e também anti-inflamatórias”, explica. No entanto, no caso específico das alergias, “não foram identificados de forma clara os mecanismos imunológicos que possam mediar o efeito nos sintomas”.

A médica admite que possa existir algum efeito anti-inflamatório, mas realça que a evidência disponível continua a ser escassa. “A evidência aponta para possível benefício sintomático, mas com limitações metodológicas relevantes”, resume.

As recomendações médicas incluem acupuntura?

As principais organizações científicas internacionais não recomendam a acupuntura como tratamento de primeira linha para rinite alérgica, sintetiza a médica.

PUB

Diana Silva salienta que as orientações ARIA 2024-2025, uma das principais referências internacionais para tratamento da rinite alérgica, concentram as recomendações em terapêuticas com eficácia comprovada, como corticosteroides nasais e anti-histamínicos, não incluindo  a acupuntura como tratamento recomendado para a rinite alérgica sazonal.

As orientações americanas seguem a mesma linha: consideram que os resultados são inconsistentes e, quando existem benefícios, estes tendem a ser modestos e de relevância clínica incerta.

“No entanto, a acupuntura parece ser segura, sem efeitos adversos graves reportados nos estudos avaliados. Por esse motivo, os autores afirmam que não é possível fazer uma recomendação a favor ou contra o uso da acupuntura no tratamento da rinite alérgica”, diz a especialista da SPAIC.

Existem riscos?

Embora seja geralmente considerada segura quando praticada por profissionais qualificados, a acupuntura não está totalmente isenta de riscos.

“Os efeitos adversos mais comuns são ligeiros e transitórios, como dor local, pequeno sangramento ou desconforto no local da picada”, explica Diana Silva.

Os problemas mais graves surgem sobretudo quando não há formação adequada ou não são cumpridas regras rigorosas de higiene, tal como assinalam as indicações da Organização Mundial da Saúde sobre esta prática. Nesses casos, podem ocorrer infeções, lesões locais e, raramente, complicações mais sérias.

A especialista alerta ainda as pessoas com alterações da coagulação, imunossupressão ou outras doenças relevantes para informarem previamente tanto o médico assistente como o profissional de acupuntura da sua condição.

Pode substituir os tratamentos convencionais?

“Não existe evidência robusta que demonstre eficácia equivalente à dos anti-histamínicos, dos corticosteroides intranasais ou da imunoterapia com alergénios”, afirma a especialista.

Por isso, caso seja utilizada, “a acupuntura deve ser entendida como um tratamento complementar” e nunca como alternativa aos tratamentos convencionais recomendados.

PUB

Diana Silva aconselha ainda os doentes a manter expectativas realistas: “Algumas pessoas podem sentir alívio dos sintomas, mas a evidência científica ainda é limitada e não demonstra eficácia equivalente à dos tratamentos convencionais”.

E, conclui, “a melhoria subjetiva não deve levar à suspensão da medicação prescrita, da imunoterapia com alergénios ou do acompanhamento médico”.

A alegação é, então, parcialmente verdadeira.

Há alguns estudos que sugerem que a acupuntura pode ajudar a aliviar sintomas de rinite alérgica sazonal em determinadas pessoas. No entanto, não existe evidência científica suficiente para insinuar que “regula o sistema imunitário” de forma clinicamente comprovada, nem de que tenha eficácia comparável aos tratamentos médicos convencionais.

As principais organizações científicas de alergologia não a recomendam como tratamento de primeira linha, embora reconheçam que pode ser usada como complemento em alguns casos, desde que realizada por profissionais qualificados e sem substituir os cuidados médicos adequados.

Categorias:

Acupuntura

16 Mai 2026 - 08:15

Partilhar:

PUB