VITAL
Pedro Nunes: “O rastreio do cancro da próstata apresenta benefícios muito marcados na qualidade de vida e diminuição da mortalidade”
O cancro da próstata é o mais diagnosticado entre os homens portugueses — em 2022, foram 7529. No mesmo ano, registaram-se cerca de duas mil mortes devido à doença.
Mas, para os inquiridos de um estudo sobre a saúde do homem feito pela GfK Metris para o Expresso, o cancro da próstata aparece em sexto na lista das neoplasias malignas que mais preocupam os homens portugueses.
Em entrevista ao Viral e ao Polígrafo, Pedro Nunes, presidente da Associação Portuguesa de Urologia (APU), fala sobre a forma como os homens olham para a saúde, as patologias às quais devem estar atentos e a possibilidade de implementar um rastreio ao cancro da próstata em Portugal nos próximos anos.
Como é que os homens olham para a saúde?
A comunidade médica, de forma geral, está muito empenhada em sensibilizar os homens para a importância da sua saúde. Tradicionalmente o homem, nomeadamente o homem português, tem alguma reticência em tratar da sua saúde e em procurar o médico.
Nas gerações anteriores, normalmente até eram as mulheres que incentivavam os homens a procurar o médico e eles só recorriam ao médico quando havia sintomas de algum tipo de problema.
Isso tinha implicações a nível do diagnóstico de todas as doenças, nomeadamente doenças urológicas e doenças em geral, que eram diagnosticadas numa fase tardia em que as hipóteses de tratamento eram mais limitadas e o prognóstico dessas patologias era mais sombrio.
Apesar de tudo, este cenário está a mudar, os homens das novas gerações têm uma preocupação mais ampla com a sua saúde em geral, estão mais bem informados do que estavam as gerações anteriores.
De qualquer maneira, ainda existe alguma diferença entre a procura de diagnósticos precoces e de saúde preventiva entre homens e mulheres.
Para que patologias os homens devem estar particularmente alerta?
O tumor do testículo é uma neoplasia maligna relativamente rara, mas ainda assim é a neoplasia maligna sólida mais frequente no homem jovem, entre os 18 e os 35 anos. Quando diagnosticado em fases precoces tem um prognóstico excelente, mas em fases avançadas pode acarretar uma morbilidade que não é desprezível. E é um tumor que é de fácil diagnóstico numa fase precoce.
É importante sensibilizarmos os jovens para a importância da autopalpação testicular e para, perante qualquer alteração a nível do testículo, recorrerem ao médico. A maior parte das vezes alterações testiculares podem não estar relacionadas com o tumor do testículo, mas, se tiverem, devem ser diagnosticadas o mais precocemente possível.
À medida que a idade do homem avança, como é óbvio, há outro tipo de preocupações e outro tipo de cenários que se põem. Desde logo, em Portugal, a patologia que causa mais mortes é a patologia cardiovascular. E a urologia pode, por vezes, estar envolvida nesse tipo de alerta.
A disfunção erétil pode ser um sinal precoce de patologia cardiovascular, nomeadamente patologia obstrutiva. Os vasos do pénis são vasos dez vezes mais finos do que os vasos do coração ou do que os vasos do cérebro.
E muitas vezes, quando há disfunção erétil, principalmente em homens com fatores de risco — com obesidade, com histórico de tabagismo, com hipertensão — pode ser um sinal precoce de patologia cardiovascular severa.
A disfunção erétil é uma patologia muito frequente entre a nossa população e o nosso objetivo não é só tratá-la, mas também despistar algum tipo de patologia cardiovascular que esteja subjacente.
Por isso é que a APU tem algumas reservas quanto à disponibilização sem receita de fármacos para a disfunção erétil. A prescrição médica obriga a uma avaliação global do homem, útil para a prevenção primária e diagnóstico precoce.
Há outras patologias neoplásicas muito importantes. Desde já, o carcinoma da próstata, mas também, por exemplo, o tumor da bexiga. O tumor da bexiga, que é mais frequente em homens, é um tumor que apresenta fatores de risco que estão bem definidos, nomeadamente os hábitos tabágicos.
Os homens esquecem-se que o principal fator de risco entre nós para o tumor da bexiga é o tabagismo.
Falava-me da preocupação dos homens com a saúde e do facto de, apesar de ser cada vez mais presente, ainda ficar aquém da preocupação das mulheres com a saúde em geral. Como é que se pode fazer com que os homens se interessem mais pela sua saúde?
Eu penso que tem de ser campanhas de informação bem dirigidas e que sejam práticas e que forneçam informação objetiva e verdadeira.
Hoje em dia, como sabemos, o acesso à informação é fácil, temos as redes sociais, temos a inteligência artificial, temos uma série de sites, a maior parte deles são sites fiáveis, mas, muitas vezes, há informações que não passam da forma correta.
Tem de haver uma campanha concertada, quer das autoridades sanitárias, quer da comunidade médica em geral, para sensibilizar e desmistificar uma série de mitos que existem a nível da saúde masculina.
Por exemplo, relativamente ao cancro da próstata, muitas vezes o homem pensa que dá sinais e sintomas precocemente e só nesses casos é que se deve dirigir ao médico, o que não é verdade.
O cancro da próstata, na fase em que é precoce e na fase em que pode ser curado e em que deve ser diagnosticado, habitualmente não causa sintomas nenhuns.
A mensagem que tem de passar é que qualquer homem, a partir dos 50 anos, quer tenha queixas, quer não, deve procurar o seu médico de família, deve procurar o seu urologista para perceber quais são os seus fatores de risco. E fazer alguns exames muito simples de tentativa de diagnóstico precoce.
Há fatores de risco que estão bem definidos para o cancro da próstata, nomeadamente fatores familiares, se houver familiares próximos com histórico de cancro da próstata, principalmente cancros agressivos em idade de jovens, os exames devem começar ainda mais cedo, por volta dos 40, 45 anos.
Sabemos que o risco é mais alto para homens negros ou pessoas que tenham familiares, mesmo no ramo feminino, com elevada incidência de cancro da mama.
O cancro da mama e o cancro da próstata podem ter a mesma origem genética em determinadas famílias. Nesses casos, os homens devem procurar mais cedo ainda o seu médico para fazer esse tipo de diagnóstico precoce.
E como se pode prevenir o aparecimento deste cancro? Quais são os fatores sobre os quais é possível atuar?
O cancro da próstata não tem propriamente fatores em que nós possamos intervir no sentido de o prevenir, aquilo que podemos fazer é diagnosticá-lo precocemente.
O diagnóstico precoce é muito fácil de fazer, temos o exame do PSA, que é uma análise sanguínea, temos o toque retal, que é uma palpação da próstata, e dispomos hoje em dia de exames mais fiáveis do que dispunhamos há algum tempo para tentar pesquisar precocemente este tumor.
Este cancro e os tratamentos eventualmente necessários podem deixar alguma sequela no doente? Há alguma forma de contornar isso?
Aquilo que nós sabemos é que quanto mais precocemente a doença for detetada, menos sequelas vão deixar os tratamentos.
Por outro lado, os tratamentos hoje em dia são tratamentos mais inteligentes: conseguimos oferecer de uma forma mais individualizada o tipo de tratamento que cada doente vai beneficiar.
Há doentes, por exemplo, que não precisam, numa fase inicial, de qualquer tratamento, precisam apenas de uma vigilância ativa, de monitorização, há alguns tumores que nunca vão evoluir.
Há outros que, no espectro oposto, precisam de tratamentos mais agressivos logo no início, como, por exemplo, a cirurgia.
A cirurgia está associada tradicionalmente a uma elevada taxa de disfunção erétil, de alterações sexuais e de incontinência urinária, mas hoje as técnicas cirúrgicas estão mais refinadas e o nosso conhecimento sobre a anatomia e sobre a fisiologia dos órgãos envolvidos permite-nos minimizar essas sequelas.
Numa fase avançada dispomos também de fármacos e de estratégias para controlar os tumores numa altura em que, embora não seja possível curá-lo, conseguimos manter o doente vivo durante um longo tempo e com uma qualidade de vida aceitável.
Dispomos de uma série de outros tratamentos que evitam a obrigatoriedade de tratamentos muito agressivos. E isto é de tal forma verdade que, nos últimos anos, assistimos a uma melhoria significativa quer do prognóstico, quer da qualidade de vida, e à diminuição da mortalidade por cancro de próstata.
O cancro da próstata é o mais frequente entre os homens portugueses. Por tudo o que já disse, percebe-se que a deteção precoce é importante para prevenir complicações. Porque é que não há um rastreio para o cancro da próstata em Portugal?
Em 2022 — são os dados mais recentes que temos — foram diagnosticados em Portugal cerca de 8 mil novos casos de cancro da próstata, o que é muito.
E em termos de mortalidade, o cancro da próstata é o terceiro que mais mata. Também em 2022, cerca de dois mil homens faleceram. Logo por aqui percebemos qual é a importância de alertar os homens para esta patologia.
O rastreio é, por definição, uma medida de saúde pública, em que todos os homens num determinado intervalo de idades e com alguns fatores de risco seriam chamados a fazer alguns exames, mesmo sem proativamente procurarem.
No início, pensava-se que este tipo de medida não ia alterar muito a história natural da doença. Mas as linhas de orientação atuais das sociedades internacionais e os estudos com mais tempo de seguimento mostraram que, efetivamente, o rastreio apresenta benefícios muito marcados, nomeadamente em termos de qualidade de vida e em termos de mortalidade.
Ou seja, as populações que são submetidas a rastreio sistemático de cancro da próstata apresentam, a longo prazo, menor mortalidade.
Em Portugal não existe um programa de rastreio neste sentido, desenhado. Eu penso que vai existir em breve. A Associação Portuguesa de Urologia está a encetar esforços junto das autoridades, que também estão preocupadas com este assunto.
Mas para isso é preciso que os homens estejam sensibilizados e que saibam exatamente aquilo que um rastreio implica e quais é que são os objetivos do rastreio.
Os benefícios seriam então o aumento da qualidade de vida e diminuição da mortalidade. Mas não existe um risco de sobrediagnóstico ou de fazer tratamentos desnecessários, por exemplo, a pessoas que talvez nunca descobrissem este tumor?
Os estudos iniciais apresentavam realmente taxas muito elevadas de sobrediagnóstico e sobretratamento.
No entanto, o nosso conhecimento evoluiu muito nos últimos anos. Então, apresentamos hoje programas de rastreio mais inteligentes. A taxa de sobrediagnóstico, hoje em dia, está muito minimizada e a taxa de sobretratamentos também.
E temos tratamentos específicos para oferecer a determinados cancros que antigamente não tínhamos. Ou seja, cancros que aparentemente nunca iriam ser diagnosticados se não fosse feito o rastreio e o diagnóstico.
Em muitos desses casos nós nem sequer os tratamos numa fase inicial, apenas acompanhamos a sua evolução e, se evoluírem, partimos para o tratamento.
Este artigo foi desenvolvido no âmbito do “Vital”, um projeto editorial do Viral Check e do Polígrafo que conta com o apoio da Fundação Champalimaud.
A Fundação Champalimaud não é de modo algum responsável pelos dados, informações ou pontos de vista expressos no contexto do projeto, nem está por eles vinculado, cabendo a responsabilidade dos mesmos, nos termos do direito aplicável, unicamente aos autores, às pessoas entrevistadas, aos editores ou aos difusores da iniciativa.
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