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Entrevistas

Pedro Morgado: “Ninguém começa a pensar em suicídio por lhe perguntarem se essas ideias alguma vez lhe passaram pela cabeça”

10 Set 2026 - 08:15

Pedro Morgado: “Ninguém começa a pensar em suicídio por lhe perguntarem se essas ideias alguma vez lhe passaram pela cabeça”

Apesar de o suicídio continuar a ser um grande problema de saúde pública, o silêncio em torno do tema e a perpetuação do estigma e de mitos podem dificultar a prevenção. Para contrariar esta realidade, a Organização Mundial da Saúde (OMS) lançou uma campanha trienal (2024-2026) com o tema “Mudar a narrativa sobre o suicídio”. Este ano, com o apelo à ação “inicie a conversa”.

Em entrevista ao Viral, no Dia Mundial da Prevenção do Suicídio, o psiquiatra Pedro Morgado explica a importância de abordar o tema (da forma adequada), fala sobre o papel dos profissionais de saúde na prevenção e desconstrói alguns dos mitos e estigmas associados ao suicídio.

Além de ser professor associado de psiquiatria na Escola de Medicina da Universidade do Minho, Pedro Morgado é o investigador principal no Instituto de Investigação em Ciências da Vida e Saúde (ICVS) e Coordenador Regional de Saúde Mental na Região Norte de Portugal.

“Mudar a narrativa sobre o suicídio”. É este o tema da campanha trienal da OMS para o Dia Mundial da Prevenção do Suicídio. Considera que ainda existe a ideia de que falar sobre suicídio pode ter “o efeito de contágio”. O que a evidência nos diz sobre isso?

A evidência diz-nos que falar sobre suicídio pode ter um efeito preventivo quando a conversa é efetuada de forma correta, baseada na evidência científica e na promoção da literacia das diferentes populações.


Por outro lado, pode também ter efeitos negativos, quando o suicídio é contado de uma forma que tende a romantizar a sua ocorrência, ou que tende a ser específica em relação a um caso muito particular que suscite, na opinião pública, um pouco mais de interesse e comoção.


É preciso encontrar um equilíbrio quando provemos a literacia em saúde mental, o conhecimento acerca dos sinais e sintomas de risco para o suicídio e também as ferramentas e os serviços que as pessoas têm disponíveis, quando são confrontadas com uma situação em que surgem ideias de suicídio.

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Porque é que, apesar de sabermos que falar sobre suicídio pode ser importante para a prevenção, este continua a ser um tema tão difícil de abordar entre familiares, amigos e até profissionais de saúde?

Desde logo, porque há um estigma mais geral associado a tudo o que são assuntos de saúde mental. Existe muito preconceito, menos informação do que seria desejável acerca destas questões.

E existe, sobretudo hoje em dia, muita informação que não é assim tão correta, que não corresponde à evidência científica, e é disseminada por influenciadores e, às vezes, por profissionais de saúde.


Isto acaba por contaminar os conhecimentos que as pessoas têm acerca deste assunto e também por contribuir para o estigma.


Por outro lado, estamos a falar de uma situação em que, muitas vezes, as pessoas não sabem o que fazer, por isso, fogem à conversa ou tentam desviar o assunto, porque é sempre mais fácil fazê-lo do que abordar um tema acerca do qual não estão confortáveis.


Por último, porque de facto há situações em que o risco é real e efetivo e em que existe medo de que essa conversa possa contribuir para um desfecho menos positivo.


Aquilo que nós temos de fazer é dotar cada vez mais as pessoas da capacidade de falar acerca das suas emoções, dos seus sofrimentos, das suas angústias. E também temos de conseguir que as pessoas que estão a passar por pensamentos mais difíceis, ou até por ideação suicida, falem desse assunto com um profissional de saúde mental.


Como é que um familiar ou amigo pode abordar este tema com alguém que suspeita estar a pensar em suicídio?

Em regra, faz sentido perguntarmos diretamente se a ideia de suicídio já passou pela cabeça da pessoa. Porquê? Porque muitas vezes quando andamos à volta do assunto achamos que o assunto foi abordado e não foi. Não devemos deixar esta conversa implícita, ela deve ser explícita.


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Ninguém começa a pensar em suicídio por lhe perguntarem se essas ideias alguma vez lhe passaram pela cabeça. É muito importante salientar isto.


Devemos perguntar diretamente, obviamente, mas sempre num contexto de conversa que transmita segurança e confiança à pessoa com quem estamos a falar. Caso a resposta seja afirmativa, devemos motivar e mobilizar essa pessoa para recorrer aos serviços de saúde.


Até que ponto os médicos de família e outros profissionais de saúde podem ter um papel determinante na prevenção do suicídio, mesmo quando o doente não procura ajuda especificamente por motivos de saúde mental?

Os médicos de família são, em Portugal, a porta de acesso ao Serviço Nacional de Saúde e são os profissionais que atendem mais pessoas com quadros de saúde mental ou com doenças psiquiátricas. 

São, também, os profissionais de saúde que melhor conhecem os doentes e, por isso, têm, efetivamente, um papel muito importante. Não só a abordar e orientar as pessoas com queixas do foro da saúde mental, mas também a identificar e começar essas conversas com as pessoas em risco.

Isto acontece muitas vezes no contexto das consultas de medicina geral e familiar e é verdadeiramente significativo na prevenção de situações mais graves e na prevenção do suicídio.


Que sinais devem deixar um médico alerta para a possibilidade de existir risco de suicídio, mesmo que o doente não o verbalize?

O principal fator de risco para ter ideação suicida ou para ter pensamentos de natureza suicida é ter uma doença psiquiátrica. 

Além disso, a existência de doenças não psiquiátricas também é um fator de risco para estes pensamentos surgirem. Em particular, quando estamos a falar de doenças crónicas e incapacitantes. Dentro dos rastreios de saúde mental, é algo que tem de ser considerado nesta população.


Naturalmente, o uso de substâncias também é um fator de risco relevante, portanto, pessoas que fazem usos abusivos de substâncias estão em maior risco e devem ser rastreadas.

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Depois, há outros fatores mais contextuais, que têm a ver com as condições de vida, com as ruturas relacionais e afetivas, que também são fatores de risco reconhecidos para que estas situações possam ocorrer.


Finalmente, também devemos estar atentos a famílias em que já há história prévia de suicídio. Mesmo que aquela pessoa não tenha manifestado sinais ou que não tenha uma doença psiquiátrica, devemos estar mais atentos porque este também é um fator de risco conhecido para a ocorrência de suicídio.


Os médicos devem perguntar diretamente aos doentes se têm pensamentos suicidas quando identificam determinados sinais de sofrimento psicológico? Como deve ser feita essa abordagem?

A abordagem deve ser feita no âmbito da entrevista clínica e deve ser feita de uma forma direta, sem qualquer problema em abordar o assunto, sempre que haja sinais de que deve ser abordado.


Isto não significa que todas as pessoas que vão ao médico têm de receber perguntas acerca da possibilidade de existir ideação suicida. Mas, quando os fatores de risco estão presentes, ou quando existe uma suspeição clínica de que isso pode ser um assunto relevante para o doente, ele deve ser questionado de uma forma direta, sem receios. Essa é muitas vezes a primeira porta de acesso para que a pessoa possa partilhar estes pensamentos com alguém.


Na sua perspetiva, os profissionais de saúde estão suficientemente preparados para identificar e abordar o risco de suicídio?

Hoje, a preparação dos profissionais de saúde na área da psiquiatria e saúde mental é incomparavelmente melhor do que há 20 ou 30 anos.


As condições para que os temas relacionados com saúde mental possam ser abordados, por exemplo, no contexto de uma consulta de medicina geral e familiar, também dependem do tempo disponível para estar com o doente e de muitos outros aspetos que não são diretamente controlados pelos profissionais de saúde. Embora ainda haja um caminho longo a fazer, hoje em dia, há uma preparação muito melhor.

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Também ainda há um caminho a fazer na formação e na capacitação para abordar estas temáticas. Falo em formação no âmbito de competências de comunicação e de relação clínica com os doentes.


Ao mesmo tempo, é necessária uma grande atualização, porque são temas que vão mudando com a sociedade. Os médicos e os outros profissionais de saúde têm de estar muito atentos às mudanças nas tendências comunicacionais, às mudanças comportamentais e às mudanças nos fatores de risco para o suicídio, que também têm mudado com a questão das redes sociais e com a digitalização da sociedade e das relações.


Tudo isso tem um impacto nas manifestações de doença mental e no risco de suicídio e é preciso garantir que essa formação e essa capacitação continuam a ser feitas.


Apesar de caminharmos no sentido da mudança, ainda se fala pouco sobre suicídio. Até que ponto este silêncio contribui para perpetuar o estigma e alguns mitos?

Temos falado cada vez mais, enquanto sociedade, acerca dos temas à volta da saúde mental. É importante que se fale, mas, sobretudo, que se fale bem. Muitas vezes, aquilo a que temos assistido é que há um excesso de informação partilhada em torno desses assuntos e nem sempre é boa informação, ou nem sempre se traduz numa comunicação efetiva.


Agora, também é muito importante que os órgãos de comunicação social e as pessoas que têm influência nas redes sociais – que têm uma responsabilidade muito grande na disseminação da informação – cumpram as regras da OMS para falar acerca de casos concretos de suicídio.


Nós precisamos de falar mais sobre saúde mental, não especificamente de suicídio, mas de todos os temas de saúde mental, incluindo o suicídio, e precisamos, sobretudo, de falar bem e de evitar aqueles erros que não contribuem para o bem-estar geral da sociedade.


Um dos principais mitos é que uma pessoa que tenta suicidar-se está apenas “a chamar a atenção” e que, por isso, não existe uma verdadeira intenção de morrer. O que justifica esta ideia e porque é que é tão perigosa?

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Sim, esta ideia é muito perigosa, porque se confunde o facto de a tentativa de suicídio representar um pedido de ajuda extremo com tratar-se de alguém a querer chamar a atenção.


Isso não é a mesma coisa. É um mito que as tentativas de suicídio sejam para chamar a atenção. O que são, muitas vezes, é uma expressão de um sofrimento extremo.

Quando olhamos para o suicídio, é importante não confundir uma oportunidade para ajudarmos uma pessoa que ainda não tinha sido suficientemente ajudada, ou que ainda não teria tido acesso, por exemplo, a cuidados de saúde mental, com o facto de a pessoa estar a querer chamar a atenção.
Se não, estamos a pôr na pessoa uma intenção que, na esmagadora maioria das vezes, não existe.


É possível prevenir o suicídio? Quais são, atualmente, as principais estratégias de prevenção?

A prevenção envolve estratégias a vários níveis. Começa com a implementação de políticas vastas de promoção da saúde mental, por exemplo, com o intuito de reduzir os consumos de substâncias.


Também, o estabelecimento de políticas de saúde pública que visam reduzir genericamente o risco de suicídio em meios que têm maior letalidade, ou a proteção de algumas zonas que sabemos que são mais propícias à ocorrência de gestos suicidários.

Depois, ao nível dos profissionais de saúde, a questão da formação e da capacitação para rastrear, identificar e atuar quando existe uma situação de risco de suicídio.


A sensibilização da população geral para a existência do suicídio e, também, estratégias que permitem que a população possa identificar situações de risco e referenciá-las para os cuidados de saúde.


Estas são todas as áreas em que se tem intervindo, em consonância com aquilo que são as recomendações da Organização Mundial de Saúde, para diminuir o risco de suicídio.


E depois, obviamente, ao montar um sistema de saúde mental que responda às necessidades da população e que trate adequadamente as diferentes doenças psiquiátricas. Esta é outra das estratégias que tem como resultado uma redução sustentada da taxa de suicídio.


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Aquilo que vimos ao longo das últimas décadas é que houve uma diminuição e uma estabilização nas taxas de suicídio, o que indica que estas políticas de mais largo espetro e de longo prazo têm sido bem sucedidas.


Quando falamos de prevenção do suicídio, tendemos a centrar-nos no indivíduo e na saúde mental. Mas existem questões sistémicas, como fatores sociais, económicos e culturais que devem ser tidos em consideração, certo?

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Sim, exatamente. Por exemplo, durante a última grande crise económica, depois de 2009, tivemos um aumento da taxa de suicídio no nosso país, o que é, de facto, a tradução precisamente desse impacto. As condições de vida e de suporte social que existem num país têm um impacto relevante nas taxas de suicídio.


Depois disso, como eu disse, houve uma diminuição e os números têm vindo a estabilizar, claro, com pequenas variações que acontecem de ano para ano.


Mas quando olhamos para um fenómeno tão complexo como o suicídio, é mais importante olharmos para séries temporais que nos permitam fazer leituras mais afinadas do que olhar apenas para os resultados de um ou de outro ano.


Se uma das principais ferramentas de prevenção é conseguir que uma pessoa fale sobre aquilo que está a sentir, como é que o estigma e o medo de falar sobre suicídio dificultam a própria prevenção?

O estigma surge quando marcamos uma pessoa por uma das suas características ou por uma das suas experiências de vida.
O estigma da doença mental é eu passar a julgar a pessoa só pelo facto de eu saber que ela é – ou foi – portadora de uma doença mental, ou o facto de eu julgar a pessoa só por saber que ela teve ideação suicida ou teve uma tentativa de suicídio. Eu passo a caracterizar aquela pessoa apenas com base nesta característica.


Isto é muito marcante e é uma das principais razões pelas quais as pessoas escondem, muitas vezes, que são portadoras de uma doença mental, e é também uma das razões pelas quais têm vergonha de procurar ajuda.


Nós precisamos de combater isso, não só através do contacto com mais conhecimento acerca da doença mental, mas também pelo contacto com pessoas com notoriedade pública, que têm doenças mentais e são conhecidas por muitas outras coisas que não a sua doença mental. 

Esta noção de que a doença mental é algo que faz parte da vida e que não marca aquela pessoa de forma definitiva é muito importante para favorecermos a conversa acerca da saúde mental e de suicídio.


Porque, de facto, o medo, a vergonha, a ideia de que vou ser julgado por falar acerca disto é um dos grandes impedimentos.


Outro impedimento é o facto de eu sentir que vou sobrecarregar o outro com a partilha destas ideias e destes pensamentos, que vou gerar-lhe angústia e preocupação. A pessoa que está doente, muitas vezes, não quer fazer isso, evita falar sobre o assunto e vai adiando a procura por um tratamento efetivo para a sua condição.


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Saúde mental

Etiquetas:

Suicídio

10 Set 2026 - 08:15

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