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Nuno Vale: “A Inteligência Artificial será fundamental no diagnóstico de cancro e na decisão clínica”

1 Dez 2025 - 08:45

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Nuno Vale: “A Inteligência Artificial será fundamental no diagnóstico de cancro e na decisão clínica”

Nos próximos 15 anos, estima-se que a incidência de cancro em Portugal aumente 20% — são dados do estudo “EU Country Cancer Profiles 2025” da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) e da Comissão Europeia. 

Nuno Vale é coordenador do grupo PerMed — Medicina Personalizada do Centro de Investigação em Tecnologias e Serviços de Saúde, que tem como objetivo “melhorar os tratamentos que já existem” e perceber qual o melhor tratamento para determinado doente.

Os diagnósticos de cancro tendem a aumentar e os investigadores tentam encontrar formas de tornar a doença crónica e aumentar o tempo de sobrevivência. Em entrevista ao Viral e ao Polígrafo, Nuno Vale fala de avanços na investigação, da importância da tecnologia e inteligência artificial e da possibilidade de reaproveitar fármacos já conhecidos para o tratamento do cancro.

É coordenador do grupo de investigação em medicina personalizada do CINTESIS — Centro de Investigação em Tecnologias e Serviços de Saúde. Quais são as prioridades e desafios que identifica nesta área de investigação relativamente à oncologia? O que é que tem estudado? 

O que fazemos está muito direcionado para que se consiga melhorar os tratamentos que atualmente existem. Uma das prioridades é procurar novas vias de atuação para fármacos que já são conhecidos para outras doenças e ter modelos diferentes para a inclusão desses fármacos.

E com base nisso que estamos a fazer, numa via de melhor orientação terapêutica, tentar identificar, agora numa fase mais recente, os melhores pacientes para os melhores tratamentos — isso é um desafio. 

Para escolher os melhores pacientes para o melhor tratamento estamos a desenvolver em Portugal uma forma de ter um perfil de um doente igual a alguém que já existe. 

Isto é, vamos imaginar que eu estou doente, tenho um cancro, a minha doença pode ser acompanhada com um “gémeo digital” [réplicas virtuais que copiam, com exatidão, o órgão ou o organismo de um paciente]. É um trabalho mais no âmbito de uma saúde digital para acompanhar, escolher, direcionar a parte clínica, mais relacionada com o paciente em si.

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Isto serve para perceber a realidade de um determinado paciente. É feito um estudo de simulação para o tratamento, a evolução da doença, o acompanhamento, estudos genéticos da família, entre muitas outras informações.

Como é que isto pode ser aplicado na prática? Quais são os objetivos concretos a longo prazo? 

O grupo de Medicina Personalizada derivou de outro, o OncoPharma, que se focava em farmacologia e oncologia, e tem 3 anos de atividade. Surgiu pela necessidade de alargar mais estudos, incluir outras vertentes de investigação, não só a parte farmacológica.

Estamos muito focados na investigação, na translação clínica, na formação e skills para a inovação, gerir talento, gerir capacidade para desenvolver ideias. Nós precisamos de desenvolver nos próximos anos algo que permita personalizar a medicina, através da utilização da saúde digital.

Uma parte muito importante é a introdução em Portugal da terapêutica digital que, no futuro, será muito vantajosa para acompanhar doenças crónicas e algumas intervenções.

Há um contacto quase diário de informação entre o paciente e o clínico. Há menos deslocações, menos faltas aos empregos e escolas.

São conceitos que, em Portugal, estão a dar os primeiros passos e é natural que exista a necessidade de termos um tempo de implementação, quer seja com um projeto piloto, quer seja com artigos publicados. E temos um trabalho muito interessante com grávidas que está a decorrer. 

Acho que o grupo de medicina personalizada está a desenvolver as áreas que poderão transformar um pouco a medicina nos próximos anos.

Mencionou um projeto piloto com grávidas. Há algo semelhante — ou irá haver — também para doentes oncológicos?

A ideia é essa: pegar no projeto que estamos a fazer com grávidas e perceber até que ponto podemos replicar para doentes oncológicos ou outros doentes.

E como funciona esse projeto?

Quando existe um medicamento no mercado e não foram feitos ensaios clínicos com grávidas, essa população acaba por ser excluída da utilização mesmo em situações em que o medicamento poderia ser útil.

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Isso aconteceu com os antivirais que estavam a ser utilizados para o tratamento da Covid-19, as grávidas não podiam ser incluídas no tratamento. E isso chamou-nos a atenção.

Então, será que temos forma de avaliar a inclusão das grávidas fazendo um estudo de previsão que depois possa ser validado, em termos reais? Foi a partir daí que desenvolvemos um projeto em colaboração com o Hospital São João e com uma empresa de saúde digital, a VirtualCare.

Estamos a trabalhar com os dados das consultas e a perceber até que ponto existe ou não adesão para determinado tipo de fármacos e se havia ou não segurança para a sua utilização.

E estes dados estão a ser associados ao registo clínico, para que, através de um determinado tipo de plataforma com base em inteligência artificial, consigamos perceber, no caso daquela paciente em concreto, quais seriam os resultados expectáveis se fosse administrado um medicamento. 

Não vai substituir o médico, mas vai ajudar o médico, por vezes, a assegurar a melhor terapêutica para a grávida naquele momento. Porque, quando nós falamos na grávida, não é só na grávida, é na grávida e no feto. Isto tudo é feito para a grávida e para o feto.

O estudo é um bocadinho difícil de explicar, porque são vários os pormenores que estamos a tentar avaliar. É uma personalização para as grávidas mas também, ao fim e ao cabo, uma segurança, porque permite abranger uma maior vaga de medicamentos, que poderão ser utilizados com segurança reforçada.

Fez parte da Cátedra Convidada de Inovação em Oncologia. Na altura, em 2022, sugeriram o reaproveitamento de fármacos [utilizar fármacos já conhecidos] precisamente para o tratamento do cancro. Como é que funciona este processo? 

Falamos em fármacos porque é a molécula que é ativa, o fármaco. Interessa-me muito o princípio ativo, a molécula que é responsável pela atividade. Estes fármacos, estas moléculas, quando estão sozinhas, têm um comportamento.

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O que nós queremos é que reajam num sítio específico para ter atuação sobre um determinado efeito, para ver se as pessoas deixam de ficar doentes. Isso é o que todos queremos.

Há uma reação principal de um determinado medicamento, mas também existem outras reações. Temos que conhecer a via principal da atuação já que o fármaco é de primeira linha para alguma doença.

Os melhores fármacos para reaproveitamento de fármacos, diria que são os utilizados no sistema nervoso central e os antivirais. São as duas classes de fármacos que são mais importantes para reaproveitar em cancro.

Isto porque têm várias reações secundárias que são importantes no tratamento de algumas vias principais de cancro. E como algumas destas vias são cruzadas, podem ser comuns a diferentes cancros ou não, nós temos diferentes fármacos a atuar de forma diferente em diferentes cancros. 

Isto implica ter um conhecimento muito forte da atuação daqueles fármacos e perceber quais são as vias daquele cancro em concreto onde eles podem ser aplicados.

O fármaco reaproveitado tem que ser melhor do que o de referência sozinho, o que é difícil porque ele não é utilizado em cancro. Mas às vezes acontece — algumas vezes, felizmente. 

Aí partimos para um outro nível: vamos fazer um modelo de combinação para que ele seja ainda muito melhor e seja utilizado numa quantidade pequena. 

E já existem ensaios clínicos sobre este tema? Em que ponto está neste momento?

Algumas empresas farmacêuticas que direcionam mais estudos para a área oncológica fazem estes modelos de combinação que eventualmente podem explorar, mas com fármacos que são seus. 

Não o fazem de uma forma tão intensa, isto é, fazem um modelo de combinação de fármacos que já são usados em cancro, um com o outro. Ou então, um fármaco que possa ser adjuvante, que ajude um outro fármaco na sua atuação. Mas quem é responsável é sempre o fármaco oncológico.

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O reaproveitamento de fármacos, não de cancro, mas em cancro, normalmente não é feito pelas empresas, tem de ser da iniciativa do investigador. E não há muitos ensaios clínicos porque é difícil obter esse financiamento. A vantagem é que nós não temos uma orientação comercial.

Existem alguns estudos, os que tiveram mais sucesso foram feitos na Holanda. Em Portugal, estou a tentar ainda obter financiamento para que se faça um estudo de iniciativa de investigador, com alguns dos fármacos que nós identificamos, para alguns cancros.

Mas o cancro da mama era o mais urgente, principalmente em casos de cancro triplo negativo ou quando existe resistência à terapêutica atual.

E quais são as maiores vantagens e limitações desta abordagem?

Vantagens são muitas. Podemos fazer um estudo em que o custo para desenvolver as moléculas é muito mais reduzido, porque elas já existem.

O número de medicamentos que seria necessário para o estudo clínico em pessoas também é mais fácil de ser obtido, porque aquelas fármacos já existem.

A adesão das pessoas para fazer parte destes estudos também não é difícil, porque infelizmente existem muitos casos e há uma necessidade urgente em encontrar novas soluções. Outra grande vantagem é que os efeitos secundários são sempre reduzidos, porque os fármacos já são aprovados clinicamente.

A dificuldade é conhecer bem a via farmacológica para a qual ela agora está a atuar e, se for fármacos combinados, perceber se a combinação não resulta num efeito secundário significativo.

Neste estudo da iniciativa do investigador, nós temos que angariar uma verba considerável para o estudo ser feito e, por vezes, é difícil. Estamos a falar de muito dinheiro para um estudo deste ser realizado: 500, 600, 700 mil euros.

Um sponsor, uma empresa, poderia ter interesse em fazer um estudo desses, mas, penso eu, só devem potenciar fármacos que sejam seus. Nós temos vários medicamentos, vários fármacos, e é difícil encontrar uma que apoie todos. Queremos ver se conseguimos financiamento para estudar aqueles que são mesmo mais importantes e avançar com esses.

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Tendo em conta o que tem estudado, quais são as tendências que vão marcar os próximos anos na área da inovação em oncologia?

Sem dúvida, a introdução da Inteligência Artificial. Será fundamental no diagnóstico e na decisão clínica: consegue juntar muitos dados da farmacologia, do diagnóstico, das análises, da visão terapêutica, das reações adversas.

E essa associação tremenda de dados faz com que os algoritmos que sejam desenvolvidos permitam pensar numa decisão, numa solução, de uma forma muito mais rápida e que vai ajudar o médico.

Sem dúvida que o acesso a esta componente digital, da utilização de dados, da partilha, da transformação dos dados, vai melhorar o diagnóstico e o tratamento em Oncologia. Aquela ideia de que o cancro será uma doença crónica pode ser realidade.


Este artigo foi desenvolvido no âmbito do “Vital”, um projeto editorial do Viral Check e do Polígrafo que conta com o apoio da Fundação Champalimaud.

A Fundação Champalimaud não é de modo algum responsável pelos dados, informações ou pontos de vista expressos no contexto do projeto, nem está por eles vinculado, cabendo a responsabilidade dos mesmos, nos termos do direito aplicável, unicamente aos autores, às pessoas entrevistadas, aos editores ou aos difusores da iniciativa.

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1 Dez 2025 - 08:45

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