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Mafalda Cruz: “Os doentes oncológicos têm muito medo que a vida sexual não volte ao normal”

18 Ago 2025 - 08:45

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Mafalda Cruz: “Os doentes oncológicos têm muito medo que a vida sexual não volte ao normal”

Os tratamentos oncológicos podem ter um impacto na vida sexual dos doentes. Segundo um estudo publicado na revista científica “The Oncologist”, 87% dos 1775 pacientes questionados afirmou ter sofrido com alguma disfunção sexual provocada por tratamentos. Os cancros da mama, ginecológico, da próstata e colorretal são os que têm maior registo deste tipo de efeitos secundários por afetarem áreas importantes a nível sexual. As alterações podem ir desde disfunção erétil ou secura vaginal a dor na penetração e perda de desejo. 

Para a Organização Mundial da Saúde, a saúde sexual é um pilar da qualidade de vida, que envolve bem-estar físico, emocional e relacional. Numa consulta de oncologia há tanto para falar que este tema é, por vezes deixado de parte, diz Mafalda Cruz, radioncologista e pós-graduada em Sexologia Clínica. Também pode acontecer por vergonha, falta de informação ou porque os profissionais evitam um tema para o qual não estão preparados.

Em entrevista ao Viral e ao Polígrafo, Mafalda Cruz fala sobre os constrangimentos de abordar a vida sexual de um doente com cancro em consulta, as alterações sexuais causadas pelos tratamentos (e como lhes dar a volta), a gestão do pós-tratamento e a falta de formação de profissionais de saúde.

É licenciada em Medicina, com especialidade em radioncologia, e pós-graduada em Sexologia Clínica. Porque é que lhe pareceu importante unir estas duas formações?

O que me interessou primeiro foi a Sexologia, sem dúvida, e foi por isso que eu quis ir para a Medicina, o objetivo era ser sexóloga. Mas depois, durante o curso, como na minha altura nunca se falava de sexualidade nas disciplinas que tínhamos — e agora penso que ainda está semelhante —, fui afastando essa ideia, porque também não percebi como é que poderia fazer carreira em Sexologia. Então acabei por escolher a área da Oncologia.

Quando comecei a fazer a especialidade, que é em radioncologia, percebi que os doentes oncológicos ficavam com muitas disfunções sexuais por causa dos tratamentos e que não se falava disso. Foi o impulso de que eu precisava para começar a fazer formação em Sexologia, para conseguir complementar esta área que estava claramente em falta nos nossos doentes.

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Durante a consulta, em que momento é que o profissional de saúde deve falar com o doente sobre sexualidade? Ainda existe vergonha, tanto por parte dos profissionais como dos doentes?

Pode haver algum constrangimento, tanto da parte dos profissionais de saúde, como da parte dos doentes, mas essa não é a única barreira. Há falta de formação dos profissionais de saúde, que não trazem para cima da mesa um tema sobre o qual não têm respostas para dar. Também a falta de tempo na consulta e a ideia, às vezes, de que este assunto não é importante para o doente. Por outro lado, da parte do doente, a ideia de que este assunto é fútil, supérfluo e que não é importante abordá-lo. Essas barreiras acabam por ser muito relevantes no dia a dia, e por isso é difícil falar.

Nas consultas de Oncologia, há tantos temas que é difícil falar sobre todos, e a sexualidade, pelos motivos que referi, acaba por ficar posta de parte. Aquilo que é indicado é que este tema seja falado com o doente oncológico logo desde o início, ainda antes de começarem os tratamentos, porque o doente tem o direito de saber que efeitos secundários a nível sexual é que os tratamentos podem ter. Há pessoas que até optam por um tratamento em vez do outro por causa destes efeitos secundários a nível sexual. Devemos falar o mais cedo possível — quando eu estou a explicar os efeitos secundários, devo referir a parte sexual também.

Essa partilha costuma partir do paciente ou é mais comum surgir como resposta a uma pergunta do médico?

A partilha costuma vir como reação a uma pergunta. Raramente parte da iniciativa dos doentes, por muita vergonha e receio de que alteremos ou suspendamos o tratamento por causa das queixas sexuais. Algumas pessoas acham que estas queixas não são válidas e que têm que continuar a viver com elas, mas não é assim. Muitas vezes, é o médico que acaba por perguntar.

E quais são os medos ou sentimentos mais comuns que os pacientes partilham sobre este tema?

Nota-se muito que as pessoas ficam com a vida sexual muito alterada com os tratamentos, desde disfunção erétil, dor com a penetração, muita secura vaginal e há muito receio de não voltar ao que eram. Há dificuldade em entender que é uma fase mais desafiante, mas que, com as ajudas certas, se pode resolver.

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Existe urgência em resolver o problema logo, porque a parte sexual estar bem dá uma sensação de que a vida voltou ao normal.

As pessoas têm muito medo de que as coisas não voltem a ser o que eram e medo de abandono por parte do companheiro. Sentem que, mais do que algo que lhes foi retirado, estão a retirar algo ao parceiro, há um sentimento de culpa.

Nesses casos em que há companheiros, que tipo de questões colocam em consulta?

Da parte dos companheiros há muito receio. Perguntam muito se podem ter relações sexuais, se irão magoar. Regra geral, têm muito respeito, mas perguntam se podem ter relações com penetração, quando e de que modo, têm medo da doença.

Há quem passe pelos tratamentos sem alterações sexuais? E quando existem, como é que podem ser minimizadas?

Há, certamente, pessoas que passam por esta jornada sem efeitos secundários a nível sexual. Os cancros com maior impacto são o cancro da mama e os cancros da zona pélvica, como o da próstata ou ginecológicos, e digestivos porque os tratamentos incidem também nessa área. Noutras localizações, o impacto sexual tende a ser menor.

Do lado dos profissionais, é preciso entender que esta é uma questão importante para muitos doentes e não desvalorizar. Sempre que possível, propor tratamentos com menor impacto sexual. Na radioterapia, por exemplo, podemos tentar que a radiação chegue o menos possível aos órgãos importantes para a sexualidade. 

Também devemos prevenir que se instale uma disfunção sexual. No caso de mulheres que fazem radioterapia na zona pélvica, como em tumores ginecológicos, há risco elevado de estenose vaginal (uma condição que faz com que a vagina fique mais estreita ou até encerrada). Devemos prevenir, explicando às doentes como fazer exercícios que evitem essa estenose. Quando já está instalada, é muito difícil de tratar.

No cancro da próstata, pode-se tentar prevenir a disfunção erétil começando, o mais cedo possível, a tomar medicação para o tratamento dessa disfunção: isto é algo ainda em fase experimental, mas que pode ajudar.

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Quando o sexo normativo se torna mais complicado ou impossível, que alternativas existem para manter a intimidade e o prazer?

Os casais costumam dizer que parece que se estão a voltar a conhecer, como no início da relação. Quando a penetração fica difícil ou impossível, o casal tem de ser criativo e perceber o que ainda sabe bem e ir por aí.

Se algo dá dor ou desconforto, deve ser evitado. Pode-se apostar numa relação sexual sem penetração — algo que muita gente nem sabe como fazer. As consultas de oncosexologia são muito importantes também por isso: para dar informação e conhecimento.

Os doentes podem redescobrir zonas erógenas — às vezes temos zonas que nem sabíamos que existiam — e apostar numa intimidade não coital: tomar banho juntos, fazer massagens, tempo de qualidade a dois. Esta intimidade física pode dar muita satisfação sexual em alguns momentos em que outras coisas não são possíveis.

E no caso de pessoas sem parceiro? Que tipo de apoio ou estratégias existem?

Esse é um aspeto bastante importante: não devemos ignorar as pessoas sem parceiro, que por vezes são ignoradas. Fazem perguntas e recebem respostas do tipo: “mas não tem parceiro”. Nestes casos, deve-se incentivar a autoexploração: perceber o que dá prazer agora, conhecer-se, conhecer o “novo eu” depois da doença oncológica.

Se a penetração for dolorosa, pode-se usar brinquedos sexuais ou dilatadores vaginais — que são semelhantes a um dildo, mas com o objetivo de evitar que a vagina fique mais estreita. Isto aplica-se também a quem tem parceiro, mas sobretudo a quem está sozinho.

É importante incentivar o convívio com outras pessoas, evitar o isolamento, combater a timidez de conhecer novas pessoas. Muitas vezes há medo de que o outro se assuste com o facto de ter sido um doente oncológico. Devemos incentivar a que a pessoa não se feche sobre si mesma nem se isole.

E quando os tratamentos terminam, o regresso à vida sexual como a conheciam antes acontece naturalmente ou exige ajuda médica?

Mais ou menos um terço das pessoas não vai ter nenhum problema sexual e não precisa de intervenção. Outro terço terá problemas, mas adapta-se e não quer ajuda. E o último terço terá problemas e quer ajuda médica.

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Portanto, pelo menos um terço das pessoas precisa e quer ajuda — e há estudos que apontam para números ainda mais altos. Muitas vezes há esta ideia de que a sexualidade não é importante ou que os doentes não querem tratar, mas havendo ajuda disponível, a maioria quer.

No caso de internamentos longos ou cuidados paliativos, o que é que os hospitais fazem ou podem fazer para garantir alguma intimidade aos doentes?

Geralmente, mesmo que sejam internamentos longos, não existe nada em concreto. Tenta-se respeitar alguma privacidade, mas não há muito que se possa fazer.

Em contexto de cuidados paliativos é diferente, há mais cuidado. Às vezes existem quartos próprios para o casal estar junto, ou quartos individuais, o que já ajuda. Também há a possibilidade de o companheiro ou companheira dormir lá de vez em quando. Tenta-se ajustar conforme os desejos de cada pessoa, que variam muito. É importante ouvir e entender o que cada pessoa deseja em situação de fim de vida.

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O que é que falta para os profissionais de saúde estarem melhor preparados para lidar com a sexualidade dos doentes oncológicos?

Falta muita formação pré-graduada, tanto em medicina como em enfermagem e psicologia.

Mesmo durante a especialidade médica, o internato, também não se fala de sexualidade, nem em ginecologia, nem em urologia. Às vezes são apenas estágios opcionais, para quem já tem interesse prévio.

Faltam também recursos humanos com formação em sexologia para fazer estas consultas, e falta sensibilização por parte das administrações hospitalares. Muitas vezes não há interesse ou vontade de abrir uma consulta de Sexologia no hospital.


Este artigo foi desenvolvido no âmbito do “Vital”, um projeto editorial do Viral Check e do Polígrafo que conta com o apoio da Fundação Champalimaud.

A Fundação Champalimaud não é de modo algum responsável pelos dados, informações ou pontos de vista expressos no contexto do projeto, nem está por eles vinculado, cabendo a responsabilidade dos mesmos, nos termos do direito aplicável, unicamente aos autores, às pessoas entrevistadas, aos editores ou aos difusores da iniciativa.

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18 Ago 2025 - 08:45

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