Liliana Ferreira: “Continuamos a ter centros de saúde com um único nutricionista para milhares de utentes”
A alimentação é hoje um dos temas mais discutidos na esfera pública, mas também um dos mais expostos à desinformação. A literacia alimentar continua a ser um desafio em Portugal, onde uma parte significativa da população ainda revela dificuldades em transformar conhecimento em práticas alimentares consistentes.
É neste contexto que Liliana Ferreira assume funções enquanto presidente da Associação Portuguesa de Nutrição (APN) para o triénio 2026–2029. Nutricionista há 12 anos, assume a liderança da associação num momento em que a profissão enfrenta desafios estruturais, desde a falta de recursos humanos em áreas-chave do sistema de saúde à necessidade de reforçar o papel da evidência científica num espaço público cada vez mais dominado por conteúdos virais.
Professora assistente convidada na Escola Superior de Tecnologia da Saúde do Politécnico de Coimbra e na Faculdade de Ciências da Nutrição e Alimentação da Universidade do Porto, onde é também doutoranda em Ciências do Consumo Alimentar e da Nutrição, Liliana Ferreira fala ao Viral sobre os principais desafios da nutrição em Portugal, o impacto da desinformação e o papel da APN na valorização e consolidação da profissão.
Assume a liderança da Associação Portuguesa de Nutrição num contexto em que há cada vez mais informação sobre alimentação, mas, segundo um estudo recente da própria APN, cerca de um terço dos portugueses não ultrapassa níveis básicos de literacia alimentar e persistem dificuldades na aplicação prática das recomendações. Que diagnóstico faz da situação atual da nutrição em Portugal e quais são as prioridades mais urgentes?
Uma das prioridades do nosso mandato, que começa agora e que vai durar três anos, é precisamente a questão da desinformação sobre alimentação e nutrição que circula atualmente.
Nunca vivemos uma era em que tivéssemos acesso a tanta informação, mas simultaneamente a tanta desinformação. E toda esta avalanche de informação acaba por prejudicar em parte a capacidade de os cidadãos, por exemplo, aplicarem o conhecimento e também impede que haja níveis mais elevados de literacia alimentar.
Este trabalho que a APN fez consistiu em acompanhar e avaliar uma série de dimensões na área da literacia alimentar e concluiu que os níveis de literacia alimentar dos adultos residentes em Portugal poderiam ser mais interessantes principalmente nestas competências relacionadas com a tradução do conhecimento para a aplicabilidade prática.
E aquilo que nós sentimos é que a informação circula, mas, como também circula muita desinformação, acaba por se perder um pouco o fio à meada sobre aquilo que as pessoas depreendem como correto ou não. Depois, os cidadãos tentam aplicar essa informação e, às vezes, por ser incorreta, as coisas não funcionam. E acabam por não investir tanto nessa área.
Portanto, temos aqui uma série de fatores que estão a impactar os resultados desse trabalho. E, para nós, dentro dos objetivos que definimos, a desinformação é um dos pontos que nos é mais caro enquanto associação técnico-científica.
Nas redes sociais, não faltam influenciadores digitais focados na área da nutrição, mas muitos deles não têm conhecimento científico ou clínico nem são profissionais de saúde. Até que ponto a desinformação amplificada pelas redes sociais e pela proliferação de conteúdos sem validade científica pode ser uma ameaça real a um comportamento alimentar saudável?
É efetivamente uma ameaça real. Tanto é que já começamos a ver vários países a limitar ou até a proibir esse tipo de partilhas nas redes sociais por pessoas que não são credenciadas. Isso mostra que esta preocupação tem fundamento.
Em Portugal, isso ainda não acontece, e não sei se algum dia virá a acontecer, mas aquilo de que nos apercebemos é que este é, sem dúvida, um dos pontos mais difíceis de gerir. Hoje, qualquer pessoa pode abrir uma página numa rede social e começar a debitar informação.
E, obviamente, há aqui diferentes níveis de risco. Uma coisa é alguém dizer, por exemplo, “comam cinco peças de fruta por dia”. É uma informação, por assim dizer, “banal”, sem grande risco associado. Outra coisa completamente diferente é alguém, sem qualquer formação, dar conselhos que podem colocar em causa a saúde das pessoas.
Estamos a falar de situações em que se fazem recomendações que não têm em conta a condição ou as patologias de cada pessoa, ou que levam à restrição de determinados alimentos ou grupos alimentares sem que se explique como devem ser substituídos. Isso é algo que nos tem preocupado cada vez mais.
Portanto, é um tema muito complexo, até porque não conseguimos controlar as redes sociais. A mensagem que passamos é que as pessoas tentem, tanto quanto possível, fiar-se em fontes reconhecidas, como organismos governamentais, associações técnico-científicas e projetos credíveis, como o Viral, para garantir que estão a aceder a informação baseada em evidência e devidamente validada.
E como é que a Associação Portuguesa de Nutrição tenciona responder a este fenómeno? De que forma é que os nutricionistas podem competir com influencers e com este tipo de conteúdos virais sem rigor científico?
A Associação Portuguesa de Nutrição, neste momento, e já há quase 10 anos, desde a criação da Ordem dos Nutricionistas, deixou de ter um papel de regulação da profissão, até porque não é essa a nossa competência. Passámos a ser uma associação exclusivamente técnico-científica, com o objetivo de fazer crescer e consolidar a relevância e a excelência técnico-científica que procuramos imprimir em todos os nossos trabalhos.
Portanto, a nossa missão relativamente a esse tema passa por garantir que tudo aquilo que produzimos, tudo aquilo em que nos envolvemos e todas as parcerias que estabelecemos têm por base a evidência científica. Para nós, isso nem sequer é uma discussão, porque faz parte da forma como somos formados.
Depois, temos também vários projetos e parcerias, quer com o setor agroalimentar, quer com o setor da saúde, ou mesmo com a comunidade em geral. Sempre que somos chamados a contribuir para o esclarecimento de desinformação, procuramos fazê-lo, dentro das nossas possibilidades e capacidade de intervenção. O objetivo é que toda a informação que veiculamos ajude não só os profissionais da área, mas também a comunidade, garantindo acesso a informação validada cientificamente e de forma clara, para que depois possa ser aplicada no terreno, seja a nível individual, seja numa perspetiva mais comunitária.
No fundo, o nosso desafio é manter esta excelência técnico-científica que temos vindo a construir nos últimos anos e garantir rigor em tudo aquilo que produzimos.
Ao nível de publicações, por exemplo, lançámos recentemente o Manual de Avaliação do Estado Nutricional, que é um documento técnico, desenvolvido por vários especialistas e completamente blindado em evidência científica. Lançámos também um guia relacionado com a pessoa idosa, igualmente baseado em evidência científica.
Ou seja, não publicamos nada que não tenha esse respaldo. O que queremos é disponibilizar materiais, tanto para os profissionais como para a comunidade em geral, que permitam uma transmissão de informação de qualidade.
Paralelamente, vamos respondendo a solicitações de diferentes parceiros, incluindo projetos de esclarecimento e desmistificação de mitos alimentares, assegurando sempre a revisão técnico-científica. Isso faz parte da nossa visão e da nossa missão.
A alimentação na infância é reconhecida como determinante para a saúde ao longo da vida, mas persistem lacunas na regulamentação alimentar em creches. Considera que Portugal está a falhar nesta área?
Efetivamente, é uma lacuna. Mas é uma lacuna que acreditamos que será colmatada em breve.
Aquilo que sentimos é que há momentos em que determinadas áreas ou faixas etárias acabam por ganhar mais destaque, muitas vezes também por influência do que se passa noutros países. Ainda assim, é importante mantermos a serenidade e a cautela científica, para não criar recomendações sem base sólida.
Existem orientações internacionais, mas estas têm sempre de ser adaptadas à realidade portuguesa, porque os nossos hábitos alimentares e o contexto são diferentes. Nesse sentido, há de facto necessidade de orientações mais concretas para as creches, até porque, a partir do jardim de infância, essas orientações já existem e vão acompanhando o percurso escolar.
Ou seja, reconhecemos essa lacuna, mas acreditados que será preenchida em breve. Enquanto associação, aquilo que temos feito é desenvolver materiais que possam ajudar a colmatar essa necessidade. Temos, por exemplo, um e-book sobre a alimentação nos primeiros mil dias de vida, que reúne informação validada e credível e que pode apoiar os profissionais na adaptação dessas orientações ao contexto de creche.
Estamos a falar de uma fase muito precoce da vida, com uma enorme janela de oportunidade para a criação de hábitos alimentares saudáveis que terão impacto ao longo da vida. Por isso, é sem dúvida uma área que deve ser priorizada.
O nosso papel, enquanto Associação Portuguesa de Nutrição, passa por criar materiais de fácil acesso e baseados em evidência científica, que apoiem os profissionais no terreno. Paralelamente, aguardamos a publicação de orientações oficiais, que acreditamos que venham a surgir em breve.
É importante também referir que este tipo de documentos tende a ser orientador e não obrigatório, uma vez que a sua aplicação obrigatória depende de decisões governamentais. O contributo da associação passa por participar em grupos de trabalho, apoiar a produção de evidência e colaborar com os decisores.
Falando de outra faixa etária, Portugal é um dos países mais envelhecidos da Europa e a desnutrição nos idosos é um problema. Esta população está a receber a atenção que merece em termos de acompanhamento nutricional?
Eu sou suspeita, porque esta é a minha principal área de trabalho e investigação, mas tenho mesmo a perceção de que é uma área que nem sempre é tratada como deveria.
A questão da pessoa idosa acaba por ser menos “catchy”. Ou seja, tudo o que diz respeito à nutrição e alimentação tende a ser mais apelativo quando falamos dos primeiros anos de vida, porque são fases em que sentimos que o investimento tem um impacto mais visível ao longo do tempo. E, por isso, a área da pessoa idosa acaba, muitas vezes, por ficar para segundo plano, quase como o “primo pobre” da nutrição, o que, para mim, não faz sentido nenhum.
Até porque a realidade demográfica em Portugal é muito clara. Temos um índice de envelhecimento muito elevado. Em 2024, esse índice era de 192,4, ou seja, existem cerca de 192 idosos por cada 100 jovens. Neste indicador, somos o segundo país mais envelhecido da Europa, logo a seguir à Itália. Temos uma pirâmide demográfica invertida e uma população que vive cada vez mais anos, embora nem sempre com qualidade de vida. E aqui, a nutrição e a alimentação têm um papel absolutamente essencial.
Da experiência que tenho a trabalhar e a investigar nesta área, posso dizer que a nutrição pode fazer uma diferença muito significativa na qualidade de vida nos últimos anos. Ainda assim, sinto que, a nível da sociedade, não é um tema tão valorizado ou tão facilmente reconhecido como prioritário.
Isso não significa, naturalmente, que deixemos de o trabalhar. Pelo contrário, temos procurado dar-lhe atenção. Um exemplo recente foi o desenvolvimento de um guia dirigido à pessoa idosa, pensado não só para os próprios, mas também para famílias e cuidadores. É um material com uma componente de enquadramento, orientações sobre alimentação e hidratação e também sobre suplementação nutricional oral, quando necessária. Está disponível gratuitamente, por exemplo, em farmácias.
Nessas parcerias, há um princípio fundamental para nós: podemos ter parceiros, incluindo do setor agroalimentar ou da saúde, mas eles não intervêm nos conteúdos. A componente técnico-científica é sempre da nossa responsabilidade. Acreditamos que trabalhar em conjunto com diferentes atores faz sentido, desde que o rigor e a independência sejam assegurados.
Portanto, apesar de ser uma área menos visível, temos plena noção da sua importância. Até porque muitas das condições associadas ao envelhecimento, como doenças neurológicas, eventos cardiovasculares ou situações demenciais, têm um impacto muito significativo na alimentação e no estado nutricional. E isso acaba por influenciar todo o funcionamento do organismo e a qualidade de vida destas pessoas.
A integração de nutricionistas nos cuidados de saúde primários continua a ser apontada como insuficiente, que avanços espera ver neste sentido e que papel pode a APN desempenhar junto dos decisores políticos?
O facto de, neste momento, sermos uma profissão regulada por uma ordem profissional faz com que haja aqui uma separação de funções.
A regulação da profissão é, neste momento, da responsabilidade da Ordem dos Nutricionistas, e essa dimensão de intervenção mais política e regulatória acaba por estar mais associada às suas funções.
Uma coisa, no entanto, é completamente indiscutível: não temos nutricionistas suficientes nos cuidados de saúde primários, tal como acontece em muitos outros setores do país. Há áreas onde tem havido algum crescimento, nomeadamente no setor hospitalar, mas continua a ser manifestamente insuficiente face às necessidades, sobretudo tendo em conta não só a população mais idosa, mas também a população adulta com patologia.
Isto é um ponto incontornável. E, muitas vezes, não se tem noção de que um nutricionista nos cuidados de saúde primários consegue dar resposta a muitas necessidades diferentes. O problema é que não basta existir um. Continuamos a ter centros de saúde e unidades locais de saúde com um único nutricionista para milhares de utentes, o que, como é evidente, não permite dar resposta a tudo.
Isto gera também, da nossa parte enquanto profissionais, uma frustração constante, que é querer chegar a mais pessoas e não conseguir.
No que diz respeito à Associação Portuguesa de Nutrição, enquanto associação técnico-científica, não temos neste momento um papel de pressão política ou legislativa. Ainda assim, aquilo que fazemos é, em qualquer contexto, destacar e reforçar o papel dos nutricionistas nestas áreas.
Um exemplo disso é o nosso congresso anual, que irá decorrer nos dias 28 e 29 de maio, um evento de grande dimensão dirigido a profissionais, não só nutricionistas, mas todos os que trabalham na área da nutrição e alimentação. Nesse congresso procuramos dar visibilidade aos trabalhos e temas desenvolvidos por colegas em várias áreas, incluindo, naturalmente, os cuidados de saúde primários.
Além do programa principal, recebemos também comunicações orais e posters científicos, o que permite divulgar esse trabalho de forma mais alargada.
Outro exemplo é a Ata Portuguesa de Nutrição, que é a única revista científica da área em Portugal. Enquanto associação, somos a entidade responsável por essa publicação, que tem quatro edições por ano e onde são publicados artigos científicos revistos por pares.
Portanto, o nosso papel passa sobretudo por sustentar técnico-cientificamente a importância do trabalho dos nutricionistas nos vários contextos, incluindo os cuidados de saúde primários. O objetivo é que, depois, exista evidência clara que sustente a necessidade de reforçar recursos humanos nestas áreas, porque sabemos que é possível fazer mais e melhor, mas para isso é necessário mais profissionais e uma maior presença no terreno.
Os nutricionistas enfrentam hoje vários desafios profissionais, nomeadamente, em muitos casos, a precariedade e a instabilidade laboral. Que medidas considera essenciais para valorizar e proteger a profissão?
Honestamente, acho que isto tem muito que ver com aquilo que falávamos anteriormente. Esta precariedade resulta, em grande medida, do facto de muitas vezes termos de trabalhar em várias “capelinhas” ao mesmo tempo para conseguir ter um rendimento relevante.
Por um lado, isso traz-nos uma série de competências interessantes, como gestão de tempo, capacidade de adaptação e desenrascanço, que acabam por caracterizar muito a nossa profissão. Mas, nos dias de hoje, traz também esta precariedade que nenhum de nós quer e que não nos permite, sobretudo aos mais jovens, progredir em algumas dimensões de vida como gostaríamos.
Aquilo que sentimos, e apesar de não dever ser necessariamente assim, é que muitas vezes as coisas vão crescendo à medida que se tornam obrigatórias. Há muito tempo que se fala, por exemplo, da obrigatoriedade da presença de um nutricionista no setor social, nomeadamente nas IPSS, porque atualmente isso não é obrigatório por lei, exceto em algumas respostas específicas, como as unidades de diálise, onde essa presença já está prevista por portaria.
Mas, por muito que me custe dizer isto, muitas vezes as coisas só mudam quando se tornam obrigatórias. Felizmente, já houve um crescimento significativo nas áreas onde o nutricionista atua. Desde que entrei na faculdade até agora, houve uma evolução muito grande. Por exemplo, na altura havia muito poucos nutricionistas nas autarquias. Hoje em dia é quase o inverso, já é mais fácil contar as que ainda não têm nutricionista.
Isto mostra que conseguimos, muitas vezes, ir para o terreno e demonstrar a nossa necessidade em diferentes contextos e áreas de intervenção. No entanto, por muito que me custe, e não sendo eu defensora de que esta deva ser a forma ideal de crescimento, a verdade é que, na falta de alternativas, a obrigatoriedade acaba por ser um motor de mudança.
Nos últimos anos tem-se falado, por exemplo, na presença obrigatória de nutricionistas em IPSS, em nutricionistas escolares em determinados agrupamentos, e até na definição de rácios, embora isso já seja mais do âmbito da Ordem.
Até agora, o crescimento tem acontecido muito desta forma: um colega entra num local onde nunca houve nutricionista, faz estágio, demonstra necessidade e, se houver abertura, vai ficando e a função vai-se consolidando. É um processo que tem funcionado, mas que acaba por ser o sistema ao contrário, quase como se estivéssemos a “escavar o nosso próprio terreno”.
Isso dá-nos competências, mas também alimenta esta precariedade. Conheço colegas que fazem um trabalho extraordinário em diferentes contextos, incluindo no setor social, e que chegam a trabalhar em seis ou sete instituições ao mesmo tempo para conseguirem um rendimento minimamente estável.
Esta é uma realidade que nos preocupa. E, não podendo nós intervir diretamente a nível político ou legislativo, aquilo que tentamos fazer é divulgar o trabalho dos colegas, dar visibilidade à produção científica e mostrar que existe evidência e necessidade real de intervenção em muitas áreas.
O objetivo é precisamente reforçar que não se trata de um capricho, como por vezes ainda é visto, mas sim de uma necessidade. Sempre que possível, defendemos que a presença do nutricionista deve ser estruturada e enquadrada na legislação, como já acontece em alguns contextos.
No início do mandato, definiu como objetivo reforçar a APN como uma entidade dinâmica e credível, próxima dos seus associados e como referência técnico-científica ao serviço da profissão e da sociedade. Que mudanças concretas pretende que sejam visíveis no final do triénio 2026–2029?
Sim. Nós temos a vantagem de sermos uma direção de continuidade. Viemos da direção anterior, com alguns elementos que se mantêm e outros que são novos, o que nos permite juntar duas dimensões que considero muito interessantes: uma continuidade responsável e uma inovação na medida certa.
O que queremos, desde logo, é consolidar alguns processos internos que, embora não sejam tão visíveis para o público, são fundamentais para o funcionamento da associação. Falo de processos de gestão da formação, da gestão dos associados e da comunicação, que queremos tornar mais eficiente, mais rápida e mais eficaz, tanto internamente como na relação com o exterior.
Este é um objetivo que pode não ser tão visível para a sociedade em geral, mas que é essencial para nós enquanto associação. Paralelamente, vamos continuar a trabalhar para manter o posicionamento da APN na comunidade, no setor agroalimentar e no setor da saúde.
Um dos eixos em que queremos crescer, e que acaba por ser mais diferenciador em relação ao que tínhamos previsto anteriormente, é a área dos projetos. Já vínhamos a desenvolver projetos direcionados para a comunidade, sobretudo na área da literacia alimentar, e queremos reforçar essa aposta.
Para nós, há dois níveis de trabalho: por um lado, a base da associação, que são os associados, porque são eles que permitem que a APN exista; por outro, a necessidade de aproximar cada vez mais a associação da comunidade em geral, para que as pessoas nos conheçam e reconheçam o nosso trabalho. E os projetos são uma forma muito concreta de fazer essa ligação.
Tivemos, por exemplo, há cerca de um ano e meio, um projeto de literacia alimentar que percorreu o país com ações práticas de educação alimentar, sobretudo dirigidas a famílias em situação de vulnerabilidade socioeconómica. Queremos crescer nesta área porque sabemos que é também desta forma que conseguimos chegar mais perto das pessoas.
Em paralelo, mantemos aquilo que são as nossas atividades core, como a organização do congresso anual, que é, neste momento, o maior congresso de nutrição e alimentação do país, e a manutenção da nossa revista científica. Pode parecer algo mais técnico ou de nicho, mas é precisamente isso que nos permite sustentar e valorizar o trabalho científico desenvolvido na área.
Em termos de desafios para este triénio, identificámos dois principais. Um é a desinformação, que já tínhamos sinalizado anteriormente e para a qual vamos tentar orientar muitas das nossas atividades. O outro é a inteligência artificial, que não vemos como uma ameaça, mas sim como um desafio de adaptação e integração. A nossa abordagem não é de combate, mas sim de perceber como a podemos pôr ao serviço dos profissionais.
Nesse sentido, temos vindo a trabalhar essa área também na formação. A APN tem um setor de formação muito robusto, que neste momento está orientado sobretudo para nutricionistas, mas estamos a ponderar alargar a outros profissionais da saúde e do setor agroalimentar.
Já no início de maio, por exemplo, vamos realizar um curso sobre inteligência artificial na escrita científica. E estamos também a planear formações relacionadas com a utilização de ferramentas de inteligência artificial na prática clínica do nutricionista.
O nosso objetivo é precisamente esse: ir acompanhando os desafios que vão surgindo no contexto, perceber como se podem integrar de forma útil e ir respondendo à medida das nossas capacidades e do que o próprio contexto permite.
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