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João Pedro Ferreira: “Provavelmente, se queremos reduzir o risco cardiovascular, devemos consumir menos carne vermelha”

5 Set 2026 - 08:15

João Pedro Ferreira: “Provavelmente, se queremos reduzir o risco cardiovascular, devemos consumir menos carne vermelha”

Um estudo realizado por investigadores portugueses sugere que substituir a carne vermelha por alternativas de origem vegetal pode contribuir para a redução do risco cardiovascular. O trabalho, publicado na revista Scientific Reports, do grupo Nature, foi financiado pela Universidade McGill, em Montreal, no Canadá, e contou com a participação de João Pedro Ferreira e Pedro Marques, da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP).

Intitulado Finding Optimal Oral Diet-1 (FOOD-1) trial, o estudo acompanhou 41 participantes com risco cardiovascular elevado. Durante seis dias, os participantes consumiram dois hambúrgueres à base de plantas ou dois hambúrgueres de carne de vaca por dia, trocando depois para a dieta alternativa, após um período de pausa.

Os investigadores avaliaram os níveis de TMAO (Trimethylamine N-oxide), bem como outros marcadores associados ao risco cardiovascular, incluindo o colesterol. Os resultados revelaram uma redução significativa dos níveis de TMAO durante o consumo de hambúrgueres à base de plantas.

Ao Viral, João Pedro Ferreira explica o que é o TMAO, qual a sua relação com o risco cardiovascular e de que forma a redução do consumo de carne vermelha pode contribuir para a saúde do coração.

O que é exatamente o TMAO e porque é importante quando falamos de carne vermelha e saúde cardiovascular? 

O TMAO é um composto, que se chama Trimethylamine N-oxide, produzido pelas bactérias do intestino.
Este composto é libertado para a circulação, para o sangue, e os níveis aumentam com certos tipos de alimentação.

Além das carnes vermelhas, o marisco, os ovos, tudo o que é de origem animal pode aumentar os níveis de TMAO. Mas principalmente a carne vermelha e o marisco.

Níveis elevados de TMAO associam-se a um aumento de risco cardiovascular, portanto, infarto do miocárdio, AVC e insuficiência cardíaca.

Mas esta associação não quer dizer que o TMAO seja a causa, ou seja, parece existir uma relação entre os níveis de TMAO e a doença cardiovascular, mas esta relação pode ser confundida por outros fatores.

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Por exemplo, as pessoas que têm níveis de TMAO podem ter um nível de vida menos saudável, serem mais sedentárias, podem consumir tabaco, ter doença renal. Tudo isso também influencia os níveis de TMAO.

Existem uma série de confundidores que não permitem estabelecer uma relação causa-efeito entre os níveis de TMAO e a doença cardiovascular.


Agora, ter os níveis sustentadamente elevados associa-se a um risco maior, portanto, é provavelmente benéfico baixar os níveis deste composto.


Este estudo foi randomizado e toda a gente fez as duas opções, ou seja, aleatoriamente, as pessoas começavam ou pela estratégia vegetal ou pela estratégia animal. Cada um fez um tipo de alimentação durante uma semana e outro tipo de alimentação noutra semana, com análises no fim de cada uma. 

A pessoa não sabia o que estava a comer, mas nós tínhamos um inquérito, no final, para a pessoa adivinhar. E a maioria das pessoas acertou, sabia que estava a comer um hambúrguer de origem vegetal, embora muita gente tenha dito que não sabia, cerca de 25%.


Aqui, neste caso, a relação entre a carne vegetal e a redução do TMAO é causal, ou seja, foi a carne vegetal que reduziu o TMAO, porque foi um estudo randomizado e aleatorizado. Este efeito nós podemos estabelecer que foi devido à pessoa não ter ingerido hambúrgueres de carne que os níveis se reduziram.

Também registaram uma redução do colesterol LDL (colesterol “mau”) quando os participantes comeram os hambúrgueres de origem vegetal. A diferença é clinicamente relevante?

Sim, a diferença foi relevante clinicamente e também indica que alterar o consumo de carne, ou reduzir o consumo de carne e substituir por produtos de origem vegetal pode diminuir o perfil lipídico, nomeadamente o colesterol LDL. Esse, sim, é um fator causal de risco cardiovascular, nomeadamente enfarte do miocárdio e AVC.


Um dos resultados que pode surpreender é o aumento de cerca de 0,6 kg de peso durante a dieta à base de produtos vegetais. Como é que explica este resultado?

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Estes produtos vegetais são produtos ultraprocessados e têm um conteúdo de sal muito elevado. Portanto, esse aumento de peso provavelmente vem da retenção hidrossalina, ou seja, a retenção excessiva de água e sal no organismo.

Daí nós termos incluído doentes com um fator de risco cardiovascular elevado, exatamente para tentar perceber essas nuances. 

O consumo dos hambúrgueres, só por si, superou a dose diária de sal recomendada.
Mas como era um estudo em que nós queríamos perceber isso, dissemos às pessoas para tentarem comer dois hambúrgueres por dia, uma dose que no dia a dia a maioria das pessoas não fará.

Porque é que escolheram este produto? Porque não escolher uma fonte de proteína vegetal menos processada?

Muitas pessoas escolhem carne porque gostam do sabor e do cheiro. Então, nós queríamos mesmo ter um produto que mimetizasse a carne.

A ideia aqui era substituir os hambúrgueres por um produto que parece hambúrguer de carne, mas não é.

Este estudo permite concluir que a alternativa vegetal é mais saudável?


Este estudo não nos indica qual é a alternativa mais saudável. O que ele indica é que, provavelmente, se queremos reduzir o risco cardiovascular, devemos consumir menos carne, nomeadamente carne vermelha.

Se a pessoa gostar mesmo muito de carne e quiser substituir por um produto deste género, que mimetiza a carne mas é de origem vegetal, pode fazê-lo, mas numa dose mais moderada. Eu diria não mais do que um ou dois hambúrgueres por semana.

Isto porque estes produtos, apesar de não serem de origem animal, têm estabilizadores, sal e outros que não são necessariamente bons para a saúde.

Quais são as principais limitações do estudo?

As limitações são mais inerentes ao tempo de exposição, que foi curto. Embora, o nosso objetivo fosse analisar estes marcadores de saúde.

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E depois não termos seguimento de longo prazo. É um estudo curto com uma amostra pequena e nós não temos dados de que estes produtos de origem vegetal, de facto, podem proteger de eventos cardiovasculares.

É uma hipótese que requer confirmação em estudos futuros. Precisamos de mais estudos, com maior tamanho amostral e com um seguimento mais longo.

Agora, com toda a transparência, é improvável que se vá realizar outro estudo, porque estes estudos têm de ter um financiamento público, porque as empresas não têm interesse em financiar este tipo de estudos.

Depois, em Portugal, o financiamento para os ensaios clínicos da iniciativa do investigador é muito baixo. É improvável que esses estudos se realizem, pelo menos em Portugal.

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Saúde cardiovascular

5 Set 2026 - 08:15

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