Fernando Cirurgião: “Há uma despreocupação dos jovens em relação ao que significa ter uma doença sexualmente transmissível”
Os adolescentes estão a usar menos o preservativo. É o que mostram os dados mais recentes da Organização Mundial da Saúde (OMS), divulgados num relatório publicado em 2024, que analisou a saúde sexual de jovens de 15 anos em 42 países, incluindo Portugal. Entre este e o relatório anterior, a percentagem de rapazes que afirmou ter usado preservativo na última relação sexual caiu de 70% para 61%. Entre as raparigas, passou de 63% para 57%.
A propósito do Dia Mundial da Contraceção, que se assinala todos os anos a 26 de setembro, Fernando Cirurgião, ginecologista, obstetra e diretor do serviço de obstetrícia do Hospital de São Francisco Xavier, explica o que pode estar por trás desta tendência, quais os riscos associados e o que pode ser feito para promover o uso do preservativo entre os mais jovens.
Os dados mais recentes da OMS mostram uma diminuição do uso do preservativo entre os adolescentes na Europa. Na sua perspetiva, o que pode justificar esta tendência?
O lema da campanha para o Dia Mundial da Contraceção 2026, criado pela Sociedade Europeia de Contraceção, é: “sem barreiras, apenas escolhas”. Esta frase pretende transmitir que deve haver um acesso, escolhas e direitos em relação ao planeamento familiar.
A realidade mostra-nos – e isso tem vindo a ficar mais problemático há alguns anos – que, apesar de existirem consultas de planeamento familiar, podem não estar a ser suficientemente divulgadas, porque a frequência dessas consultas é reduzidíssima.
E os adolescentes são provavelmente aqueles que mais beneficiam do acesso a essas consultas, não só para ir buscar os métodos contracetivos, mas também para terem informação sobre este assunto. Mas 90% dos jovens não frequentam as consultas de planeamento familiar.
Depois, a educação sexual também é algo que já se ouviu falar muito mais. Inclusive, há vários anos, tínhamos várias ações de formação junto das escolas. Havia até alguns centros de planeamento familiar, fora do contexto de centros de saúde, para tornar tudo menos público e exposto, para que os adolescentes pudessem ir a esses centros procurar ajuda, conselhos e recolherem o que pudesse ser gratuito, como métodos contracetivos.
Tudo isso também não tem acontecido, tem-se perdido. Neste momento, em Portugal, temos 90% de não frequência das consultas de planeamento familiar e dificuldade no acesso à educação sexual.
Além disso, verifica-se um desconhecimento da própria população em relação às opções disponíveis, como, por exemplo, em relação à contraceção de emergência.
Conforme os anos vão passando, as pessoas que chegam a uma idade em que passam a ser sexualmente ativas acabam por não ter o conhecimento de que existe a possibilidade de planear uma gravidez.
E a grande preocupação também não pode ser só a gravidez, temos de interligar as coisas. É importante pensar não só em termos de contraceção, mas no que as relações desprotegidas significam em termos de saúde: saúde pública e saúde para o próprio.
Segundo o relatório, apenas 57% das raparigas e 61% dos rapazes inquiridos diz ter usado preservativo na última relação sexual. Que importância deve ser dada a estes números?
Os dados que a OMS publicou são muito específicos, mas servem para fazer o alerta. O estudo abrange quase um quarto de milhão de jovens com 15 anos e o que importa salientar é que há uma redução na utilização do preservativo nesta população.
Portanto, o que já podia ser um uso reduzido – ou um uso que não seria, de todo, exemplar – passou a ser uma preocupação. A preocupação é: se isto continuar assim, há cada vez mais relações sexuais desprotegidas. Todas as doenças infectocontagiosas sexualmente transmissíveis podem estar associadas a estas relações sem proteção.
Os dados sobre as doenças sexualmente transmissíveis também foram publicados e no ano passado era esse o alerta. Houve um incremento brutal do número de casos comunicados de DST.
Esses são os casos comunicados e se calhar até serão muitos mais, porque apesar de serem doenças de declaração obrigatória, as coisas nem sempre são assim tão cumpridas.
Daquelas que são declaradas, há um aumento significativo de gonorreia, sífilis e de clamídia. São doenças que deixam marcas e algumas delas são bons exemplos de causas de infertilidade mais tarde na vida.
Então, a preocupação ainda acaba por ser maior. Até o próprio HIV também teve, outra vez, um aumento na sua transmissão.
Poderá existir, atualmente, uma falsa sensação de segurança entre os jovens em relação às doenças sexualmente transmissíveis?
Estamos a falar de menor acesso à informação, menor preocupação com a informação, menos campanhas de divulgação acerca de planeamento familiar, e uma despreocupação dos jovens em relação ao que significa ter uma doença sexualmente transmissível.
Hoje em dia também sabemos que uma percentagem significativa dos jovens têm estas relações sob o efeito de álcool. São situações que acabam por moldar completamente todo o pensamento e, às vezes, alguns conceitos que possam existir acabam por não estar presentes nesse contexto.
São vários fatores que estão interligados entre si. O consumo de álcool, esta despreocupação em relação às DSTs, a não-educação sexual que deveria estar mais presente nas escolas e não está.
Tudo isto culmina, naturalmente, em situações que acabam por levar a relações desprotegidas, sem preocupação, de todo, com as consequências.
Quando foram registados os primeiros casos de HIV, ter a infeção era quase uma sentença de morte. Na altura, isso foi transmitido com o devido pânico e com o devido receio, porque esse receio era real.
Hoje, a mensagem que tem sido colhida junto de toda a população é que o HIV tornou-se uma doença crónica e não propriamente uma doença que pudesse matar.
Mas atenção que, fazer uma terapêutica contínua, crónica, por causa desta patologia, ainda que permita sobreviver, está associada a uma redução da esperança de vida.
Há uma falta de sensibilização da população que começa na população jovem. Se esses hábitos acontecem nos jovens, naturalmente, manter-se-ão para o futuro e vão transmitir-se às gerações posteriores.
A dupla proteção também é algo que tem de ser transmitido, não só por causa da gravidez não desejada, mas também por causa das doenças sexualmente transmissíveis.
Estas doenças não são assim tão transmitidas como ‘um bicho-papão’ como será um cancro, mas são doenças que, em termos de consequências futuras, acabam por ser nefastas e podem comprometer a vida daquela pessoa e daquele casal.
Perante estes dados, onde se está a falhar na promoção do uso do preservativo entre os adolescentes? E o que poderia ser feito de forma diferente?
Não podemos estar à espera destes números, nem temos de estar à espera que sejam os jovens a procurar-nos.
Vai acontecendo, pontualmente. Tal como acabamos por ter também a procura dessas consultas, também há a procura pontual pelo próprio ginecologista da mãe.
Estas atitudes individuais são de louvar. É importante haver um diálogo entre pais e filhos sobre a preocupação em relação à educação sexual.
Mas está claro que aquilo que importa é uma atitude geral e não propriamente estas atitudes individuais.
O que devemos fazer – e isso deverá ser uma grande meta para quem está acima de nós – é promover uma implementação e uma divulgação muito séria e muito bem definida (que não existe) acerca do acesso a consultas de planeamento familiar e à parte da educação sexual nas escolas, ou que existam sessões fora delas, para não levar a estes números.
Além do acesso, em relação aos métodos contracetivos, também temos de procurar individualizar a escolha. O método contracetivo deve ser divulgado, falado, mas é importante que a pessoa ou o próprio casal tenham uma opção livre. Não deve ser algo quase imposto, como acontece, muitas vezes, no caso das mulheres com a toma da pílula.
As campanhas de prevenção devem adaptar-se mais à forma como os jovens consomem informação, nomeadamente através das redes sociais, por exemplo?
A informação através da internet acaba por ser, muitas vezes, uma informação isolada, técnica e que acaba por nem sempre permitir uma interatividade.
Podemos dizer que existem podcasts, webinars, por aí fora, mas é completamente diferente do que estar numa sala ou numa consulta a intervir e a responder logo diretamente a perguntas que, muitas vezes, são perguntas espontâneas.
Por exemplo, a questão que não vale a pena utilizar o preservativo desde o início da relação ou que não deve haver receio se não se usar preservativo uma vez. Há quem considere que fazer estas coisas não leva à gravidez a uma DST. São conceitos que têm de ser desmontados, desmistificados e esclarecidos.
As consultas de planeamento familiar devem acontecer. E temos de ser nós a divulgá-las, temos de ser nós a ir ter com os jovens e a dizer que isso existe e que têm de se preocupar.
E os pais? Que papel têm na promoção do uso do preservativo e na prevenção das DST?
Sabendo que existem consultas de planeamento familiar, sabendo que existe esse apoio, os pais deverão ter, de certa forma, a obrigação de incentivar os filhos a frequentarem estas consultas.
Esta mensagem da OMS de que os jovens não usam preservativo não deve ser uma mensagem solta. É importante que a mensagem atinja também a população adulta e que os adultos também transmitam aos mais jovens, aos filhos, que é importante haver um agendamento de consultas direcionadas ao planeamento familiar. Além dos conselhos e conversas abertas que possam existir em casa, que também são importantes.
Eu acabo por dar muitas consultas em que são as próprias mães que acabam por ter essa preocupação e, em conversa com as filhas, motivam e incentivam que essa consulta aconteça.
Ainda se assume muito que a consulta de planeamento familiar só fará sentido após o início da vida sexual, mas, se possível, deve acontecer antes.
As preocupações e as dúvidas sobre a utilização dos métodos contracetivos devem ser discutidas antes do início da vida sexual, para que todas as dúvidas possam ser tiradas esclarecidas numa fase anterior.