David Araújo: “No cancro do pulmão, um programa de rastreio e de deteção precoce é o que vai salvar mais vidas”
Mais de 4600 pessoas morrem por ano, em Portugal, com cancro do pulmão e mais de 80% dos doentes a quem foi diagnosticada a doença fumam ou já fumaram.
No Dia Mundial do Cancro do Pulmão, o pneumologista na Unidade Local de Saúde de São João, no Porto, e membro da Comissão Científica do Grupo de Estudos do Cancro do Pulmão, David Araújo, alerta para a importância da deteção precoce da doença e explica o seu impacto no tratamento e na cura.
Em Portugal, o cancro do pulmão é responsável por mais de 4600 mortes por ano. O que explica estes números?
O cancro do pulmão é uma anaplasia muito prevalente, tanto em Portugal como no mundo. Está essencialmente relacionado com o principal fator de risco, que é o tabagismo, que justifica cerca de 85% de todos os casos. Mas é importante alertar que não justifica 100%.
Há outros fatores de risco, nomeadamente a exposição ao tabagismo passivo, a própria poluição atmosférica – que cada vez mais é um fator a ter em conta – e outros fatores de risco, nomeadamente a exposição profissional [a determinadas substâncias], e, em casos muito raros, fatores genéticos.
O tabagismo, como ainda é algo muito prevalente na nossa sociedade, é essencialmente ele que justifica estes números, que são muito expressivos.
Disse que a maior parte dos casos de cancro do pulmão são de fumadores. Quais são os esforços que estão, neste momento, em curso para reduzir a prevalência de tabagismo? E o que falta fazer nesse sentido?
Acho que, nos últimos anos, temos evoluído bastante em termos da regulamentação para tentar diminuir a facilidade de acesso ao tabaco, porque sabemos que essas medidas restritivas, de facto, têm um impacto muito grande na diminuição do número de fumadores e a proteger também as pessoas do tabagismo passivo. Foram feitas várias medidas nesse sentido de que acho que nos devemos orgulhar.
Agora, claramente, não é suficiente, precisamos de implementar cada vez mais medidas que vão tentar reduzir esta prevalência, que ainda é expressiva – embora tenha vindo a diminuir – de pessoas fumadoras na nossa população.
Isso pode ser feito através de impostos, aumentar o preço dos impostos. Se bem que sabemos que isso também pode ter o efeito nefasto de aumentar um bocadinho o consumo não legal do tabaco, que também é um problema. E temos cada vez mais pessoas a recorrer a isso, a conseguir comprar tabaco que às vezes não sabemos muito bem de onde é que veio, com substâncias, muitas vezes, alteradas, e isso depois traz-nos outros problemas.
Por outro lado, pode-se limitar cada vez mais os espaços onde é possível fumar. Sabemos que restringindo os sítios onde se pode fumar, dificultando um bocadinho a vida aos fumadores, isso vai ter impacto na cessação tabágica. Ou seja, cada vez mais pessoas vão tentar cessar o consumo.
Além disso, pode-se implementar medidas de saúde pública promovendo a facilidade ao acesso – e acho que aqui se calhar é onde ainda podemos trabalhar mais e melhor -, e aumentar o número de consultas de cessação tabágica, aumentar a divulgação destas consultas, e, portanto, promover uma maior acessibilidade a este tipo de ajudas aos fumadores. Nomeadamente, por exemplo, a medicação para auxiliar na cessação tabágica, que é cara, e isso muitas vezes pode ser um entrave a mais pessoas deixarem de fumar, e, portanto, eventualmente poderá ser por aí também que se pode ter medidas mais eficazes.
Em relação à deteção, a maior parte dos casos é detetada numa fase avançada, porque é que isso acontece?
Isto acontece, essencialmente, porque o cancro do pulmão é um cancro muito silencioso numa primeira fase, quando se está a desenvolver, quando é uma lesão ainda pequena, e, muitas vezes, está ali no meio do pulmão, passa completamente despercebido.
Apenas quando já adquire uma dimensão superior é que começam, muitas vezes, os sintomas de tosse persistente, perda de sangue na expectoração, perda de peso, perda de apetite, ou, então, quando ele se espalha para outros locais e dá dores ósseas, por exemplo, quando se tem metastização óssea ou metastização noutros locais que se tornam sintomáticos.
Basicamente, em muitos casos, infelizmente, ele só se torna sintomático quando já está numa fase muito avançada. E por isso é que é muito importante estar alerta para os sintomas, porque muitas vezes estes sintomas são um pouco inespecíficos.
Uma tosse, uma expectoração, um cansaço… Quantas doenças não podem dar isto, não é? E a maior parte das vezes não é cancro do pulmão. Mas é importante estar alerta porque, quanto mais cedo se conseguir detectar, melhor. Melhores resultados teremos no tratamento, sem dúvida.
Na prática, quais são as consequências de uma deteção mais precoce?
O que pode mudar mais o impacto do tratamento – ao aumentar a probabilidade de ser um sucesso o tratamento, de cura dos doentes – é, de facto, o timing em que ele é descoberto.
Portanto, no estadio mais precoce em que o cancro é descoberto, melhores são as hipóteses de o doente ficar curado com o tratamento proposto.
E, essencialmente, quando temos um doente que já é detectado num estadio mais avançado, temos muitos tratamentos a oferecer e evoluímos muito desse ponto de vista, mas as probabilidades de cura são, francamente, inferiores a quando é detectado num estadio precoce em que é possível operar ou fazer um tratamento ablativo, como, por exemplo, uma radioterapia.
Portanto, o risco de morte é maior quando a deteção não é precoce…
Sim, sim. Muitíssimo maior, muitíssimo maior.
E como se pode inverter essa tendência de deteção tardia? Há aqui alguma coisa que possa ser feita?
Sim, sem dúvida. Primeiro, o mais fácil é alertar a população para os sintomas. E aqui destacava, essencialmente, tosse persistente, expectoração também persistente, expectoração com sangue – ou só emissão de sangue pela boca -, dor torácica, perda de peso, perda de apetite. Portanto, sintomas que se arrastem. Não estamos a falar de uma coisa de dois ou três dias, mas sim de coisas que perdurem no tempo. Nesses casos, as pessoas têm de estar alerta e procurar serem vistas pelo seu médico assistente.
E isto, claro que num fumador, ficamos mais alertas, mas importa destacar que estes sintomas também podem aparecer em não fumadores e o cancro do pulmão também acontece em não fumadores.
Muitas vezes vemos, infelizmente, doentes não fumadores que nos chegam ainda mais tarde do que os fumadores à consulta, porque não foi colocada essa hipótese de cancro do pulmão por serem não fumadores, mas isso tem que estar presente.
E depois, a segunda coisa que podemos fazer para melhorar esta deteção precoce é o rastreio, sem dúvida. À semelhança do que existe nos tipos de cancro, sabemos que o rastreio oncológico funciona e salva muitas vidas.
Mais do que qualquer tipo de tratamento muito diferenciado que nós possamos implementar, no cancro do pulmão, um programa de rastreio e de deteção precoce é o que vai salvar mais vidas, sem dúvida.
Isto é algo que não é fácil. Um rastreio do cancro do pulmão não é fácil, se não já se tinha começado há muito tempo, mas está provado que funciona.
Temos dois grandes estudos, um americano e um europeu, que foram feitos em vários países durante vários anos e mostraram, de facto, uma diminuição na mortalidade muito significativa.
Há países que já estão a implementar estes programas de rastreio e, em Portugal, estamos à espera que se inicie. Mas estou convencido de que, mais ano, menos ano, iremos ter este programa de rastreio. Claro que será para uma população mais específica de fumadores, mas irá salvar muitas vidas, sem dúvida alguma.
Por fim, pergunto-lhe se existem avanços recentes na questão tanto da deteção como do tratamento do cancro do pulmão, ou seja, se há tecnologias novas ou métodos que pareçam promissores neste momento.
Sim. Em termos de deteção, essencialmente, ainda estamos com o TAC (Tomografia Computorizada). O TAC é o exame gold standard (padrão) que utilizamos para fazer a deteção e, depois, promover a realização da biópsia. É através da biópsia que temos a confirmação.
Mas tudo começa com o TAC.
Existem, depois, outros métodos de diagnóstico precoce, de que se fala muito, como a deteção através de uma colheita de sangue ou através do ar isolado. Ou seja, existe muita coisa em investigação, mas que ainda está numa fase embrionária e eu penso que não é algo que vai chegar a curto prazo à nossa prática clínica. Acho que temos que avançar pelo programa de rastreio e esse rastreio é feito com o TAC. Creio que outros métodos e outras tecnologias mais inovadoras ainda estão na incubadora.
Já no tratamento, há muita coisa em investigação. Eventualmente, na área da oncologia, a área do cancro do pulmão, é talvez a mais profícua em investigação e novos tratamentos e, felizmente, para os nossos doentes todos os anos surgem novas opções terapêuticas.
A grande evolução nos últimos 10 anos foi na área dos tratamentos-alvo, que são tratamentos dirigidos ao tipo de mutação específica que o doente apresenta, com tratamentos com uma taxa de eficácia muito elevada e com menos efeitos secundários que as tradicionais quimioterapias.
E outra das grandes inovações que houve nos últimos anos foi a imunoterapia, que, basicamente, é pegar no nosso sistema imunitário e ensiná-lo a atacar o tumor. E também é uma arma terapêutica que revolucionou o tratamento do cancro no geral e em particular do cancro do pulmão.
De facto, hoje em dia, ter um diagnóstico de cancro do pulmão não deixa de ser um diagnóstico sombrio com mau prognóstico, mas já não é tão mau quanto era há 10 anos, sem sombras dúvidas.
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