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Conversas Com Influência

Conceição Calhau: “Num estado de alerta, uma das prioridades do organismo é acumular gordura”

16 Jul 2026 - 08:15

Conversas Com Influência

Conceição Calhau: “Num estado de alerta, uma das prioridades do organismo é acumular gordura”

Depois de “Deixemo-nos de Tretas – A Ilusão da Comida Saudável”, a nutricionista e professora catedrática de Bioquímica da NOVA Medical School Conceição Calhau regressa às livrarias com “Engolir Sapos Engorda – O peso das emoções na saúde”, um livro que explora a relação entre o stress, as emoções, o metabolismo e a acumulação de gordura no organismo.

Em entrevista ao Viral, Conceição Calhau explica porque é que a perda de peso não pode ser reduzida à ideia de “fechar a boca e mexer-se mais”, e fala sobre o impacto do stress, dos hábitos diários e do ambiente em que vivemos na saúde metabólica.

O título do livro “Engolir Sapos Engorda” remete para o facto de as nossas emoções e o ambiente em que vivemos e que criamos influenciarem a forma como comemos e a acumulação de gordura no organismo. Antes de mais, quais são os sapos que engolimos que mais influenciam o aumento de peso e de massa gorda?

Essa é uma pergunta muito difícil porque depende de cada um de nós. Varia consoante a dimensão que damos ou a relativização que damos àquilo que nos acontece e à questão do stress. Para os mesmos fenómenos ou situações, podemos ter uma reação diferente e atribuir-lhes uma dimensão diferente.

O título do livro apela muito diretamente para a relação entre o stress, as emoções e a adiposidade, ou seja, para a ideia de que, num estado de alerta, uma das prioridades do organismo é a acumulação de gordura. Mas a razão que está por trás da escrita deste livro, e que está presente em todos os capítulos, é desmistificar a ideia de que tudo se resume ao balanço entre calorias, à lógica de “fechar a boca e mexer mais”.

Do ponto de vista da prevenção da obesidade, estas variáveis podem ser importantes. Mas, do ponto de vista do tratamento, a realidade é completamente diferente. Isto não é uma termodinâmica óbvia nem objetiva. Não se trata simplesmente de ingerir 20 calorias, gastar 20 calorias e o resultado ser zero. 

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As pessoas estão muito obcecadas com estas contas, mas mais importante é percebermos que eu posso comer exatamente a mesma coisa que comia há 10 anos e não ter o mesmo resultado. Posso comer exatamente a mesma coisa que a pessoa do lado e também não ter o mesmo resultado. Isto acontece porque as prioridades metabólicas são muito complexas. 

Por isso, aquela simplificação que vemos recorrentemente, até nas redes sociais, ou na forma como muitos profissionais de saúde interpretam ou transmitem a mensagem de “fecha a boca e mexe-te”, é demasiado simplista e não tem resolvido o problema. Pelo contrário, leva as pessoas a sentirem-se culpabilizadas.

Até porque, no caso da obesidade, estamos a falar de uma doença visível que continua a ser frequentemente culpabilizada. Ninguém culpa uma pessoa por ter cancro do pulmão associado ao tabaco, nem a priva de acesso ao que quer que seja porque “se portou mal”. O mesmo acontece em relação ao alcoolismo. Mas, no caso da obesidade, essa culpabilização continua muito presente.

O meu primeiro livro “Deixemo-nos de Tretas” refletia muito mais a minha versão de nutricionista. Este reflete mais a minha versão de professora de bioquímica, que explica esta complexidade do metabolismo. Explica também que as nossas emoções e aquilo a que muitas vezes chamamos somatização – quando sentimos tristeza e temos um nó no estômago ou sentimos nervosismo e temos uma dor de barriga – significam, na prática, reações químicas. Significa que estamos a comunicar com as vias metabólicas e a programá-las. Portanto, nada é simples.

O livro pretende muito alertar para isso: para respeitarmos o organismo e termos uma maior consciência de que aquilo que fazemos diariamente é uma programação de uma máquina. Os erros que cometemos todos os dias vão-se acumulando e acabam por ter consequências nessa programação. 

Continuando a metáfora, engolir um sapo esporadicamente  – como ter um dia mau no trabalho ou um jantar de família tenso – é diferente de viver a engolir sapos todos os dias por rotina? O corpo reage de forma diferente ao stress agudo e ao stress crónico?

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Sim, claramente. Mas isso também não significa que todos nós engolimos sapos diariamente ou que todos temos de engolir sapos.

A forma como gerimos essas situações é que pode ser muito diferente. Eu costumo, de uma forma muito grosseira, dividir as pessoas em dois grupos: as que são mais reativas ao stress e as que são “esponjas”. Há pessoas em que o stress provoca uma reação evidente e outras em que parece que não acontece nada, ninguém dá por isso. São as tais esponjas.

Ao explicar a fisiologia do stress, percebemos que, para mim, uma determinada situação pode ser stressante e, para outra pessoa, pode não ser. Isso depende muito das ferramentas que cada um tem para lidar com as situações. Mas, do ponto de vista fisiológico, aquilo que acontece é que há uma subida do açúcar no sangue. É essa a resposta do organismo ao stress, porque está a preparar-nos para a fuga ou para a luta.

Se não fizermos nada com essa energia, é fácil perceber o que acontece: o açúcar sobe, não é gasto e o organismo vai priorizar a reserva, ou seja, vai acumulá-lo. Claro que uma coisa é o stress agudo e outra é o stress crónico. Mas, se perante esta subida do açúcar no sangue a pessoa, pelas ferramentas que tem ou pela forma como reage, vai caminhar, passear ou simplesmente dar uma volta, está, no fundo, a exteriorizar esse stress.

Mesmo no caso das pessoas que são “esponjas”, temos de lhes dizer que, quando estão em stress, não vão obviamente andar a bater ou a gritar com ninguém, mas podem, por exemplo, subir e descer escadas. Temos de desgastar essa resposta fisiológica. Temos de encontrar mecanismos para o fazer. Muitas vezes, é também esse o papel da psicoterapia e é por isso que o livro tem o prefácio da doutora Isaura Neto. Temos de desenvolver estas competências para não vivermos numa angústia constante. Mas, do ponto de vista fisiológico, sempre que temos stress, temos de o desgastar. Temos de encontrar mecanismos para que aquele açúcar não fique em reserva.

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Nós vivemos num ritmo muito acelerado, as pessoas trabalham muitas horas, passam muito tempo no trânsito, dormem mal, estão sujeitas a uma grande pressão, por isso o pouco tempo que têm para estar sozinhas muitas vezes é ao fim do dia um momento em que acabam por descomprimir através da comida. Porque é que é tão comum as pessoas utilizarem a comida como escape?

Bom, podia apontar várias razões. Desde logo, razões ancestrais. Há a questão do prémio e do conforto. Muitas vezes, somos educados em ambientes em que, quando falta qualquer coisa, a resposta está na comida. Depois há toda a questão dopaminérgica, da recompensa, do prazer e do prazer imediato, que normalmente é seguido pela culpa. Isto tem muito que ver com a educação e com o ambiente familiar.

Por outro lado, há pessoas que passam o dia sem se alimentarem de forma correta, sem ficarem saciadas e sem fazerem exercício físico. Portanto, ao fim do dia, é natural que sintam um grande apelo da fome. Essa fome pode ser emocional, porque falta a recompensa, pode estar ligada à procura de prazer, mas também pode ser simplesmente o organismo a pedir comida porque não recebeu aquilo de que precisava durante o dia. E, quando digo comida, refiro-me a nutrientes, não a calorias.

Esta confusão acaba por juntar-se naquele momento de descompressão. Mas a verdade é que estas pessoas são, normalmente, as que não tomam um bom pequeno-almoço, não comem sopa, não ingerem fibra suficiente. Portanto, tudo isto contribui para aquilo a que chamamos fome emocional.

E muitas vezes nem é apenas fome emocional. Estamos a falar de adição. Isto manifesta-se claramente como uma adição e, por exemplo, a adição ao açúcar continua, infelizmente, a não ser encarada, do ponto de vista médico, como outras dependências.

Por isso, a recomendação continua muitas vezes a ser “não coma isso”, “feche a boca” ou “evite comer chocolate”. Mas uma pessoa com uma adição não deixa de a ter só porque lhe dizem para parar. Isso tem de ser tratado de forma séria e do ponto de vista médico. E, como normalmente não é isso que acontece, entramos num círculo vicioso de culpabilização. O proibido torna-se mais apetecido, não existem outras formas de compensação e não se estimulam as outras variáveis que podem pesar no sentido contrário.

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A atividade física é, sem dúvida, uma das principais. Quando uma pessoa pratica exercício físico, liberta substâncias que lhe dão prazer, melhora a autoestima, ganha massa muscular e, provavelmente, também passa a ser mais fácil comer melhor. Agora, se nada disto acontece, se há privação de sono, não se faz exercício e se come mal, obviamente o corpo entra numa grande confusão entre aquilo que é prazer e aquilo que é necessidade.

O excesso de peso e a obesidade são, muitas vezes, vistos como  escolhas individuais. Mas acredita que este ritmo acelerado, os ambientes cheios de estímulos alimentares e os próprios algoritmos das redes sociais podem criar condições que tornam muito mais difícil fazer escolhas saudáveis?

Sem dúvida. Desde logo, a oferta. E esse tem sido até o ponto que eu tenho sublinhado mais. Há tanta gente a falar de alimentação e de alimentação saudável, tantos momentos em que temos até políticos a dizer que não temos adesão à dieta mediterrânica ou que estamos a consumir excesso de açúcar e de sal. Mas depois, na prática, quais são os ambientes que temos?

Vou dar-lhe um exemplo. Há umas semanas, uma comissão de vacinas estava reunida na DGS e, à hora do almoço, os participantes foram para uma sala almoçar. Mandaram-me uma fotografia. Na mesa havia de tudo, menos aquilo que seria adequado. E, mesmo em cima da mesa, estava um cartaz da dieta mediterrânica.

Isto mostra bem a incoerência. A primeira coisa, e é isso que eu tenho gostado de sublinhar, é darmos o exemplo. Se nós não damos o exemplo – e quando digo “nós” refiro-me a cada um de nós, mas ainda mais às instituições -, as coisas não mudam. E o exemplo também passa pela oferta, pela disponibilização e por não fazer críticas a quem faz escolhas saudáveis.

Aliás, essa é outra questão sobre a qual tenho refletido e que muitas vezes partilho. A mim fazem-me imensas críticas. Se vamos a um jantar e dizemos que não queremos beber uma bebida alcoólica, ou que não queremos bolo de sobremesa e preferimos fruta, ou que não queremos batatas fritas e preferimos outro acompanhamento, invariavelmente começam a perguntar se estamos a fazer dieta, se de vez em quando não podemos abrir uma exceção. A mim dizem-me muitas vezes: “Deixa-te de tretas e come.”

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São pequenas coisas, mas querem dizer muito. A própria sociedade não consegue acolher bem estas rotinas, que, no meu caso, não representam sofrimento nenhum. É a minha rotina, portanto respeitem a minha rotina. Da mesma forma que eu não critico quem pede o bolo de sobremesa, também não devia haver esta pressão social. Há uma incoerência brutal.

Portanto, voltando à sua pergunta, está a faltar muita coisa. Estamos sempre a discutir os números do excesso de peso e da obesidade e, por arrasto, de todas as outras doenças. Estamos sempre a projetar os números, a lamentar a falta de adesão à dieta mediterrânica e o consumo excessivo de sal e de açúcar. Mas o que é que cada um de nós está a fazer? Quer na forma como olha para o outro e evita criticar, quer ao nível da oferta. Acho que é sobretudo aí que devemos mudar.

No livro escreve que o corpo não quer saber da estética, quer sobreviver. Se o próprio organismo está programado para lutar contra a perda de gordura, como é que se contorna esta resistência sem recorrer à restrição extrema, que também sabemos que não é saudável?

Quando digo que o corpo não quer saber da estética, mas da sua sobrevivência, o que quero dizer é que, muitas vezes, não cuidamos nem respeitamos o corpo. E, por isso, ele tem de criar mecanismos de sobrevivência. É quase como se pensasse: hoje há comida, amanhã não há; hoje come-se às três, amanhã ao meio-dia ou às quatro. Então, entra em serviços mínimos.

Esta é a resposta do organismo a comportamentos que nunca são consistentes, que são erráticos e muitas vezes marcados pela privação. Hoje retiro uma coisa, amanhã retiro outra. Esta falta de rotina faz com que as reações químicas comecem a ter menos ingredientes. Começam a faltar substratos e ativadores. Toda a bioquímica é complexa. Se eu não tenho magnésio, por exemplo, todo o metabolismo energético da glicose, a produção de ATP (adenisona trifosfato) ou a síntese de gordura ficam condicionados. E o mesmo acontece se faltar outro ingrediente.

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Portanto, todos estes comportamentos, em que não respeitamos as necessidades do organismo, fazem com que o corpo viva quase num estado de ameaça. É uma ameaça pelo stress, por não dormir, por não comer os ingredientes necessários e, por isso, entra em serviços mínimos. É isso que quero dizer quando escrevo isso no livro.

Obviamente, estamos programados para a sobrevivência. Temos mecanismos redundantes e, quando alguma coisa falha, a resposta é sobreviver. E sobreviver, muitas vezes, significa acumular gordura, fazer reserva. É como agora acontece com os kits de sobrevivência que as pessoas estão a criar para situações de crise. Quando estou em estado de alerta, tenho de ter reservas. Por isso, sobretudo perante comportamentos erráticos, o organismo entra em modo de alerta e de sobrevivência.

E como é que se contorna isso, então? É sendo consistente?

É sendo consistente, sim. Aliás, o livro é sobre o metabolismo em geral, mas fala muito também da saúde da mulher. Sobretudo porque, relativamente à saúde feminina, falamos muitas vezes da saúde da mulher como se fosse uma linha tracejada: é a menarca, a primeira menstruação, são os ciclos menstruais, são as gravidezes, é a menopausa.

Mas nós não somos só hormonas. Falar da saúde da mulher é falar de uma linha contínua, não de uma linha tracejada. Não nos vamos preocupar com as hormonas só na menopausa. Também não nos vamos preocupar com o exercício físico só na menopausa.

Temos de ter estas preocupações ao longo da vida. E volto a dizer: não tem de ser uma obsessão, mas é simples. É comer o essencial. Temos de nos mexer, temos de fazer escolhas alimentares de qualidade e temos de comer à hora certa.

Estas três variáveis são das mais importantes e não é uma questão de quantidade. É mexermo-nos, ou seja, solicitar a massa muscular, porque, como se costuma dizer, a função faz o órgão. Se não solicitamos a massa muscular, vamos perdendo massa muscular.

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Depois, é a qualidade daquilo que comemos e a hora a que comemos. Se fizermos estas três coisas direitinho, não vamos ter problemas com a quantidade, porque o apetite e a saciedade acabam por estar regulados.

Temos muito a ideia, e isso vê-se bem na menopausa, de que a mulher “acorda” para a sua saúde apenas numa fase de emergência. Infelizmente, até essa altura esteve focada no trabalho, nos filhos, nos pais, em tudo, menos nela própria.

É por isso que o livro chama a atenção para o facto de tudo aquilo que vamos fazendo ao longo da vida ser importante, mesmo na primeira infância. Não é por acaso que se fala tanto nos primeiros mil dias de vida, ou seja, nos nove meses de gestação e nos dois primeiros anos de vida. Tudo aquilo que acontece nessa fase, ainda na vida intrauterina, é muito determinante, é programador. Isso não significa que depois já não seja possível corrigir, mas significa que tudo vai pesar no resultado final.

Portanto, espero que, pelo menos, ao ler o livro, as pessoas fiquem com uma maior consciência do autocuidado. No fundo, uma grande parte também passa por mim, pelas decisões que tomo diariamente. E essas decisões passam pela forma como vou gerir o stress, como vou gerir o meu dia e se tenho, ou não, tempo para fazer atividade física ou exercício físico. É uma variável tão importante como escovar os dentes. Muitas vezes as pessoas dizem: “Não tenho tempo para fazer atividade física”, mas têm tempo para ir à casa de banho, para escovar os dentes, para tomar banho ou para dormir.

E isto também é essencial. As escolhas alimentares, raras exceções, são uma decisão nossa. Entre comer um ovo cozido ou um croquete, é uma decisão minha. Posso dizer: “Ah, mas ali não tenho outra opção.” Então, se calhar, tenho de ser eu a levar essas opções. Ou, se a oferta é feita pela procura e as pessoas não procuram, também não há oferta. 

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Há aqui muitas coisas que, muitas vezes, ficam apenas na discussão, mas depois espreme-se e não sai nada, porque as pessoas não mudam. Vejo isso, por exemplo, por causa dos bares escolares aqui da universidade e das reuniões em que tenho participado. Ninguém quer tirar os refrigerantes. E estou a falar da cantina, onde os miúdos vão buscar um copo e, em vez de beberem água, bebem aquela porcaria cheia de açúcar, até porque é gratuita. Só mudar o açúcar daquela bebida já foi uma batalha. 

O mesmo aconteceu com as máquinas de café. Defendi que, por defeito, o açúcar devia estar a zero e que, se eu quisesse açúcar, tinha de o selecionar. Muitas vezes não é assim. O padrão está a meio e eu é que tenho de me lembrar de reduzir o açúcar.

Estas lutas que tive aqui na universidade foram verdadeiras batalhas. Porque toda a gente fala, fala, fala, mas depois diz: “Ah, mas não vai tirar o croquete do bar. Ah, mas não vai tirar isto ou aquilo.”

Quer dizer, eu nem sequer vou tirar nada. Vou é pôr outras coisas. Mas a preocupação, quase a obsessão, é que naquilo que dá prazer, por favor, não mexam. Podemos estar aqui numa teoria imensa, mas depois ninguém quer que se mexa nos seus bolos. É difícil.

No sentido contrário desta falta de preocupação, tanto com a alimentação como com o exercício físico, assistimos também, por outro lado, a uma demonização constante de alimentos e até a uma procura quase obsessiva pelo perfeitamente saudável. Esta obsessão também pode adoecer as pessoas?

Sim, sem dúvida. Aliás, no primeiro livro, Deixemo-nos de Tretas – A Ilusão da Comida Saudável, o primeiro título que pensei nem foi esse. Era precisamente sobre a obsessão pela comida, porque essa obsessão também é uma doença.

Isto porquê? Porque sabemos que o equilíbrio, que o ser moderado, é sempre mais difícil. Então temos, muitas vezes, dois tipos de comportamento em relação à alimentação: ou quem não quer saber e come o pior, ou quem fica obcecado e faz escolhas que nem sequer são adequadas. É também por isso que eu tenho alguma resistência em falar de alimentação saudável e prefiro falar de alimentação adequada, porque muitas vezes aquilo que as pessoas fazem tem tudo menos de adequado.

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Quando alguém vem à consulta e me diz que come gelatina ou outros alimentos que, confesso, às vezes até tenho dificuldade em identificar no meu glossário, percebemos que a realidade está completamente distorcida. Depois, muitas pessoas passam a acreditar que, só porque um alimento é considerado saudável, podem comer grandes quantidades. Está tudo errado.

Depois, muitas vezes, dizem-me que a dieta mediterrânica é pesada, quando, na realidade, temos uma baixa adesão a esse padrão alimentar. Comer feijão ou grão, por exemplo, é muitas vezes visto como “pesado”. Mas pesado não é o feijão. O que é pesado é o sal ou os enchidos. Numa feijoada, o problema é o sal e os enchidos, não é o feijão.

Portanto, existe, de facto, uma grande dificuldade em interpretar aquilo que é uma alimentação adequada. E nas redes sociais isso ainda é mais evidente. Sabemos que aquilo que vende é o que é estranho. Ninguém vende um pequeno-almoço simples. Tem de ser tudo muito sofisticado.

Às vezes até brinco que, se eu disser a alguém para mudar o pequeno-almoço para aquilo que eu quero, mas acrescentar que, meia hora antes, tem de fazer meditação ou cinco agachamentos, essa pessoa já vai aderir melhor, porque isso lhe parece diferente. Se não houver esse choque, se não mexermos na emoção das pessoas, parece que já não resulta. Mas isto não é uma questão de fé. É ciência. E, sim, estamos a viver esse problema.

Estamos a falar aqui também de pessoas que procuram muitas vezes soluções milagrosas, resultados rápidos, em que medida é que essa lógica do quanto mais depressa melhor pode ser contraproducente?

É humano querer resultados rápidos. E, muitas vezes, na questão da obesidade, existe uma frustração acumulada de muitos anos. Por isso, as pessoas querem ver resultados e não ficar desmotivadas. Mas esta ideia de vender promessas milagrosas também tem contribuído para o problema, porque depois as pessoas não respondem. 

Quando alguém procura a ajuda de um profissional de saúde, uma das perguntas que se deve fazer é: quantas dietas já fez? Nem estou muito interessada em saber exatamente quantas foram, nem quais foram. Basta que já tenha feito algumas para que o metabolismo deixe de estar “naif”. Já foi criando vícios. Ou seja, já foi sendo programado, ou melhor, desprogramado. Neste caso, programado para a reserva, porque esteve muitas vezes em estado de alerta.

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Por isso, o risco de andar constantemente a fazer estas oscilações, alimentares e comportamentais, é tão grande para a saúde como o de não querer saber. Acabamos por programar as vias metabólicas, a nossa máquina, com todas estas obsessões que não têm nada de equilibrado.

A dada altura, no livro, refere que o músculo é muito mais do que uma questão de força ou de estética, é um órgão metabólico, endócrino e imunológico. O que é que ainda não percebemos sobre a importância de preservar massa muscular? 

As pessoas foram desvalorizando a massa muscular. Por um lado, por desconhecimento. Está tudo muito focado na gordura. Por outro, porque se criou a ideia de que a massa muscular é para atletas, culturistas ou para quem procura apenas uma questão estética.

Mas a massa muscular, o músculo, é um órgão muito importante. Se fizermos uma analogia, o tecido adiposo é quase como uma garagem ou um armazém, onde vamos guardando aquilo que não usamos. Quando não há salas nem quartos disponíveis, ou quando já estão cheios, tudo vai para os arrumos.

Com a massa muscular acontece o contrário. Se eu não tenho massa muscular, ou se ela não é suficientemente solicitada, aquilo que eu como vai para onde? Vai para o armazém, ou seja, para a gordura. Ter massa muscular faz com que aquilo que faz parte do meu metabolismo tenha outro destino. Quando não tem, fica em reserva.

É por isso que falo tanto da massa muscular ao longo do livro. Precisamos de descentralizar o foco da conversa. Nem tudo pode ser apenas sobre a gordura.

Ao longo do livro, e também nesta entrevista, foi falando sobre como as emoções, o ambiente, a biologia e também os nossos hábitos se cruzam e influenciam o nosso corpo, a nossa saúde, a forma como comemos. Neste contexto, o que é que está de forma realista ao alcance de quem vive neste ritmo acelerado? Quais devem ser as prioridades? 

Atividade física, sem dúvida. No dia a dia, dizermos às pessoas para jantarem mais cedo ou para toda a família preparar a refeição em conjunto, num momento de convívio, é bonito, mas, na prática, ninguém consegue fazer isso, porque chegam todos a casa a correr.

A verdade é que tem de haver alguma gestão e algumas prioridades. Não só preparar as refeições, já ter algumas coisas preparadas, enfim, isso faz parte de uma dinâmica que também se aprende. Mas, sem dúvida, a prioridade é mexermo-nos, fazer atividade física, fazer exercício físico, porque isso pode ser um bom princípio para que tudo o resto venha por arrasto.

Começar pela alimentação, e aqui até se calhar seria esperado que eu dissesse o contrário, pode ser mais frustrante. A prioridade é pôr um órgão a funcionar que, entretanto, começou a ficar mirrado. As pessoas perdem massa muscular e essa perda só costuma ser valorizada nas situações extremas. Quem é que fala em sarcopenia? Toda a gente fala em obesidade, mas quem é que fala em sarcopenia? Quase ninguém.

E, na verdade, a perda de massa muscular também não é um diagnóstico que se deva procurar apenas na fase limite. É numa fase anterior que temos de trabalhar para a prevenir.

Há um artigo científico, publicado há dois ou três anos numa revista médica importante, que desmistifica a ideia de que perder massa muscular ao longo da vida é uma inevitabilidade. Até aos 65 anos, é muito difícil que isso aconteça apenas por causa da idade. A principal razão é a falta de atividade física, ou seja, a falta de exercício deste órgão. As pessoas agarram-se muitas vezes à ideia de que “isto é da idade”. Não é. É o resultado de passar mais anos sem fazer determinada coisa.

Por isso, para quem vive neste ritmo acelerado, esta tem de ser uma prioridade. Temos de fazer uma gestão diferente do nosso tempo. Da mesma forma que marcamos uma reunião para as 08h00 ou para as 15h00, temos de marcar também a nossa meia hora de treino. Sim, isso pode implicar acordar meia hora mais cedo, mas também pode implicar deitarmo-nos meia hora mais cedo.

Portanto, é uma questão de gestão da saúde. Nós temos direito à saúde, e isso é uma questão pública de que muito se fala, até a propósito das dificuldades do sistema de saúde. Mas também temos o dever de cuidar dela.

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