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Entrevistas

Conceição Calhau: “Mais depressa as pessoas acham que têm de comer almôndegas de soja do que arroz com feijão”

28 Mai 2024 - 09:19

Conceição Calhau: “Mais depressa as pessoas acham que têm de comer almôndegas de soja do que arroz com feijão”

“Deixemo-nos de tretas” é o título (provocatório) do livro da nutricionista Conceição Calhau dedicado a desmontar a “ilusão da comida saudável”, desde as dietas aos suplementos milagrosos.

Em entrevista ao Viral, a professora Catedrática na NOVA Medical School fala sobre as modas que prejudicam a saúde e explica porque é que, num mundo com tanta informação sobre nutrição, estamos a comer cada vez pior.

Logo na introdução do seu livro, diz que “nunca tivemos tanta comida ao nosso dispor e nunca nos alimentámos tão mal”. O que quer isto dizer?

Com a globalização alimentar, a escassez alimentar não é propriamente um problema para nós. Portanto, as dificuldades de acesso aos alimentos que aconteciam nos anos 70 já não acontecem hoje em dia. Ou seja, nós temos muito mais acesso a alimentos mais baratos, o que na realidade faz com que as pessoas também acabem, de certo modo, por comer pior.

E o que é que significa comer pior? Quais são os principais erros que estamos a cometer neste momento, em termos alimentares?

Os principais erros passam por comer excessivamente gordura saturada, sal e açúcar. Depois, na prática, significa também comer muito pouco de hortícolas e leguminosas. Portanto, a adesão à dieta mediterrânica é baixa.

Se olharmos, por exemplo, para a montra de um bar – e eu já fiz esse exercício num hospital –  vemos que, se alguém quiser comer um doughnut, paga 45 cêntimos, mas se quiser comer um pão com queijo ou um iogurte paga 1,40€ ou 1,60€. E estas diferenças também acabam por condicionar o consumo.

Também no início do livro diz que, hoje, as pessoas têm mais acesso a informação sobre nutrição e alimentação, mas que isso não significa que se coma melhor. Porque é que isso acontece?

Uma coisa é nós termos acesso à informação, outra coisa é compreendermos e mudarmos comportamentos.

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Claro que este fenómeno, e o que eu faço referência no livro, não é exclusivo de Portugal. Nós sabemos que este é um fenómeno comum nos Estados Unidos.

Fala-se muito sobre alimentação, a partir do momento que se tem a noção de que as doenças mais prevalentes são aquelas a que nós chamamos as crónicas não transmissíveis. E, aqui, crónico é também resultado de uma cronicidade de comportamentos, nomeadamente relacionados com a alimentação.

Nesse sentido, fala-se muito em dietas “low carb” (baixas em hidratos de carbono) ou “low fat” (baixas em gordura) e da indicação da alimentação como uma forma de venda.

Em termos de marketing, utiliza-se muitos chavões para vender, porque se tem a noção clara de que as doenças crónicas não transmissíveis são um problema, que a alimentação inadequada é um dos fatores e que as pessoas estão mais sensíveis a este tema.

E acho que, depois da Covid-19, ainda se tornou mais evidente que um dos critérios para a escolha alimentar seria a qualidade nutricional. Portanto, as pessoas de facto estão mais disponíveis, o que não significa que compreendam, que acedam à melhor informação e que, depois, mudem os comportamentos no melhor sentido.

A este tipo de chavões e de dietas criadas com interesses comerciais está associada, por vezes, uma diabolização de determinados alimentos, como, por exemplo, o pão e o leite. Que riscos é que tem esta diabolização dos alimentos e esta necessidade de distinguir os alimentos “bons” dos alimentos “vilões”?

Logo na capa do livro, falo da “ilusão da alimentação saudável”. Aliás, no livro, explico que a adjetivação ao próprio alimento também não está correta. 

Nos anos 70, foi criada a representação da roda dos alimentos e passou-se muito a falar em alimentação saudável. E, neste momento, esse termo vulgarizou-se, banalizou-se e há até uma descredibilização do que é ou não saudável.

Esta diabolização também vem um bocadinho em modas. Antes do glúten e da lactose, falava-se do colesterol. E recordo-me de existirem embalagens de pão que diziam “sem colesterol”.

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Portanto, o vilão era o colesterol e as embalagens de pão diziam sem colesterol, como se o pão tivesse colesterol.

Existe, de facto, um marketing muito associado a uma diabolização de fatores alimentares. Portanto, antes era o colesterol, agora é o glúten e a lactose. Mas, na realidade, depois existe uma não compreensão daquilo que é importante.

Por outro lado, as intolerâncias alimentares – ou seja, os sintomas associados ao consumo de determinados alimentos – não são propriamente uma moda. O facto de as pessoas terem sintomatologia que se associa ao consumo de um determinado alimento é real.

Essas intolerâncias poderão estar relacionadas com o facto de os alimentos – como o trigo, por exemplo – estarem diferentes e de a nossa microbiota intestinal estar diferente.

A diabolização é que me parece de extremos, até porque a evicção desses alimentos traz consequências. Temos é de tratar a causa e, então, propriamente os sintomas.

Ou seja, as pessoas que não têm nenhum tipo de intolerância não faz sentido evitarem estes alimentos?

Não, não faz. Agora, relativamente ao trigo, para muitas pessoas a alimentação é só trigo, trigo, trigo, trigo. Ou seja, é pão, é massa, é bolo, é bolacha. Portanto, obviamente, há 20 ou 30 anos, o trigo tinha uma presença na alimentação. Hoje em dia, tem outra presença completamente diferente.

Para não falar de que nesses produtos a questão não é só o trigo, não é? As gorduras que têm associadas, os açúcares, o excesso de sódio…

Sim, aliás, os emulsionantes têm aqui um papel muito importante e de que nós ainda não ouvimos falar assim muito.

O emulsionante é todo aquele aditivo alimentar que é necessário colocar nos produtos ditos magros. Portanto, tira-se gordura e tem de se pôr o emulsionante.

E estes emulsionantes vão ter esse papel no intestino, vão emulsionar as próprias membranas celulares. Por isso, a própria permeabilidade intestinal acaba por estar muitíssimo alterada, porque nós não temos a exposição a emulsionantes de vez em quando. Por vezes, as pessoas fazem o consumo dos produtos magros durante todo o dia. É o leite que é magro, é o queijo de barrar que é magro, é o queijo de fatia que é magro, é o iogurte que é magro. Há uma quantidade de produtos e de adição desses emulsionantes que acabam por ter estas consequências e estas manifestações digestivas.

Falamos aqui muito desta ilusão da comida saudável e isto vem também muito por dietas e modas. Quais são aquelas que estão agora em voga e que são mais perigosas?

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Não estou a par de tudo aquilo que as mentes criativas vão lançando, mas eu diria, generalizando, que qualquer moda pode ser perigosa, porque, na realidade, não estando minimamente adequada à situação da pessoa, não sendo uma coisa consistente no tempo e não corrigindo os erros.

Alguém que tem erros alimentares tem de os identificar e corrigir. Não é fazer uma alteração alimentar drástica, que, muitas vezes, passa por retirar os hidratos de carbono em quase absoluto.

Depois, obviamente, também temos as outras adições a estas dietas que são os manipulados, muitas vezes, com diuréticos e com hormonas da tiroide. 

Portanto, nós temos, de facto, muito mais adesão a este tipo de comportamentos extremistas e que na realidade trazem ilusões para a saúde que não corrigem comportamentos.

Generalizando, eu diria que qualquer coisa que possa estar na moda é perigoso, porque não está minimamente adequada à pessoa e não é orientada por um profissional de saúde para saber o que é que precisa de melhorar, o que é que precisa de corrigir.

Quais são, então, as bases de uma alimentação saudável?

Pois, na verdade, o que vou responder é aquilo que toda a literatura científica, de uma forma ou de outra, vai sempre reforçando, que é a dieta mediterrâneca.

Ou seja, podermos diariamente ter o consumo de hortícolas. E nós sabemos que, em Portugal, por aquilo que foram os dados de 2015 do Inquérito Alimentar Nacional, nós não conseguimos atingir o consumo de hortícolas que seria recomendado, não atingimos as leguminosas e temos também mais carne do que aquilo que era necessário.

Quanto ao peixe, a verdade é que, mesmo na consulta, na maioria das vezes, as pessoas não comem peixe nem três vezes por semana. Portanto, o consumo de peixe também deve ser privilegiado, bem como os laticínios como fontes de cálcio, principalmente os laticínios fermentados, como o leite fermentado, os iogurtes e os queijos.

Além disso, a hidratação também é importante. São estes os elementos que temos de, necessariamente, melhorar. 

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Nada é sofisticado, porque, como eu também brinco um bocadinho no livro, mais depressa as pessoas acham que têm de comer almôndegas de soja do que propriamente arroz com feijão, e, portanto, acaba por ser difícil fazer perceber que uma alimentação adequada não exige muitas coisas esotéricas, mas são essas que normalmente têm mais adesão.

E porque é que isso acontece?

Penso que tem que ver com a procura do milagre. Quanto mais desviante for, mais parece um milagre e, portanto, seguimos essas modas.

Por outro lado, dizermos para pôr no prato um bocadinho de leguminosas, de hortícolas e de peixe é visto como monótono e muito pouco atrativo.

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Alimentação

28 Mai 2024 - 09:19

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