VITAL
Ana Margarida Abrantes: “A medicina de precisão, que é hoje uma promessa, poderá tornar-se uma realidade acessível a muito mais doentes com cancro”
O consórcio europeu UNCAN-CONNECT: Rede Colaborativa Descentralizada para o Avanço da Investigação e Inovação sobre Cancro, integrado pela Universidade de Coimbra (UC) e pela Unidade Local de Saúde (ULS) de Coimbra, ganhou cerca de 30 milhões de euros para melhorar a investigação sobre cancro na Europa. O projeto arrancou no dia 1 de setembro de 2025 e vai decorrer até agosto de 2030.
A UC participa no projeto através de uma equipa clínica e de investigação, liderada pela professora e investigadora da Faculdade de Medicina (FMUC) Ana Margarida Abrantes. Em conversa com o Viral e com o Polígrafo, a especialista fala sobre a importância do UNCAN-CONNECT para a investigação na área do cancro a nível europeu.
É líder da equipa clínica e de investigação da Universidade de Coimbra que integra o consórcio europeu UNCAN-CONNECT. Em que consiste este consórcio?
O UNCAN-CONNECT é um projeto recentemente financiado pela Comissão Europeia, no âmbito da Missão Cancro do programa Horizonte Europa, que teve início a 1 de setembro de 2025.
O seu objetivo principal é implementar uma rede colaborativa e descentralizada de partilha de dados para a investigação em cancro, permitindo o acesso seguro, ético e interoperável a dados de saúde relacionados com cancro toda a União Europeia.
O projeto reúne 53 instituições de 19 países, incluindo universidades, centros de investigação, hospitais, empresas tecnológicas e organizações governamentais – formando uma verdadeira rede europeia de colaboração.
O objetivo final é melhorar a prevenção, o diagnóstico, o tratamento e a qualidade de vida dos doentes com cancro, aproveitando o potencial da partilha de dados à escala europeia.
A Universidade de Coimbra e a Unidade Local de Saúde (ULS) de Coimbra são duas das três instituições portuguesas que integram o consórcio UNCAN-CONNECT.
A nossa equipa, reconhecida pela sua experiência consolidada em investigação clínica e inovação em saúde – particularmente na área da oncologia – participa no projeto em estreita colaboração com a ULS Coimbra.
No âmbito desta parceria, disponibilizaremos dados clínicos provenientes de estudos retrospetivos relativos a quatro dos seis tipos de cancro abrangidos pelo consórcio: cancro pancreático, linfoma, cancro da próstata e cancro pediátrico.
Paralelamente, contribuiremos para a recolha e processamento de amostras no contexto da investigação clínica, assegurando uma base científica robusta e continuamente atualizada para o avanço do projeto.
Em que ponto está o projeto?
O projeto teve início formal a 1 de setembro de 2025 e encontra-se atualmente na sua fase inicial. Neste momento, estão a decorrer em simultâneo várias tarefas, nomeadamente a mais desafiadora no que diz respeito à definição de todos os aspetos que estão incluídos no processo da partilha de dados entre parceiros: a criação da plataforma tecnológica que irá agregar toda a informação; e a preparação logística, operacional e regulamentar para o arranque dos estudos clínicos.
Estas primeiras fases são fundamentais para garantir que toda a infraestrutura – técnica e de gestão – esteja devidamente consolidada antes de avançar para a recolha e integração de dados clínicos à escala europeia.
O projeto decorre ao longo de cinco anos, com um orçamento global de cerca de 30 milhões de euros.
O UNCAN-CONNECT pretende responder a que necessidades da investigação em cancro no panorama europeu?
A investigação em cancro na Europa tem vindo a debater-se com um obstáculo fundamental: os dados clínicos nomeadamente genéticos e imagiológicos existem em abundância, mas estão dispersos por instituições e países, muitas vezes inacessíveis entre si por razões técnicas, éticas ou regulamentares.
Esta fragmentação limita a capacidade de produzir investigação científica robusta, de identificar padrões de doença em larga escala e de desenvolver abordagens terapêuticas verdadeiramente personalizadas.
O UNCAN-CONNECT vem responder precisamente a esta lacuna, ao criar uma infraestrutura técnica e regulamentar que permita a circulação segura, interoperável e eticamente responsável de dados entre instituições de toda a Europa.
Importa referir que existe já um regulamento da União Europeia que data de 2025, o European Health Data Space, com o objetivo de ser um espaço comum, seguro e interoperável de dados de saúde para toda a EU, e o UNCAN-CONNECT poderá contribuir com experiência prática muito relevante para a sua implementação.
De que forma o UNCAN-CONNECT promove a colaboração entre investigadores e instituições?
O UNCAN-CONNECT baseia-se precisamente numa lógica de colaboração estruturada e multidisciplinar. A rede criada junta investigadores, médicos, engenheiros de dados, especialistas em ética e representantes de organismos reguladores, trabalhando em conjunto para resolver desafios que nenhuma instituição conseguiria enfrentar isoladamente.
As fases do projeto decorrem em simultâneo, com validação da plataforma e estudos clínicos a avançar em paralelo, promovendo uma abordagem integrada.
Para além disso, o UNCAN-CONNECT articula-se com outros projetos europeus de grande dimensão, como o CANDLE, que visa criar estruturas agregadoras de informação sobre o cancro em cada país.
Portugal tem uma posição privilegiada por fazer parte de ambos os consórcios, o que potencia ainda mais a partilha eficiente de dados na investigação oncológica europeia.
Como é que a investigação desenvolvida neste consórcio pode traduzir-se em melhorias no diagnóstico e/ou no tratamento do cancro?
O impacto mais imediato espera-se ao nível do diagnóstico precoce. Nos seis tipos de cancro estudados – pediátrico, linfoma, pancreático, próstata, ovário e do pulmão -, a identificação atempada da doença é frequentemente determinante para o sucesso do tratamento.
A ligação entre informação clínica, genética e imagiológica permitirá abrir portas a diagnósticos mais precoces e a tratamentos mais eficazes.
No caso do cancro da próstata, por exemplo, um dos focos do projeto é o desenvolvimento de modelos de inteligência artificial para melhorar a capacidade preditiva em doentes com classificação PI-RADS 3 – uma zona de incerteza diagnóstica particularmente desafiante.
Estes modelos integrarão dados de ressonância magnética, biópsias, características clínicas e perfis moleculares, permitindo distinguir com maior precisão casos clinicamente significativos de situações benignas.
No cancro pancreático, que tem um prognóstico particularmente reservado e um diagnóstico frequentemente tardio, a esperança está na identificação de biomarcadores preditivos que permitam detetar a doença numa fase mais precoce e orientar as opções terapêuticas disponíveis.
Para os doentes, este projeto representa uma esperança concreta de melhorar os resultados clínicos a médio e longo prazo.
Ao partilhar dados entre países e instituições, conseguimos evitar duplicações de esforço, acelerar descobertas científicas e aplicar mais rapidamente soluções inovadoras, o que se traduzirá em diagnósticos mais precoces, tratamentos mais eficazes e, em última análise, num melhor prognóstico.
Acresce que o acesso a dados clínicos integrados, nomeadamente genéticos e imagiológicos, permite desenvolver abordagens cada vez mais personalizadas, adaptadas ao perfil individual de cada doente.
A medicina de precisão, que é hoje uma promessa, poderá tornar-se uma realidade acessível a muito mais doentes graças a iniciativas como o UNCAN-CONNECT.
Que desafios existem ou prevê que existam durante o desenvolvimento do projeto?
Os desafios são vários e de natureza distinta. Do ponto de vista tecnológico, garantir que uma plataforma de dados esteja continuamente disponível, segura e interoperável entre dezenas de instituições em 19 países é uma tarefa de enorme complexidade técnica.
Do ponto de vista ético e regulamentar, a partilha de dados de saúde exige um quadro robusto de proteção dos direitos dos doentes, com normas que variam entre países e sistemas de saúde.
A uniformização dos dados – garantir que a mesma informação seja recolhida e registada da mesma forma em diferentes contextos – é também um desafio significativo.
Na translação para a prática clínica, o principal obstáculo é sempre o tempo e a escala: mesmo quando a investigação produz resultados promissores, a validação clínica exige rigor metodológico, populações suficientemente grandes e acompanhamento prolongado.
É por isso que projetos como o UNCAN-CONNECT são essenciais. Ao centralizar dados de toda a Europa, aumentamos exponencialmente a capacidade de gerar evidência robusta que possa efetivamente mudar a prática clínica.
Ao longo da sua carreira profissional tem publicado vários artigos na área do cancro. Neste momento, além do UNCAN-CONNECT, está envolvida noutros projetos relacionados com oncologia?
Sim. Além do UNCAN-CONNECT, um projeto particularmente ambicioso e desafiante, estou envolvida em vários outros projetos de investigação relacionados com o cancro.
Projetos de investigação fundamental com foco em tumores sólidos, que têm como objetivo explorar mecanismos biológicos associados à carcinogénse tumoral e aos efeitos da radiação ionizante como opção terapêutica.
Estas linhas de trabalho procuram aprofundar o conhecimento sobre a resposta celular à radiação e identificar potenciais vulnerabilidades que possam ser exploradas para fins terapêuticos.
Por outro lado, estou também envolvida em projetos que visam melhorar e definir políticas de saúde na área dos sobreviventes de cancro, um campo cada vez mais relevante dada a crescente população de sobreviventes e a necessidade de garantir cuidados de seguimento adequados, equitativos e sustentados.
Que áreas da investigação do cancro considera mais promissoras nos próximos anos?
Há várias frentes que nos entusiasmam particularmente. A medicina de precisão – a capacidade de adaptar o tratamento ao perfil genético, molecular e clínico de cada doente – é, sem dúvida, uma das mais transformadoras.
A integração de dados multimodais, combinando imagiologia, genómica, proteómica e dados clínicos, abre perspetivas que até há poucos anos pareciam distantes.
A inteligência artificial aplicada à oncologia é outra área de grande potencial, nomeadamente na análise de padrões em grandes volumes de dados que escapam à capacidade humana de processamento.
E, claro, a partilha de dados à escala europeia – que é precisamente o que o UNCAN-CONNECT promove – é, em si, um catalisador para todas as outras áreas. Quanto maior a massa de dados de qualidade disponíveis, maior a capacidade de fazer descobertas que realmente mudem a vida dos doentes.
Este artigo foi desenvolvido no âmbito do “Vital”, um projeto editorial do Viral Check e do Polígrafo que conta com o apoio da Fundação Champalimaud.
A Fundação Champalimaud não é de modo algum responsável pelos dados, informações ou pontos de vista expressos no contexto do projeto, nem está por eles vinculado, cabendo a responsabilidade dos mesmos, nos termos do direito aplicável, unicamente aos autores, às pessoas entrevistadas, aos editores ou aos difusores da iniciativa.
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