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Xarope para estimular o apetite das crianças. Vale a pena comprar?

12 Fev 2025 - 09:35

Xarope para estimular o apetite das crianças. Vale a pena comprar?

A alimentação das crianças pode ser exigente, sobretudo quando os mais pequenos se recusam a comer ou mostram pouco entusiasmo com o que está no prato.

É por isso que, muitas vezes, os pais recorrem aos xaropes que dizem servir para “estimular o apetite das crianças”, à venda em farmácias, parafarmácias e online.

A variedade é muita. Com caixas apelativas, com bonecos e cores, as famílias têm muito por onde escolher. Mas será que estes xaropes cumprem o seu propósito? São necessários? E têm riscos?

Xarope para estimular o apetite das crianças é eficaz e necessário?

Xarope para estimular o apetite das crianças

Em declarações ao Viral, Marta Ezequiel, pediatra do Centro de Desenvolvimento da Criança do Hospital Garcia de Orta, do Centro de Neurodesenvolvimento da Criança e Adolescente do Hospital da Luz, do Centro do Bebé e co-autora do podcast “Querida Pediatra” da SIC Mulher, diz que “não há muita evidência científica” sobre estimulantes de apetite das crianças.

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Para a especialista, é essencial os pais, em conjunto com o médico, perceberem primeiro a razão de a criança não ter apetite.

“É muito importante perceber a causa da perda de apetite. Há quanto tempo dura, se tem outros sintomas, como perda de peso, ou se é uma uma questão comportamental”, refere.

A pediatra do Centro do Bebé diz que é “raro” aconselhar algum tipo de suplemento alimentar, a não ser em casos muito específicos de crianças com perturbações do desenvolvimento.

De acordo com um artigo da Canadian Paediatric Society, estimulantes de apetite “geralmente não são indicados” para “recusa alimentar isolada” e “não devem ser considerados” se a criança estiver a “crescer bem”. Só devem ser usados se a “qualidade da dieta foi questionável”.

Marta Ezequiel explica que os pais, em coordenação com o médico, devem questionar-se se o desinteresse pela comida “é transitório”, como acontece na sequência, por exemplo, de uma infeção viral.

Nesses casos, aponta a médica, não aconselha os xaropes para estimular o apetite. Perante este cenário, o recomendado é incentivar o “reforço hídrico” e o consumo de “comidas pastosas e frescas” e avaliar se o apetite regressa.

No caso de crianças sem apetite com perda de peso, cefaleias, despertares noturnos e vómitos, deve ser avaliado se “existe causa adjacente”, sublinha, exemplificando que em crianças mais velhas ou adolescentes pode estar em causa “uma questão emocional”.

A médica do Centro de Neurodesenvolvimento da Criança e Adolescente do Hospital da Luz explica que os pais “são um exemplo” para as crianças em relação à falta de apetite. Isto é, se não comerem sopa nem legumes, se tiverem uma alimentação à base de fritos e beberem refrigerantes, “não podem esperar que a criança aceite ter uma alimentação equilibrada”.

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Além disso, se sempre que a criança disser que “não quer” comer os pais fizerem “outro jantar porque sabem que o filho gosta, a criança “vai saber que pode ir dizendo que não porque vai ter sempre alternativa”, acrescenta.

O Healthdirect Australia, serviço nacional de aconselhamento de saúde na Austrália, refere que cozinhar alimentos “saudáveis” e ingeri-los “em família” pode ajudar a que os filhos “desenvolvam hábitos alimentares saudáveis” para o resto da vida.

Por isso, os pais devem “mostrar ao filho como comer de forma saudável”. Como? Segundo o mesmo serviço australiano, fazendo refeições em família sem telemóveis, televisões ou computadores por perto, tornando divertidos alguns alimentos saudáveis, por exemplo, cortando a fruta em formas interessantes, mantendo fruta preparada à mão e deixando as crianças participarem na compra dos alimentos e na preparação das refeições.

Se a criança tiver “necessidades ou restrições alimentares específicas”, um médico ou um nutricionista podem ajudar a garantir uma alimentação “saudável e equilibrada”, que deve incluir fruta, vegetais, cereais, proteínas e laticínios, aponta ainda o serviço australiano.

Outro artigo do Healthdirect Australia recomenda abastecer os armários com “opções rápidas e saudáveis” e “planear refeições rápidas, simples e nutritivas” para implementar uma alimentação saudável.

Ao Viral, a pediatra do Centro de Desenvolvimento da Criança do Hospital Garcia de Orta refere ainda que há crianças naturalmente propícias a “comer pouco”. “Não se deve forçar” se não tiver “interferência no desenvolvimento e estiverem no percentil certo”.

De acordo com o artigo da Canadian Paediatric Society, há pais com expectativas “irrealistas” que resultam em “preocupações desnecessárias”  e “castigos inadequados” que podem agravar a recusa da criança em comer.

Muitas vezes, as crianças têm um apetite “adequado” à idade, assinalam os autores. Nesses casos, os pais devem ser tranquilizados e aconselhados sobre o desenvolvimento normal das crianças.

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Pode ainda ser feito um “exame geral” para descartar má nutrição e doenças agudas ou crónicas e uma avaliação “detalhada” ao historial da criança para perceber a causa.

Na mesma linha, o Better Health Channel, serviço de conselhos de saúde do Estado de Victoria, na Austrália, diz que, por norma, as crianças têm menos apetite e precisam de menos comida devido ao tamanho “pequeno” dos seus estômagos. Nesse sentido, a quantidade de comida ingerida nas refeições, sobretudo à noite, pode ser “menor do que os pais gostariam”.

O mesmo serviço reforça que as crianças “têm uma capacidade natural” de sentir quando estão com fome e quando estão “cheias”. O apetite e a ingestão de alimentos pode “variar diariamente”. “Deixe o seu filho decidir se vai comer e a quantidade que vai comer”, acrescenta.

Também o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) defende que as crianças “podem não comer as mesmas quantidades todos os dias”. Recomenda ainda que os pais deixem os filhos “ajudar a preparar as refeições”, como lavar frutas e vegetais” para ficarem “entusiasmados com a degustação dos alimentos”, e sirvam “pequenas porções” em vez de pratos muito cheios de comida.

E quando são aconselhados?

xarope para estimular apetite das crianças

Marta Ezequiel reitera que é “raro” aconselhar xaropes para estimular o apetite, exceto em crianças com “perturbações do desenvolvimento”, com défice de ferro e de outro tipo de vitaminas.

A recomendação de suplementos deve ser feita “de acordo com a causa subjacente” e em “casos muito específicos”.

A pediatra refere que, em alguns casos, prescreve análises para “rastreio de algum tipo de défice nutricional” e acompanhamento em nutrição.

Marta Ezequiel explica que suplementos “para défices nutricionais” podem fazer sentido no caso, por exemplo, de crianças no espetro do autismo, que não conseguem comer por exemplo “proteínas nem vegetais” porque têm uma “seletividade alimentar com dietas muito restritas”.

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Este tipo de xaropes pode também fazer sentido em crianças “veganas”, se apresentarem défices nutricionais.

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A especialista contactada pelo Viral alerta que é “preciso ter cuidado” com estes xaropes porque podem ter consequências para as crianças, como náuseas e desconforto. Antes de os adquirirem, os pais devem informar o médico assistente sobre essa vontade e, juntos, avaliarem se o produto é necessário.

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12 Fev 2025 - 09:35

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