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Porque é que algumas pessoas ficam violentas quando bebem álcool?

15 Fev 2025 - 09:18

Porque é que algumas pessoas ficam violentas quando bebem álcool?

Os perigos do consumo excessivo de bebidas alcoólicas é um tema que continua a motivar estudos e campanhas de sensibilização de várias organizações. Além dos riscos evidentes para a saúde física, o álcool pode ter também influência nos comportamentos e nas relações, gerando, por exemplo, reações mais agressivas e violentas. 

Em declarações ao Viral, João Marques, psiquiatra e vice-presidente da secção de Psiquiatria da Adição da Sociedade Portuguesa de Psiquiatria e Saúde Mental (SPPSM), explica porque é que algumas pessoas têm comportamentos violentos quando ingerem bebidas alcoólicas.

Porque é que algumas pessoas têm comportamentos violentos quando bebem bebidas alcoólicas?

“Não há dúvida que existe uma correlação entre aumento da agressividade e da violência e o consumo de álcool”, começa por apontar João Marques (ver também aqui, aqui e aqui).

Aliás, de acordo com um folheto informativo da Organização Pan-Americana da Saúde (PAHO, na sigla inglesa), “há um conjunto enorme e inequívoco de dados de pesquisas que sustentam a relação entre todas as formas de agressão e o uso de álcool”, sendo que “este vínculo é demonstrado sobretudo em homens”.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) refere, num texto informativo publicado no seu site, que “o consumo de álcool também causa danos significativos a terceiros, e não apenas à pessoa que o consome”. 

Segundo a OMS, uma parte significativa das lesões relatadas atribuídas ao consumo de álcool resultam de “acidentes de viação”. Outras lesões, “intencionais ou não, incluem quedas, afogamento, queimaduras, agressão sexual, violência por parceiro íntimo e suicídio”, acrescenta-se. 

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Tal como esclarece João Marques, estes resultados devem-se ao consumo de álcool, mas não só. Até porque há pessoas que não têm comportamentos de risco nem se tornam violentas quando ingerem bebidas alcoólicas

Na perspetiva do psiquiatra existem três fatores essenciais que justificam o facto de algumas pessoas serem mais violentas quando bebem do que outras. São eles: “o álcool”, “as características individuais” e “o contexto” em que a pessoa insere no momento do consumo.

1- Efeito do álcool no organismo

O álcool tem vários efeitos no organismo, que também vão depender da quantidade ingerida

De modo geral, esclarece-se num guia explicativo publicado no balcão digital do Serviço Nacional de Saúde (SNS 24), “o álcool atua bloqueando o funcionamento do sistema cerebral responsável pelo controlo das inibições, o que significa que, numa primeira fase, pode sentir-se eufórico, alegre e com uma falsa segurança em si mesmo”.

Por outras palavras, avança João Marques, o álcool “desinibe”, ou seja, faz com que “fiquemos com menor capacidade de conter as emoções” e “dificulta a nossa capacidade de ajuizar uma situação”. 

Depois da sensação inicial de euforia e de desinibição, lê-se no texto do SNS 24, “segue-se um estado que diminui a capacidade de compreensão, atenção e reação, afeta a visão, provoca sonolência e descoordenação muscular e pode dar origem a alguma irritabilidade até alterações do comportamento graves, tais como auto e hetero-agressividade”.

No fundo, o álcool faz com que algumas pessoas “mostrem a sua agressividade e violência de uma forma mais relevante”, assinala João Marques.

2- Características individuais  

O álcool é, de facto, uma substância nociva para a saúde e o seu consumo tem um grande papel em situações de violência. Ainda assim, é importante perceber que “nem todas as pessoas que bebem álcool se tornam violentas”, ou seja, “o álcool não transforma uma pessoa não violenta numa pessoa violenta”, defende João Marques. 

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“O perfil funcional, as características de personalidade e a estrutura de funcionamento” de cada um influenciam muito a forma como uma pessoa vai reagir ao consumo de bebidas alcoólicas.

Há pessoas que têm “uma maior propensão para serem mais agressivas e mais violentas, mas, sem o álcool, conseguem conter-se e controlar-se dentro daquilo que é estipulado pela norma social de uma forma mais fácil”.

O que o álcool faz é “destapar e facilitar o aparecimento dessa violência nas pessoas com propensão para tal”, explica o médico.

A capacidade de controlo muda, ou seja, com o álcool, “a pessoa ficou menos capaz de se controlar e ficou menos capaz de ajuizar a situação da forma certa”.

Por vezes, prossegue o psiquiatra, estas situações de violência em contexto de consumo de álcool podem causar “uma certa estranheza aos olhos dos outros”, porque a família ou os amigos daquela pessoa podiam não saber que ela seria “capaz de ser tão violenta ou tão agressiva”.

3 – Contexto social

Outro fator que pode potenciar uma situação violenta é o contexto social em que a pessoa se insere no momento em que consome bebidas alcoólicas. 

“O consumo de álcool está muito ligado a eventos sociais, a reuniões ou a eventos de grupo, em que estamos com os outros, seja em bares ou festas”, contextualiza João Marques.

O contexto em si “potencia, muitas vezes, esta facilidade de a pessoa se tornar mais reativa ao exterior”, porque “o efeito do grupo o promove, ou porque é mais fácil haver desacatos”, uma vez que “esta questão da agressividade e da violência é muito mais evidente nestes contextos”. 

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O psiquiatra dá, como exemplo, o consumo de álcool enquanto se vê um jogo de futebol, em grupo, num estádio. 

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Nesse contexto específico, “há, de facto, rivalidades e muita agressividade latente”. Tudo isto “pode assumir proporções completamente diferentes com álcool ou sem álcool”, defende.

Com álcool, “a aceleração da intensidade” associada à defesa da própria equipa e ao “querer ganhar” é “muito mais alta, a inibição é muito menor e os julgamentos de facto ficam altamente piorados”.

Do ponto de vista de João Marques, nestas situações, “passar à agressão é muito fácil, mesmo com um simples gesto”. Por isso, defende, “o álcool não devia, de todo, existir” nesse contexto.

15 Fev 2025 - 09:18

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