Ter uma alimentação vegetariana na gravidez: É seguro? Quais os cuidados a ter?
Há quem defenda que adotar uma dieta omnívora durante a gravidez é mais saudável e mais seguro para a mulher e para o feto do que ter uma alimentação vegetariana. A incerteza prende-se, sobretudo, com a possibilidade de se verificarem défices nutricionais com um impacto significativo na saúde. Será que ter uma alimentação vegetariana na gravidez é seguro? Quais os cuidados a ter?
É seguro ter uma alimentação vegetariana na gravidez?
Em declarações ao Viral, a nutricionista Catarina Paixão defende que, “à partida, um padrão alimentar vegetariano tem todas as condições para ser seguro e saudável durante todas as fases da vida, incluindo na gravidez e no aleitamento”, desde que haja um acompanhamento nutricional.
Aliás, a necessidade desse acompanhamento não é exclusiva em casos de alimentação vegetariana na gravidez, todas as grávidas devem ser acompanhadas nesse sentido.
A questão é que “há maior probabilidade de as mulheres grávidas com o padrão alimentar vegetariano terem mais défices nutricionais”, sublinha a nutricionista. Daí a importância do acompanhamento nestes casos.
Havendo os devidos cuidados, “sabe-se que um padrão alimentar à base de produtos alimentares de origem vegetal durante a gestação pode ser protetor contra o desenvolvimento de pré-eclâmpsia, obesidade e a exposição a alteradores endócrinos”, refere-se num documento sobre alimentação e nutrição na gravidez do Serviço Nacional de Saúde (SNS).
Em relação ao desenvolvimento do feto, “o peso ao nascimento não parece ser significativamente diferente entre recém-nascidos de mães com padrão vegetariano ou omnívoro”, acrescenta-se.
Quais os cuidados a ter?
Segundo o documento do SNS, uma alimentação vegetariana adequada na gravidez deve incluir “diariamente um leque variado de alimentos de origem vegetal (cereais, leguminosas, hortícolas, fruta, frutos oleaginosos e sementes, gordura vegetal, ervas aromáticas e especiarias) com monitorização periódica e regular de nutrientes-chave”.
Catarina Paixão refere que “o ferro, o zinco, o cálcio, o iodo, a vitamina B12, a vitamina D, o ómega 3 e a proteína” são nutrientes que merecem especial atenção na gravidez.
Assim, dependendo do tipo de padrão alimentar (se é ovolactovegetariano ou vegano, por exemplo), “das análises clínicas” e “da história alimentar da grávida” pode ser necessário “fazer suplementação, sempre com supervisão”, aponta.
Proteína
Ao contrário do que se possa pensar, “à partida, é possível atingir as necessidades de proteína” num padrão alimentar vegetariano durante a gravidez.
“O que pode acontecer é alguns alimentos de origem vegetal não serem proteínas completas, ou seja, não terem todos os aminoácidos que um produto de origem animal tem”, explica Catarina Paixão. Por esse motivo, é importante “combinar diferentes fontes de proteína vegetal”.
No caso dos ovolactovegetarianos, “o leite e os ovos são fornecedores de proteína de excelente qualidade”, sublinha-se no documento do SNS.
Numa alimentação vegana, “a ingestão intercalada e diária de leguminosas”, “cereais integrais”, “pseudocereais” (como a quinoa), “frutos oleaginosos” e “sementes” é suficiente “para atingir as necessidades individuais de proteína”.
Devido à presença de fatores que impedem ou dificultam a absorção de proteína nos alimentos de origem vegetal, “a grávida vegetariana deve ter algumas precauções, como a demolha das leguminosas e dos cereais integrais, de forma a melhorar a sua digestibilidade”, acrescenta-se.
Ómega 3
O ómega 3 “está muito presente em produtos de origem animal, sobretudo nos peixes gordos como salmão, atum, cavala e sardinha”, refere Catarina Paixão.
Por isso, uma dieta que exclua estes alimentos pode contribuir para um défice de ómega 3, que tem impacto “no desenvolvimento cerebral e cognitivo do bebé”.
Para evitar o défice deste nutriente, é importante reforçar o consumo de frutos oleaginosos, sementes de linhaça, sementes de chia e nozes. Em alguns casos, pode ser necessário fazer suplementação.
Vitamina D
Na alimentação vegetariana durante a gravidez, “a adequação nutricional de vitamina D dá-se, sobretudo, pela exposição solar e pelo consumo de alimentos fortificados”, refere-se no documento do SNS.
Vitamina B12
Se a grávida exclui da alimentação “todos os produtos de origem animal, temos sempre de fazer suplementação de vitamina B12”, porque os alimentos de origem vegetal não têm B12, sublinha Catarina Paixão.
“Nos outros tipos de vegetarianismo, a necessidade de suplementação vai depender muito da frequência com que a grávida inclui, por exemplo, ovos, laticínios e alimentos fortificados com a vitamina B12” na alimentação.
Ferro
“Para todas as grávidas, o ferro é sempre uma preocupação”, defende Catarina Paixão. Como “as necessidades de ferro aumentam de forma significativa durante a gravidez, a suplementação de ferro em grávidas omnívoras ou vegetarianas é aconselhada”, esclarece-se no documento do SNS.
No caso das grávidas com um padrão alimentar vegetariano, “tem de se ter especial atenção aos fatores que melhoram a absorção deste mineral”.
Isto porque existem dois tipos de ferro, o ferro heme e o não heme. Tal como explica Catarina Paixão, “o ferro heme é mais absorvível e é o que está presente nos produtos de origem animal, como a carne, o peixe e os ovos”.
O ferro não heme “é o que está presente nas leguminosas e tem uma taxa de absorção menor”. Portanto, quando se exclui totalmente alimentos de origem animal da dieta, deve-se “encontrar estratégias para aumentar a absorção do ferro de origem vegetal”, tais como “juntar uma fruta rica em vitamina C no fim da refeição, ou adicionar gotas de limão” ao prato.
Iodo
No caso de a grávida ser ovolactovegetariana, os produtos lácteos e os ovos são “boas fontes de iodo”, refere-se num texto do Serviço Nacional de Saúde britânico (NHS, na sigla inglesa).
O iodo também pode ser encontrado “em alimentos vegetais, como cereais e grãos, mas os níveis variam dependendo da quantidade de iodo no solo onde as plantas são cultivadas”.
Grávidas veganas podem ter de “comer alimentos fortificados com iodo” ou até mesmo de fazer suplementação deste nutriente.
Zinco e cálcio
O zinco e o cálcio também são nutrientes importantes, que devem ser tidos em conta durante a gravidez, sobretudo quando se faz uma dieta exclusivamente de origem vegetal.
Segundo o documento do SNS, “a demolha e boa cozedura de leguminosas e cereais integrais, o limite de ingestão de fibra e a preferência por hortícolas com baixo teor de oxalatos e fitatos são procedimentos importantes para potenciar a absorção de zinco e cálcio”.