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Vacinas da Covid-19: 5 mentiras e narrativas virais que podem repetir-se no futuro

25 Out 2025 - 08:45

Vacinas da Covid-19: 5 mentiras e narrativas virais que podem repetir-se no futuro

O ano era 2020. Um vírus altamente contagioso e pouco conhecido obrigava o mundo todo a fechar-se em casa. À medida que as ruas ficavam vazias de gente, o universo online enchia-se de mentiras, conspirações e falsidades, alimentadas, em parte, pelo desconhecimento e pelo medo. Vivia-se, simultaneamente, uma pandemia de Covid-19, que ameaçava a saúde pública, e uma “pandemia” de informação e desinformação (a infodemia), com riscos que vão além do óbvio.

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O fenómeno cresceu e agudizou-se quando, uns meses depois, surgiram as primeiras vacinas contra a Covid-19 e, com elas, as mentiras sobre os supostos perigos, a alegada ineficácia e os objetivos “ocultos” destas injeções. 

Ainda hoje, mais de dois anos depois de a Organização Mundial da Saúde declarar o fim da emergência global da Covid-19, muitas destas ideias continuam a circular nas redes sociais e a alimentar a desconfiança em relação às vacinas e às autoridades de saúde pública.

Mas desengane-se quem pensa que este tipo de narrativas e estratégias desinformativas sobre vacinas é uma invenção recente fruto da Covid-19. Quem o sublinha é Miguel Prudêncio, investigador na área das vacinas do Instituto Gulbenkian de Medicina Molecular (GIMM) e professor na Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa (FMUL).

Em entrevista ao Polígrafo e ao Viral, o especialista lembra que, já no século XIX, quando foi criada a vacina contra a varíola, surgiram, no Reino Unido, “ligas anti-vacinação que utilizavam os mesmos argumentos e estratégias”.

O caráter cíclico da desinformação, alicerçado na lógica de reciclagem de narrativas falsas ou imprecisas, obriga-nos, por isso, a refletir sobre as mentiras que circularam durante a pandemia da Covid-19, para evitar que, em futuras pandemias e situações de emergência de saúde, estas falsidades se espalhem com a mesma eficácia ou, pelo menos, para tornar os cidadãos mais capazes de as identificarem e rejeitarem de forma informada.

Eis cinco mentiras que circularam sobre a Covid-19 (e as vacinas que a combatem) que se podem repetir no futuro.

1 – A Covid-19 é só “uma gripezinha”vacinas covid-19

Uma das principais estratégias dos movimentos anti-vacinação, transversais a diferentes épocas da História, passa por “minimizar a ameaça da doença”, explica Miguel Prudêncio.

No século XIX, por exemplo, “havia tentativas de dizer que a varíola não era assim tão grave, quando, na verdade, era uma doença que matava centenas de milhares de pessoas e com consequências muito graves para a saúde e para a vida das pessoas”.

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Dois séculos depois, em plena pandemia da Covid-19, a mesma ideia foi defendida por diferentes grupos negacionistas, movimentos anti-vacinação e figuras políticas ou mediáticas, que procuraram desvalorizar a gravidade da infeção causada pelo SARS-CoV-2. Recorde-se o exemplo do ex-Presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, que, mais do que uma vez, se referiu à Covid-19 como uma “gripezinha”, uma crença popular que não encontra espelho nos factos. 

Apesar de, em muitos casos, terem alguns sintomas semelhantes, a Covid-19 e a gripe não são a mesma doença: são provocadas por dois vírus diferentes (o SARS-CoV-2, no caso da Covid-19, e o Influenza, no caso da gripe) e têm graus de severidade e de transmissibilidade distintos.

Além disso, o vírus da gripe circula há muito tempo, pelo que grande parte da população já terá algum grau de imunidade, por infeções anteriores ou pela vacinação anual. Por outro lado, o vírus da Covid-19, sendo mais recente, encontrou a população mundial sem qualquer imunidade, o que facilitou a rápida disseminação e o elevado número de casos graves e mortes (segundo a OMS, entre janeiro de 2020 e dezembro de 2021, cerca de 14,9 milhões de pessoas em todo o mundo morreram como resultado direto ou indireto da Covid-19).

2 – Os médicos e os cientistas “do sistema” não são de confiançavacinas covid-19

Outra das estratégias mais comuns e, com maior probabilidade de vir a repetir-se em futuras pandemias ou situações de emergência de saúde pública, passa por “minar a confiança das pessoas nos cientistas e nos médicos”.

Durante a Covid, atira Miguel Prudêncio, “talvez o exemplo mais paradigmático disso mesmo seja a campanha que foi feita contra o Dr. Fauci nos Estados Unidos”.

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O investigador refere-se às várias fake news que circularam (e ainda circulam) sobre Anthony Fauci, o imunologista norte-americano que ganhou notoriedade durante a pandemia de Covid-19, inicialmente como conselheiro especial da Casa Branca para a crise sanitária. Estas publicações falsas têm sido descritas como uma campanha de desinformação e de ataques pessoais criada para descredibilizar a ciência e promover narrativas alternativas infundadas.

Curiosamente, afirma Prudêncio, ao mesmo tempo que estes grupos negacionistas e/ou anti-vacinação desvalorizavam  – ou até vilanizavam  – o papel dos médicos e cientistas, por outro lado, também “invocavam opiniões de pseudoespecialistas, que defendiam, por exemplo, que as vacinas não eram eficazes”, ou seja, que privilegiavam as opiniões em detrimento dos factos baseados em evidência científica.

“Tivemos um monte de exemplos disso durante a Covid, seja com grupos como os Médicos Pela Verdade, seja com todos os ‘pseudoespecialistas’ das redes sociais que nunca estudaram, que não sabem nada sobre vacinas, que não sabem como é que funciona o sistema imunitário, que não têm o mínimo conhecimento científico, mas que se permitem, obviamente, exprimir opiniões como se fossem grandes especialistas na matéria”, sustenta.

3 – As vacinas têm chips, são magnéticas e servem para controlar a população

covid-19

A pandemia da Covid-19 e a crise sanitária foram terreno fértil para diversas teorias da conspiração. Uma das mais populares é a ideia de que as vacinas continham metais, microchips, nanorrobôs ou rastreadores e que serviriam para controlar a população. A prova, diziam, estava nos vídeos que, supostamente, mostravam pessoas a aproximarem ímanes da zona em que tinham tomado a vacina, ficando estes aparentemente agarrados ao braço.

No entanto, tal como vários jornais de fact-checking nacionais e internacionais já verificaram (ver exemplos aqui, aqui e aqui), não existe qualquer evidência científica que comprove estas alegações.

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Por um lado, todos os materiais utilizados nas vacinas são públicos, estão identificados e descritos, e nenhum deles é magnético ou possui propriedades que permitam a adesão de ímanes à pele. Por outro, também não existe sustentação para a crença de que as vacinas servem para controlar a população.

Ainda assim, este tipo de teorias da conspiração foram tão disseminadas que levaram vários governos e autoridades de saúde a desmentirem estas alegações repetidas vezes. 

Veja-se o caso do Ministério da Saúde do Brasil que, já em 2024, publicou um texto informativo a esclarecer que “nenhuma vacina contra a Covid-19, bem como qualquer outro imunizante administrado à população brasileira, possui grafeno, ímanes ou materiais desconhecidos na sua composição”.

No mesmo sentido, num artigo explicativo publicado no site da Comissão Europeia, adianta-se que as teorias da conspiração surgem, frequentemente, “como uma explicação lógica para eventos ou situações difíceis de compreender e trazem uma falsa sensação de controlo e de capacidade de ação”, aproveitando-se do facto de “essa necessidade de clareza se intensificar em tempos de incerteza”, como foi o caso da pandemia da Covid-19.

Por norma, destaca a Comissão Europeia, “as teorias da conspiração começam como uma suspeita”, ou seja, “questionam quem está a beneficiar do acontecimento ou da situação e, assim, identificam os conspiradores”. Depois, “qualquer ‘prova’ é, então, forçada para se encaixar na teoria”.

A mesma instituição alerta que, “uma vez enraizadas, as teorias da conspiração podem crescer rapidamente”. Além disso, “são difíceis de refutar porque qualquer pessoa que tente fazê-lo é vista como parte da conspiração”.

4 – As vacinas foram criadas de um dia para o outrocovid-19 vacinas

Quando a intenção é descredibilizar o papel das vacinas contra a Covid-19 e pôr em causa a sua eficácia e segurança, um dos argumentos mais comuns passa por dizer que foram “criadas de um dia para o outro”.

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No entanto, frisa Miguel Prudêncio, esta crença “encerra uma falsidade tremenda”, ignorando que a tecnologia que serve de base às vacinas contra a Covid-19 (RNA mensageiro ou mRNA) começou a ser desenvolvida muitos anos antes da pandemia.

“Não foi uma tecnologia que começou a ser desenvolvida quando a Covid-19 surgiu. Muito pelo contrário, é uma tecnologia que vinha a ser desenvolvida, pelo menos, há quatro décadas, desde os anos 80 do século passado”, assegura o investigador.

Aliás, em 2023, o Prémio Nobel da Medicina foi atribuído a Katalin Karikó e a Drew Weissman “pelas suas descobertas relativas às modificações das bases nucleósidas que permitiram o desenvolvimento de vacinas eficazes de mRNA contra a Covid-19”, descobertas essas que foram publicadas em 2005 e que estes dois cientistas já investigavam juntos desde os anos 90.

Assim sendo, aquele conhecimento que foi gerado nessa altura – e que continuou a ser gerado ao longo das décadas que lhe seguiram – é que esteve na base da criação das vacinas”, detalha Miguel Prudêncio.

Importa sublinhar também que, ainda antes da pandemia da Covid-19, “já estavam a ser desenvolvidas, exploradas e a entrar em ensaios clínicos vacinas de RNA mensageiro contra outras doenças”. No entanto, quando  surgiu a pandemia da Covid-19, houve “um redirecionamento dos esforços e das linhas de produção de vacinas de outros fins para os quais estavam a ser testadas e desenvolvidas para fazer face à pandemia”, clarifica o professor da FMUL.

Tudo isto comprova que “a ideia de que a vacina contra a Covid foi gerada e fabricada de um dia para o outro é absolutamente falsa”.

5 – As vacinas não são seguras e causam mortes, doenças graves e “cancros-turbo”

Gillray, James, 1756-1815, The cow-pock, or, The wonderful effects of the new inoculation!

O medo serve de combustível à desinformação, por deixar as pessoas mais suscetíveis a acreditarem em narrativas falsas e conspirativas. Por isso, num contexto de crise sanitária, e na presença de um vírus quase desconhecido, “fomentar o medo” é uma estratégia particularmente eficaz.

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Uma caricatura de 1802, assinada por James Gillray, com o título “A varíola bovina – ou – Os maravilhosos efeitos da nova inoculação!”, mostra que a controvérsia sobre a vacinação é tão antiga quanto o próprio procedimento. Foi publicada apenas quatro anos depois de Edward Jenner ter criado a primeira vacina da História, ao descobrir que inocular pessoas com varíola bovina conferia imunidade contra a varíola aos seres humanos.

Na ilustração, vê-se o Hospital de St. Pancras, em Londres, onde uma figura – que, provavelmente, representa Jenner – vacina uma jovem assustada. O médico retira um líquido de um balde com a inscrição “varíola vacinal quente da vaca” e, à volta, vê-se um cenário caótico: vacas em miniatura rebentam dos corpos dos recém-vacinados e um homem desenvolve cornos.

Esta caricatura é utilizada, muitas vezes, quando se pretende ilustrar o medo e a apreensão da população face a novas práticas médicas, como a vacinação. Miguel Prudêncio faz um salto temporal e compara-a com publicações mais recentes das redes sociais em que se defende que as vacinas contra a Covid-19 não são seguras, causam doenças graves – como os chamados “cancros-turbo” – e são responsáveis por centenas de milhares de mortes, narrativas sem qualquer adesão à realidade.

A segurança das vacinas contra a Covid-19 está cabalmente demonstrada, garante Miguel Prudêncio, e asseguram também as organizações e autoridades de saúde nacionais e internacionais, que concordam que os benefícios da vacinação compensam largamente os riscos, nos casos em que estas são administradas de acordo com as indicações aprovadas, incluindo a idade recomendada, o estado de saúde do indivíduo e os intervalos de doses definidos.

O investigador adianta que, antes de uma vacina ser licenciada e comercializada, tem de passar por “um processo que está muito bem definido, muito bem delineado, com diferentes etapas (fases) e que obedece a regras rigorosas”, para avaliar a eficácia e segurança da substância/tecnologia.

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Tudo começa “com a investigação que se faz a nível laboratorial”, numa “fase muito inicial de descoberta de antigénios, de descoberta de moléculas que podemos tentar desenvolver como candidatos à vacina”.

Depois, os cientistas avançam para os ensaios pré-clínicos, feitos em modelos animais (e nunca, nesta fase pré-clínica, em humanos), que servem para perceber se o produto em causa “vai espoletar as respostas imunológicas” esperadas. Isto é, se vai conseguir estimular o sistema imunitário dos animais de forma adequada e segura, antes de se poder avançar para testes em seres humanos.

Só quando se demonstra pré-clinicamente que existe imunogenicidade – ou seja, a capacidade da vacina de espoletar uma resposta imunitária – e, simultaneamente, não existem quaisquer sinais de alerta em termos de segurança, em modelos animais, é que vamos avançar para as fases clínicas do desenvolvimento das vacinas”, sustenta.

As fases clínicas de desenvolvimento das vacinas dividem-se em três. A fase 1 é feita com um número pequeno de voluntários, “na ordem das dezenas”, e serve, sobretudo, para “aferir a segurança da vacina”.

Caso não haja sinais de alerta de segurança, avança-se para a fase 2, dividida em fase 2A e 2B. A fase 2A tem um número maior de voluntários (na ordem das centenas) do que a fase 1 e foca-se também em “eventuais efeitos adversos que possam acontecer” com a toma da vacina, ou seja, na segurança da mesma. Na fase 2B, além da segurança (transversal a todas as fases), “já começamos a olhar para a eficácia que a vacina tem”.

“Na fase 2B, vamos analisar se, nessas centenas de voluntários, a vacina mantém o seu perfil de segurança, mas também se espoleta as respostas imunitárias que se pretende, ou seja, se confere proteção àquelas pessoas”, explana.

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Caso a eficácia e a segurança da vacina se verifique, avança-se para  a fase 3, que envolve milhares de voluntários.

No caso das vacinas contra a Covid-19, exemplifica o investigador, “tipicamente, os ensaios de fase 3 foram feitos com 20 mil pessoas em cada grupo: no grupo vacinado e no grupo controlo”.

“Nessa fase, continuamos a avaliar a segurança e, ao mesmo tempo, vamos agora aferir qual é a proteção que a vacina, efetivamente, está a conferir contra a doença em causa”, detalha.

Depois da fase 3, “se tudo tiver corrido como esperado, se não houver sinais de alerta de segurança, e se estiver demonstrada a sua eficácia, a vacina está, então, em condições de vir a ser licenciada”.

Mas a avaliação da segurança das vacinas não termina no momento em que são licenciadas e comercializadas. Pelo contrário, entra-se na fase de “farmacovigilância” (também conhecida como fase 4). Isto é, “a partir do momento em que a vacina começa a ser utilizada em grande escala, vamos continuar a monitorizar a sua eficácia e segurança em cenário de mundo real”.

Na fase de farmacovigilância, que dura “para sempre”, é possível detetar efeitos secundários raros ou muito raros, que não foram encontrados nos ensaios clínicos das fases anteriores por envolverem um número mais limitado de participantes.

“Se há um efeito secundário que acontece em uma pessoa num milhão, é muito provável que não se detete esse efeito num ensaio clínico em que participaram apenas 20 mil pessoas”, aponta.

Quando, na fase de farmacovigilância, surge um sinal de alerta sobre a segurança da vacina, há duas possibilidades: “ou esse sinal é suficientemente grave para pôr em causa se a vacina é dada ou não, ou, como é mais comum, esse sinal de alerta conduz a um ajuste na indicação da vacina”.

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Miguel Prudêncio lembra que esse segundo cenário aconteceu, por exemplo, na altura da pandemia da Covid-19, quando se descobriu um efeito muito raro da vacina da AstraZeneca: algumas pessoas desenvolveram uma trombose com trombocitopenia.

Como esse efeito muito raro (menos de 1 caso em cada 10 mil doses) só se verificava “em pessoas de determinada idade”, a DGS recomendou, a dada altura, que a vacina da AstraZeneca só fosse administrada a pessoas acima dos 60 anos.

Tendo em conta tanto os resultados dos ensaios clínicos como a informação recolhida, até hoje, na fase de farmacovigilância, confirma-se que as vacinas contra a Covid-19 são, no geral, “extremamente seguras”, embora, à semelhança de qualquer outro medicamento, tenham possíveis efeitos secundários.

Por exemplo, algumas pessoas, com historial de alergia, podem desenvolver uma reação alérgica à vacina. Esse facto foi “rapidamente identificado e resolvido” com uma medida simples: depois de serem administradas vacinas, as pessoas tinham de esperar 30 minutos antes de abandonarem o posto de vacinação. Assim, se houvesse uma reação alérgica, estariam num local onde poderiam ser assistidas de imediato.

No caso da vacina de RNA mensageiro, “houve um alerta em relação à questão do aparecimento de miocardites em algumas pessoas”. A situação foi investigada e concluiu-se que “a probabilidade de haver uma miocardite resultante da vacina era muito inferior à probabilidade de haver uma miocardite resultante da própria infecção pelo vírus da Covid-19”.

Assim sendo, “numa análise de risco-benefício, era óbvio que esse risco era mínimo comparado com o risco de desenvolver aquela condição no caso de contrair efetivamente a doença”.

Quanto às publicações das redes sociais em que se defende que as vacinas deixas as pessoas magnéticas, com tremores ou levam ao desenvolvimento de supostos cancros-turbo (que se desenvolvem muito rapidamente), Miguel Prudêncio sublinha que essas ideias “não têm nenhuma base científica”.

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Tal como se explica no site do Global Vaccine Data Network (Rede Global de Dados sobre Vacinas), a expressão “cancro-turbo” é um termo “usado livremente por teóricos da conspiração para descrever cancros supostamente agressivos e de rápido desenvolvimento observados após a vacinação”, mas “carece de uma definição médica clara ou de evidências”.

Segundo esta instituição, o diagnóstico de alguns cancros em fases mais avançadas, após a vacinação, pode ser explicado pelo facto de muitas pessoas terem adiado “exames e tratamentos de cancro durante a pandemia devido a perturbações nos cuidados de saúde”. Por esse motivo, “cancros que teriam sido detetados mais cedo estão a ser diagnosticados em estadios mais avançados agora, dando a ilusão de cancros de “crescimento mais rápido” ou mais agressivos”.

Muitas destas ideias erradas e teorias da conspiração assentam na confusão entre correlação e causalidade. Ou seja, o facto de um evento suceder ao outro (correlação) não significa que o primeiro tenha provocado o segundo (causalidade).

“Por exemplo, se uma pessoa morrer, seja por que razão for, nos dias a seguir a ter tomado a vacina, tem de se perceber se há uma coincidência temporal ou se há uma relação causal”, acrescenta Miguel Prudêncio.

No entanto, alerta o investigador, frequentemente, “os movimentos anti-vacinação aproveitam casos em que uma pessoa desenvolve algum problema ou morre nas semanas seguintes à vacinação para dizer: ‘Ah, isto aconteceu porque tomou a vacina há duas semanas, três semanas ou um mês’.”, acrescenta Miguel Prudêncio.

Como evitar que estas narrativas se disseminem no futuro?

Erradicar completamente a desinformação em saúde, sobretudo em contexto de crise sanitária, é praticamente impossível. No entanto, acredita Miguel Prudêncio, há medidas que poderão ajudar a minimizar a disseminação deste tipo de narrativas falsas.

Para o investigador, existem três palavras de ordem: antecipar, ou seja, alertar preventivamente para táticas de desinformação antes que estas surjam (prebunking); informar, nomeadamente sobre quem são as autoridades, as vozes e os especialistas considerados “credíveis e de confiança”; e educar “para a literacia científica e para o pensamento crítico”.

Este artigo foi desenvolvido em 2025 para o projeto “Prebunking at Scale”, com o apoio da European Fact-Checking Standards Network.

These materials were developed in 2025 for the Prebunking at Scale project, with support from the European Fact-Checking Standards Network.

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25 Out 2025 - 08:45

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