Usar folhas de couve para tratar mastites: faz sentido?
Já ouviu dizer que as folhas de couve podem ajudar nas mastites no pós-parto? É o que é dito numa publicação nas redes sociais.
A autora alega que as couves são um “grande aliado” porque têm propriedades que ajudam a “reduzir o inchaço, a dor e a inflamação característica da descida de leite ou da mastite”.
Para o efeito, as folhas de couve devem ser lavadas e colocadas no frigorífico antes de serem usadas. De acordo com a publicação, podem ser usadas duas ou três vezes por dia até as mamas “deixarem de ficar tão inchadas” e a dor diminuir. Mas será mesmo assim? Será que faz sentido usar folhas de couve para tratar mastites?
Couves podem ajudar no tratamento das mastites no pós-parto?
Fernando Cirurgião, ginecologista e obstetra, diretor do serviço de ginecologia e obstetrícia do Hospital Francisco Xavier, considera que pode haver alguma “lógica” em usar folhas de couve frias em caso de mastites, devido às “propriedades inflamatórias” do frio. Contudo, alerta que esta “mezinha” deve ser utilizada apenas em estágios iniciais.
“A inflamação é como termos um músculo cansado, a articulação com dores. Para isso, utilizamos algo frio para aliviar”, exemplifica.
De acordo com o médico, o uso das couves pode ser usado, mas apenas no início de uma mastite e se a mulher preferir tentar métodos caseiros antes de fármacos.
O obstetra aconselha o uso de “folhas grandes” para “abarcar toda a mama”. Antes disso, devem ser colocadas no frigorífico ou congelador para ficarem frias.
No mesmo sentido, Joana Alves Barbosa, dermatologista do Hospital Lusíadas, especialista em Dermatovenereologia, membro da Sociedade Portuguesa de Dermatologia e Venereologia e membro da Academia Europeia de Dermatologia e Venereologia, esclarece que o “principal mecanismo” na base do alívio do desconforto mamário é a ação inflamatória do frio em contacto com a pele.
Além disso, a “relação anatómica favorável” entre o formato da couve e a mama em si “oferece uma cobertura praticamente completa da mama em todos os quadrantes”, o que proporciona um alívio.
Neste contexto, acrescenta a médica dermatologista, é uma forma “segura e eficaz” de alívio do desconforto.
Por outro lado, em declarações ao Viral, o diretor do serviço de ginecologia e obstetrícia do Hospital Francisco Xavier alerta que o uso de couves pode “atrasar o diagnóstico e tratamento”. Ou seja, o ideal seria que este método fosse usado “como complemento, não ignorando a necessidade de apoio farmacológico”.
Em declarações ao Viral, Fernando Cirurgião explica que, em primeiro lugar, a mulher deve tentar esvaziar a mama e aplicar conselhos sobre “a pega e a vinculação entre o bebé e a mãe”. Posteriormente, “não deve deixar que a situação se arraste”.
Além disso, diz o especialista em obstetrícia, a mulher deve recorrer a medicamentos compatíveis com a amamentação, como o ibuprofeno, “para diminuir o processo inflamatório”.
“O uso de fármacos é mais rápido do que a ação de mezinhas, que podem atrasar um diagnóstico”, aponta.
O Serviço Nacional de Saúde diz, num texto informativo, que em caso de mastite a mulher deve “esvaziar o mama inflamada” após a mamada, aplicar compressas frias, tomar banho morno, repousar e beber muitos líquidos e, se necessário, consultar a enfermeira ou o médico de família.
A dor nos seios pode ser “aliviada com uma compressa fria”, refere o serviço nacional de saúde britânico, acrescentando que as mulheres devem também descansar, beber muitos líquidos e tomar paracetamol ou ibuprofeno para reduzir dores e a temperatura alta.
Por outro lado, o serviço nacional de aconselhamento de saúde da Austrália diz que é “importante” a mulher consultar um médico o mais cedo possível se “sentir que pode ter uma mastite”.
O Governo da Irlanda do Norte também considera, num artigo sobre mastites, importante contactar o médico “o mais rápido possível”, contudo, afirma que pode ser benéfico “tentar algumas medidas de auto-ajuda” antes da consulta, como descansar bastante, manter-se hidratado e evitar roupas apertadas.
Também o departamento de Saúde de Victoria, na Austrália, recomenda à mulher consultar o médico “imediatamente” se a mama estiver “vermelha, dorida, quente e sensível ao toque ou tiver sintomas semelhantes aos da gripe”, apesar de reconhecer que aplicar frio no local “pode ajudar a reduzir a inflamação e a dor”.
Mas, afinal, o que são as mastites?
O aparecimento de uma mastite é “mais comum” em mulheres que amamentam, geralmente nas primeiras seis semanas após o parto, segundo um texto do governo da Irlanda do Norte .
Trata-se do processo inflamatório que provoca “dor, rubor local, vermelhidão”, acrescenta o médico.
O serviço nacional de aconselhamento de saúde da Austrália refere que provoca também “sintomas semelhantes aos da gripe, como calafrios, tremores e dores do corpo”.
De acordo com o médico consultado pelo Viral são “comuns” quando fica algum leite “remanescente” e que acaba por “não se tirar” no intervalo de duas mamadas, esclarece.
Contudo, a inflamação pode evoluir para infeção “demasiado rápido” se ficar “de forma persistente e no mesmo local”. Nesta situação, dá-se o crescimento de bactérias e de abscesso e pode ser necessário tomar antibióticos e fazer uma drenagem mamária.
O serviço nacional de aconselhamento de saúde da Austrália diz que há pessoas “mais propensas” do que outras a desenvolver mastites.