Trump quer que o leite gordo seja “grande outra vez”. Será esta a melhor opção para a saúde?
A nova pirâmide alimentar divulgada pela Administração Trump gerou uma forte discussão. Desde logo, por assumir a forma de uma pirâmide invertida, dispensando a hierarquização dos alimentos que se espera num conjunto de recomendações.
Mas há outros aspetos destas novas diretrizes alimentares que levantam dúvidas junto de nutricionistas e nas redes sociais têm surgido muitas publicações que as expõem. Veja-se, por exemplo, a quantidade de proteína recomendada. Corresponde ao que era, até agora, recomendado especificamente para atletas. Também a dose recomendada de açúcar ultrapassa a quantidade estabelecida pela própria Organização Mundial da Saúde.
Também há quem critique a escolha gráfica de alguns elementos presentes, como a opção de incluir legumes enlatados em vez destes produtos na sua forma natural. Destaca-se ainda a inclusão de gorduras saturadas, como a manteiga ou o leite gordo.
Mas será que o leite gordo é mais saudável do que as alternativas com menos gordura?
Veja-se, antes de mais, a composição nutricional do leite gordo, e dos restantes tipos de leite com menos gordura. As diferenças estão essencialmente no teor de gordura e no valor energético.
O leite gordo, ou leite “inteiro” (whole milk, como se lê na pirâmide norte-americana), tem, em média, cerca de 60 a 65 quilocalorias por 100 gramas, resultantes sobretudo do teor de gordura, próximo dos 3,5 a 3,6 gramas, das quais cerca de 2,3 gramas são gorduras saturadas, como se pode confirmar num documento dedicado a este alimento, elaborado pela Associação Portuguesa de Nutrição. Contém ainda aproximadamente 4,8 a 4,9 gramas de hidratos de carbono, que correspondem à lactose e, finalmente, 3,3 gramas de proteína. Há ainda micronutrientes presentes, como vitaminas A e D.
Por 100 gramas, o leite meio-gordo fornece em média 47 a 48 quilocalorias, com cerca de 1,5 a 1,6 gramas de gordura. Apenas um grama corresponde a gordura saturada. Os hidratos de carbono mantêm-se próximos dos 4,9 gramas, enquanto o teor proteico ronda os 3,2 a 3,4 gramas. Ou seja, esta opção tem menos gordura, mas mantém as restantes características nutricionais, nomeadamente proteínas e cálcio.
Já o leite magro apresenta o valor energético mais baixo: cerca de 34 a 35 quilocalorias por 100 gramas, e quanto à gordura, também desce para valores residuais: cerca de 0,3 gramas e 0,1 de gordura saturada. Tem ainda hidratos de carbono, entre 4,8 e 5 gramas e a proteína sobe para 3,5 e 3,6 gramas.
Portanto, olhando a estas composições nutricionais, é possível perceber que as três versões têm um perfil nutricional semelhante, mudando principalmente a quantidade de gordura.
Inês Garcia, nutricionista e assessora técnica da Associação Portuguesa de Nutrição (APN), sublinha, em declarações ao Viral, que “independentemente do teor de matéria gorda, o leite é uma excelente fonte de vitaminas, como a vitamina B12, e de minerais como o cálcio, o potássio, o fósforo e o iodo”.
Leite gordo, meio-gordo ou magro. Qual a melhor opção?
Para a especialista, “o processo de escolha de um alimento é multifatorial, estando dependente de aspetos biológicos, psicológicos, económicos e sociais” e, portanto, não se encerra na mera análise de um macronutriente como a quantidade de lípidos do leite.
A nutricionista considera que, “no caso particular do leite, a seleção de uma tipologia de leite em detrimento de outra deve ser orientada pelas necessidades nutricionais individuais”. Isto porque “o princípio da adequação constitui um dos pilares de uma alimentação saudável, devendo ser considerado no momento de escolha do tipo de leite a consumir”.
No contexto de um padrão alimentar saudável, “existe espaço para a inclusão dos diferentes tipos de leite e respeito pelas preferências alimentares”, conclui.
Alguns grandes estudos observacionais mostram que pessoas que consomem leite magro ou meio-gordo têm menor risco de mortalidade total e por doenças cardíacas em comparação com quem consome mais leite gordo.
É o caso de um estudo de 2021, que contou com a participação de mais de 29 mil adultos. Durante o período de observação, morreram 4170 pessoas, das quais 730 por doenças cardiovasculares e 846 por doença oncológica. O consumo de leite com menos gordura mostrou uma associação inversa com a mortalidade total e a mortalidade associada às doenças cardiovasculares. Os investigadores concluíram, assim, que o leite magro pode ser mais promotor de uma boa saúde cardiovascular na generalidade dos adultos.
Por outro lado, o consumo em grandes quantidades de leite gordo foi associado a um maior risco de mortalidade cardiovascular e total num estudo de coorte de longo prazo (de 1974 a 1988), que envolveu uma população de 73,860 participantes. Em contrapartida, o leite magro não mostrou essa associação e chegou a estar ligado a riscos um pouco mais baixos quando comparado diretamente com o leite gordo.
Importa, no entanto, ressalvar que a maioria destas evidências vêm de estudos observacionais, ou seja, que mostram uma associação e não uma relação direta de causalidade, sendo que os resultados podem ser influenciados por outros fatores de estilo de vida. Por exemplo, as pessoas que bebem leite magro tendem a ter dietas e hábitos mais saudáveis no geral.
A nutricionista consultada pelo Viral também destaca que “a evidência científica disponível sobre o efeito do consumo de leite gordo ao nível de diferentes outcomes de saúde não é consensual”. E, por isso, defende que “um alimento nunca pode ser visto de forma isolada, mas sim enquadrado num plano alimentar que inclui diferentes alimentos que podem, eventualmente, ser fontes adicionais de gordura saturada”, à qual é preciso ter particular atenção.
Em suma, “o leite não é apenas gordura. Mais do que olhar para um nutriente de uma forma isolada, importa olhar para a complexidade da sua matriz alimentar”, frisa a responsável pela APN.