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Porque é que os tratamentos oncológicos provocam alterações no paladar?

5 Ago 2025 - 09:47

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Porque é que os tratamentos oncológicos provocam alterações no paladar?

Alguns doentes com cancro notam mudanças no paladar durante os tratamentos — e talvez até algum tempo depois. A comida deixa de saber ao mesmo: umas vezes, deixa de ter sabor, noutras, fica salgada ou com um sabor metálico. 

Organismos diferentes podem reagir aos mesmo fármacos utilizados nos tratamentos oncológicos de formas distintas e há muitos fatores que podem alterar essas reações. Segundo a literatura, até 80% dos pacientes podem sentir alterações no paladar, mas é sempre temporário.

Cláudia Caeiro, coordenadora de Oncologia do Hospital CUF Porto, admite que esse é um efeito secundário muitas vezes “desvalorizado” pelos profissionais de saúde.

Porque é que os tratamentos oncológicos podem afetar o paladar? 

Há vários motivos que explicam este efeito secundário e dependem não só do tipo de tratamento, como também de fatores relacionados com o próprio doente.

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No caso da quimioterapia, “pode haver algum dano neurotóxico”, porque o tratamento afeta os “recetores quer do paladar, quer do olfato”. Apesar de as células cancerígenas serem o alvo, as células saudáveis também podem ser afetadas pela quimioterapia. 

“A radioterapia, particularmente em doentes com tumores da cabeça e pescoço (da cavidade oral, da laringe, da faringe), provoca muita secura das mucosas”, o que pode causar alterações do paladar. 

Se o doente tiver “condições coexistentes”, como diabetes, “se for fumador” ou for polimedicado, por exemplo, é possível que todos estes fatores interajam com os tratamentos oncológicos e provoquem alterações de paladar. 

Além disso, “todos temos no código genético polimorfismos das várias estruturas enzimáticas que processam a medicação”, ou seja, pode haver pessoas que têm muitos efeitos secundários devido à quimioterapia e outras que “não têm praticamente nenhum”.

A coordenadora do serviço de oncologia do Hospital CUF Porto observa que o mais comum é os pacientes relatarem sabores metálicos em tudo o que comem. Há também quem sinta que os alimentos são extremamente salgados, azedos, amargos ou doces.

Esses pacientes “não têm prazer na alimentação, os alimentos têm um sabor alterado e isso é particularmente importante em pessoas que já estão desnutridas”, condição bastante comum entre pessoas com “tumores da cabeça e pescoço ou tumores digestivos altos, nomeadamente do esófago”.

Há forma de atenuar essas alterações do paladar?

“Às vezes, enquanto profissionais de saúde, desvalorizamos um bocadinho essas condições”, admite a oncologista. Isso acontece principalmente porque “não há propriamente formas de tratar”, apenas “fármacos mais passíveis de provocar essas alterações do que outros”, e porque é um efeito temporário. 

As alterações no paladar “podem aparecer depois das primeiras duas a três semanas do tratamento e, depois de pararmos o tratamento, essas alterações podem persistir até seis a oito semanas”.

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Não há qualquer medicamento que mitigue a condição. “Só podemos dar algumas dicas, a pessoa deve tentar encontrar aqueles alimentos que não são tão alterados por esta disrupção e escolher comidas frias ou mornas, em vez de quentes”, diz Cláudia Caeiro. 

A American Cancer Society sugere que mastigar uma pastilha elástica sem açúcar e com um sabor cítrico ou de menta pode ajudar a mascarar sabores azedos ou metálicos. Quando a comida não sabe bem pode tentar mudar-se os temperos para tentar perceber que sabores causam menos mal-estar, e, se a carne parece ter um sabor estranho, deve considerar-se outro tipo de proteínas como tofu, ovos, peixe, feijão, entre outros. É um processo de tentativa-erro, explica a médica.

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“O apoio de uma consulta de nutrição é importante” e pode servir como guia para que o doente encontre alternativas que permitam continuar a consumir os nutrientes necessários.


Este artigo foi desenvolvido no âmbito do “Vital”, um projeto editorial do Viral Check e do Polígrafo que conta com o apoio da Fundação Champalimaud.

A Fundação Champalimaud não é de modo algum responsável pelos dados, informações ou pontos de vista expressos no contexto do projeto, nem está por eles vinculado, cabendo a responsabilidade dos mesmos, nos termos do direito aplicável, unicamente aos autores, às pessoas entrevistadas, aos editores ou aos difusores da iniciativa.

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5 Ago 2025 - 09:47

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