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Toranja pode interferir com a eficácia de antidepressivos? E com a segurança?

8 Fev 2025 - 09:45

Toranja pode interferir com a eficácia de antidepressivos? E com a segurança?

Nas redes sociais sugere-se que a toranja “pode causar problemas sérios” a quem toma certos medicamentos, como alguns antidepressivos. Segundo a autora de um vídeo partilhado no TikTok, “quem toma sertralina não pode beber sumo de toranja”. Isto porque, alega, o sumo de toranja “impede a metabolização da sertralina” e pode causar “tonturas”, “má disposição” e “um ritmo cardíaco acelerado”. É verdade que a eficácia e segurança dos antidepressivos podem ser afetadas pelo consumo de toranja?

É verdade que a toranja pode interferir com a eficácia e segurança de antidepressivos?

Em declarações ao Viral, Maria da Graça Campos, coordenadora do Observatório de Interações Planta-Medicamento (OIPM) da Faculdade de Farmácia da Universidade de Coimbra (FFUC), adianta que, de facto, a toranja, sobretudo o sumo desta fruta, “pode interferir com a ação de alguns antidepressivos” (ver também aqui e aqui).

Aliás, tal como a coordenadora do OIPM já tinha esclarecido anteriormente ao Viral, a toranja pode interferir com a ação de vários medicamentos. Dependendo do fármaco em questão, o consumo do sumo desta fruta pode impedir a metabolização ou cortar o efeito de um medicamento.

Isto porque “a toranja contém furanocomarinas”, substâncias “que vão inibir a função de uma enzima metabólica chamada citocromo P450 3A4” (CYP3A4).

Nem todos os antidepressivos são metabolizados pela CYP3A4, mas a sertralina, por exemplo, precisa desta enzima.

Tal como se explica num texto do Serviço Nacional de Saúde britânico (NHS, na sigla inglesa), “a sertralina faz parte de um grupo de antidepressivos chamados inibidores seletivos da recaptação da serotonina” (SSRIs). 

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Estes antidepressivos aumentam os níveis de serotonina (um neurotransmissor que ajuda a regular o humor) no cérebro.

Uma vez que furocomarinas da toranja inibem a enzima CYP3A4 e a sertralina precisa desta enzima para ser metabolizada, comer toranja enquanto se toma este antidepressivo pode “impedir a metabolização do medicamento, em tempo útil”, explica Maria da Graça Campos.

Neste caso, a toranja pode “inibir o funcionamento do medicamento e aumentar a sua concentração no organismo, tornando-o tóxico”, prossegue a investigadora.

Noutro texto do NHS escreve-se um alerta semelhante: “O sumo de toranja pode aumentar a quantidade de sertralina no seu corpo e aumentar o risco de efeitos secundários”.

Os níveis excessivos de sertralina no organismo estão associados, sobretudo, a “náuseas, tremores, sensação de sono, tonturas, ritmo cardíaco acelerado” e “convulsões” (ver aqui).

Além disso, realça Maria da Graça Campos, “um dos riscos graves da toxicidade dos antidepressivos é a síndrome serotoninérgica”, que se traduz por “episódios de mania” causados pelo “aumento excessivo dos níveis de serotonina”.

A coordenadora do OIPM ainda salienta ainda que este efeito não é exclusivo da toranja. Existem outros alimentos e plantas “que também têm muitas furanocomarinas, como, por exemplo, as limas e a Angelica sinensis (uma planta da Ásia)”.

Os potenciais efeitos de toxicidade associados ao consumo de toranja enquanto se toma determinados antidepressivos vão depender da “quantidade” e da “continuidade” da ingestão da fruta.

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Por outras palavras, “comer uma toranja” pontualmente não é o mesmo que beber um sumo com “três ou quatro toranjas” todos os dias.

Enquanto comer uma toranja, por si só, pode não interferir com a ação dos medicamentos, ingerir sumo de toranja com frequência pode, de facto, comprometer a eficácia e segurança de vários fármacos, inclusive antidepressivos

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Na perspetiva de Maria da Graça Campos, “esta ponderação em relação às quantidades e ao consumo contínuo” de qualquer alimento ou planta “deve ser sempre feita quando estamos a tomar qualquer tipo de medicação”.

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8 Fev 2025 - 09:45

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