Testosterona é um “guardião” do sistema cardiovascular? Cardiologista esclarece
Nas redes sociais, circula um vídeo em que se diz que a testosterona é um “guardião” do sistema cardiovascular. Refere-se que, “de um modo geral”, a testosterona e a saúde cardiovascular são uma “boa combinação”.
O autor realça que a testosterona é um “cardiovascular protetor”, apesar de as pessoas terem “muito medo” que cause “enfartes”.
Na mesma publicação, alega-se que uma terapia de otimização de testosterona, com acompanhamento, “diminui o risco de enfarte, morte por doença cardiovascular, derrame ou trombose”.
No mesmo sentido, acrescenta-se que homens com “níveis de testosterona otimizados” têm menos doenças cardiovasculares do que “homens com testosterona baixa”.
O autor do vídeo recusa ainda que a testosterona cause problemas na próstata. Pelo contrário, refere que tem sido utilizada testosterona injetável no tratamento do cancro da próstata. Mas serão estas alegações verdadeiras?
É verdade que a testosterona protege o sistema cardiovascular?
José Pedro Sousa, médico cardiologista, assistente hospitalar no IPO do Porto e coordenador no grupo Luz Saúde, refere que é “erróneo” dizer que a testosterona é um “guardião” do sistema cardiovascular e que a terapia de otimização diminui o risco de enfarte.
O cardiologista começa por explicar que a testosterona é a “principal hormona sexual masculina”. Nesse sentido, a “principal função” é “promover o desenvolvimento” do sistema reprodutor masculino e dos “chamados caracteres sexuais secundários masculinos”, como os pelos facial e corporal e as massas óssea e muscular.
Tem uma “natureza química esteróide” e é secretada pelo testículo masculino, completa. Em “bastante menor grau”, é também secretada pelo ovário feminino.
De seguida, José Pedro Sousa diz que é um “dado adquirido” que os homens com baixa produção ou secreção de testosterona “padecem de risco elevado de morbimortalidade”, incluindo a de natureza cardiovascular. Em apenas nestes casos é “recomendado” suplementação terapêutica com testosterona.
Neste sentido, uma revisão sistemática publicada na Journal of The American Heart Association indica que baixos níveis endógenos de testosterona podem estar associados a taxas de mortalidade mais altas. Porém, conclui-se que são necessários mais ensaios para esclarecer o papel da testosterona em pessoas com doenças cardíacas.
Contudo, o médico cardiologista entrevistado pelo Viral explica que a utilização da testosterona enquanto fármaco em homens com níveis considerados normais ou “apenas no limiar inferior da normalidade” tem “despertado preocupações” em relação à segurança cardiovascular. Há, inclusive, relatos de ocorrência de eventos cardíacos e cerebrais agudos, indica.
Aliás, a terapia de otimização de testosterona pode ser perigosa, acrescenta o especialista em cardiologia, sobretudo se a administração (exógena) ocorrer em pessoas que não apresentem qualquer indicação clínica ou em doses excessivas consideradas tóxicas.
O endocrinologista Francisco Sousa Santos refere, num artigo publicado no site da Sociedade Portuguesa de Endocrinologia, Diabetes e Metabolismo (SPEDM), que, apesar de os dados disponíveis “negarem” um aumento de “eventos major” a nível cardiovascular associado à toma de testosterona, verificou-se um “ligeiro” aumento da frequência de tromboembolismos pulmonares e de arritmias não-fatais.
No mesmo sentido, um artigo publicado no European Heart Journal, em 2023, diz que a segurança e eficácia da terapia com testosterona para o tratamento do hipogonadismo (diminuição da produção de testosterona) é controversa. Segundo os autores, faltam dados conclusivos de curto e longo prazo.
Ainda sobre a terapia de reposição de testosterona, uma tese de mestrado da Faculdade de Farmácia da Universidade de Coimbra conclui que, apesar dos potenciais benefícios, há resultados “ambíguos” e faltam “estudos concordantes e que convirjam para as mesmas conclusões em relação a possíveis benefícios e riscos”. Por isso, diz o autor, é necessário a realização de “estudos controlados com duração e tamanho da amostra adequados”.
De acordo com José Pedro Sousa, os efeitos adversos mais comuns e “considerados não graves” desta terapia são: acne, perda de cabelo (calvice) e aumento benigno da próstata. Em casos mais extremos, pode provocar, principalmente, enfarte agudo do miocárdio, acidente vascular cerebral e cancro da próstata.
Uma revisão de 2021 diz que são necessários mais estudos sobre o efeito da testosterona na saúde cardiovascular e a segurança das terapias associadas. Até lá, é importante que os pacientes sejam informados sobre o possível risco cardiovascular associado às terapias com testosterona, conclui-se.
Também numa publicação na The Lancet Healthy Longevity, em que foram analisados vários estudos, é referido que é preciso “muita cautela” no uso da terapia de testosterona e que são precisas mais investigações antes do uso generalizado.
Testosterona tem benefícios no tratamento do cancro da próstata?
Questionado sobre se a testosterona pode ter benefícios para o tratamento do cancro da próstata, o médico consultado pelo Viral desmente essa teoria. Aliás, em geral, o cancro da próstata “vê o seu desenvolvimento potenciado pela testosterona”, uma vez que a próstata é “parte integrante do sistema reprodutor masculino”.
Em declarações ao Viral, o cardiologista sinaliza que a administração de moléculas para uma “redução expressiva” dos níveis corporais de testosterona constitui um “verdadeiro pilar” da abordagem do cancro da próstata. A sua eficácia está “plenamente comprovada” por evidência científica “da mais elevada qualidade”.