PUB

Surto em colégio de Lisboa. O que explica o aumento das intoxicações alimentares no verão (e como preveni-las)

20 Ago 2026 - 08:15

Surto em colégio de Lisboa. O que explica o aumento das intoxicações alimentares no verão (e como preveni-las)

Pelo menos 32 pessoas, incluindo 26 crianças, foram transportadas para os hospitais de Santa Maria, Dona Estefânia e Fernando da Fonseca, na sequência de uma intoxicação alimentar no colégio dos Salesianos de Lisboa. Embora possam ocorrer em qualquer altura do ano, as intoxicações alimentares são mais frequentes durante os meses de verão. O que explica este aumento e como pode ser prevenido?

Porque é que as intoxicações alimentares são mais frequentes no verão?

A intoxicação alimentar é uma infeção ou irritação do trato digestivo que se transmite através de alimentos ou bebidas contaminadas com vírus, bactérias, parasitas ou, em casos raros, substâncias químicas nocivas (ver aqui, aqui e aqui).

PUB

Os sintomas mais comuns são náuseas, vómitos, diarreia, dores de barriga, febre e mal-estar geral. Por norma, surgem “algumas horas ou alguns dias após a ingestão dos alimentos que causaram a infeção”, apesar de, por vezes, apenas surgirem “algumas semanas depois”, explica-se num texto informativo do Serviço Nacional de Saúde britânico (NHS, na sigla inglesa).

Tal como esclarecia a professora na área da segurança alimentar Isabel Ratão, em declarações anteriores ao Viral, “no verão, as temperaturas são mais elevadas, pelo que, se não tivermos o cuidado de manter os alimentos devidamente refrigerados, os microrganismos vão-se desenvolver mais rapidamente, com a correspondente produção de toxinas” (ver também aqui, aqui e aqui).

O risco de doenças de origem alimentar aumenta durante o verão por duas razões principais. Em primeiro lugar, os tipos de bactérias que causam doenças de origem alimentar, como a salmonela e a E. coli, multiplicam-se rapidamente em condições quentes e húmidas, típicas do verão. 

Além disso, no verão pratica-se mais atividades ao ar livre. Nesses contextos, nem sempre se tem fácil acesso a refrigeração ou a instalações para lavar os alimentos quando se cozinha ou se come ao ar livre, ou durante acampamentos.

Por isso, Isabel Ratão considerava que, além de todos os cuidados que devemos ter com os alimentos durante o ano inteiro, na época mais quente devemos ter “especial atenção às condições de refrigeração”.

Como prevenir intoxicações alimentares?

A prevenção das intoxicações alimentares passa sobretudo pela adoção de medidas básicas de higiene e correto manuseamento, confeção e armazenamento dos alimentos.

PUB

Segundo um texto dos Centros de Controlo e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC, na sigla inglesa), “lavar frequentemente as mãos e as superfícies” é uma medida preventiva essencial.

Também, os alimentos crus e os alimentos prontos a comer devem ser armazenados e preparados em separado, “para evitar a contaminação cruzada”. Por exemplo, “a carne crua, o frango e outras aves, os mariscos e os ovos podem transmitir germes aos alimentos prontos a consumir, a menos que os mantenha separados”, refere-se no mesmo texto.

Na preparação, recomenda-se utilizar “uma tábua de cortar ou prato para carne crua, aves e marisco e uma tábua de cortar ou prato separado para produtos hortícolas, pão e outros alimentos que não vão ser cozinhados”.

Outra medida importante é garantir que os alimentos “estão cozinhados de forma segura quando a temperatura interna atinge um nível suficientemente elevado para eliminar os germes que podem causar doenças”.

De modo geral, a comida é segura para consumo “quando atinge a temperatura de 70 graus no centro”, sublinhava a investigadora Paula Teixeira, noutro artigo do Viral.

Segundo um documento do Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge (INSA), “é especialmente importante certificar-se de que cozinhou completamente aves, carne de porco e produtos feitos de carne picada, como hambúrgueres e salsichas, verificando a mudança de cor e textura no interior dos alimentos”. 

No mesmo sentido, sempre que se reaquece alimentos, não basta aquecer a uma temperatura apetecível. É recomendado ferver a comida, para que “possa ser destruído qualquer microrganismo que tenha tido a possibilidade de se desenvolver durante o arrefecimento ou durante o armazenamento”. As toxinas são os únicos contaminantes que as temperaturas elevadas não conseguem destruir.

PUB

Após a refeição é importante guardar rapidamente as sobras dos alimentos no frigorífico, de modo que “se alcance uma temperatura igual ou inferior a 10º C em menos de duas horas, para evitar que o número de microrganismos aumente significativamente”, esclarece-se no documento do INSA.

De acordo com a informação disponibilizada pela ASAE (Autoridade de Segurança Alimentar e Económica), “um controlo inadequado de temperatura de alimentos de elevado risco, é a maior causa de intoxicação alimentar”, porque “a temperatura exerce uma influência importante no crescimento e velocidade de multiplicação de microrganismos nos alimentos”. Assim, “os alimentos frescos/refrigerados devem ser conservados, no frigorífico, a temperaturas entre os 0 a 5ºC”.

No momento de descongelar alimentos, deve fazê-lo “de forma segura no frigorífico, em água fria ou no micro-ondas”, sublinha-se no texto dos CDC. Nunca se deve descongelar “alimentos na bancada, pois as bactérias multiplicam-se rapidamente nas partes dos alimentos que atingem a temperatura ambiente”.

Qual o tratamento?

“A intoxicação alimentar é, na maioria das vezes, aguda, o que significa que surge de forma repentina e tem uma duração curta”, lê-se num texto do National Institute of Diabetes and Digestive and Kidney Diseases (NIDDK). 

A maioria dos casos de intoxicação alimentar “dura menos de uma semana e a maioria das pessoas recupera por si própria, sem necessidade de tratamento”. 

Para aliviar os sintomas e evitar complicações, podem ser tomadas algumas medidas, tais como repousar, “aumentar a ingestão de líquidos, como água, chá e caldos, para evitar o desenvolvimento de desidratação devido aos vómitos e/ou diarreia” e haver alguma “alimentação em diferentes porções, com refeições de pequeno volume, pobre em fibras e em laticínios”, refere-se num texto publicado no balcão digital do Serviço Nacional de Saúde (SNS 24).

PUB

Se necessário, pode-se tomar paracetamol “em caso de febre ou dor” ou até medicamentos antieméticos “em caso de náuseas e vómitos”.

Regra geral, a terapêutica antidiarreica está contraindicada nestes casos, “pois pode prolongar o curso da doença e aumentar o risco de complicações”, por isso “só deve ser tomada após prescrição médica e em situações muito particulares”.

Em situações mais graves “pode haver necessidade de hospitalização ou ser avaliado por um médico a fim de decidir o melhor tratamento (pode existir necessidade de fazer antibiótico)”, acrescenta-se no mesmo texto.

Categorias:

Segurança Alimentar

20 Ago 2026 - 08:15

Partilhar:

PUB