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Dos chás aos suplementos milagrosos: Os perigos das “curas naturais” para o cancro

18 Jul 2025 - 08:45

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Dos chás aos suplementos milagrosos: Os perigos das “curas naturais” para o cancro

Vários grupos no Facebook com milhares de membros prometem “curas naturais” para o cancro. Quem lá está vai partilhando as receitas de chás, suplementos e ervas, sempre apresentadas como um tratamento infalível para a doença oncológica.

Nos mesmos fóruns, diaboliza-se tudo o que é tratamento medicamentoso porque só o “natural” é tido como “seguro”. Mas a evidência científica mostra que essas “mezinhas” não só não curam o cancro, como, em alguns casos, podem mesmo prejudicar o doente ao interferir com as terapias convencionais, como a quimioterapia, ou adiar o início dos tratamentos.

Quais os efeitos diretos da utilização de produtos naturais?

Para os doentes oncológicos, a utilização de produtos naturais durante o tratamento do cancro é particularmente perigosa já que, de forma geral, “estão polimedicados [tomam vários medicamentos]”, explicou, em 2023, a oncologista Ana João Pissarra em declarações ao Viral. Os produtos naturais podem interagir com os fármacos oncológicos, prejudicando a sua eficácia e aumentando a intensidade dos efeitos secundários.

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Um dos casos mais estudados é o da erva de São João, frequentemente usada como “antidepressivo natural”. Esta planta estimula enzimas no fígado que “aceleram” a eliminação de medicamentos, fazendo com que deixem de atingir os níveis eficazes no organismo. 

Um ensaio clínico de 2002, que analisou doentes oncológicos, mostrou que a erva reduzia em cerca de 50% a concentração no sangue de SN-38, o metabolito ativo do irinotecano, um medicamento usado no tratamento de cancro gastrointestinal

Como resultado, a eficácia acabava por ser comprometida, mesmo que o suplemento tivesse sido interrompido semanas antes — o estudo dava conta que o efeito da erva persistia até três semanas após a suspensão do suplemento. O Cancer Research UK aponta vários medicamentos para além do irinotecano que podem reagir com esta erva, alguns utilizados noutros tratamentos oncológicos.

Outro caso é o do chá verde, cuja substância ativa EGCG (epigalocatequina galato) demonstrou, em vários estudos, neutralizar o efeito do bortezomibe, um medicamento usado no tratamento do mieloma múltiplo. Isto não significa que beber uma chávena de chá seja perigoso, mas a ingestão excessiva destas infusões ou o consumo de suplementos concentrados podem ter consequências nocivas para doentes oncológicos em fase de tratamento.

Além dos riscos associados aos compostos, estes produtos não são sujeitos a regulamentos semelhantes aos de medicamentos, não precisam de aprovação prévia por entidades como o Infarmed ou a Agência Europeia de Medicamentos, já que são classificados como suplementos alimentares

Estudos europeus detetaram variações significativas na composição entre marcas e lotes, e há registos de contaminação com metais pesados como chumbo, mercúrio e arsénio, especialmente em suplementos à base de algas. O sistema europeu de alertas alimentares (RASFF) tem sinalizado repetidamente suplementos adulterados com fármacos não declarados, o que representa um risco sério para a saúde, sobretudo de doentes oncológicos em tratamento.

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E os efeitos indiretos?

Além das interações com medicamentos, há o risco de doentes abandonarem ou adiarem tratamentos médicos na esperança de encontrar uma cura natural.

Um estudo publicado na JAMA Oncology em 2018 acompanhou 1290 pacientes com cancro da mama, próstata, pulmão e colorretal. Os investigadores concluíram que os que optaram exclusivamente por terapias alternativas — rejeitando cirurgia, quimioterapia ou radioterapia — tiveram uma taxa de mortalidade significativamente superior. No caso do cancro da mama, a mortalidade foi quase seis vezes maior do que entre os doentes que seguiram os tratamentos convencionais. 

E mesmo quando o tratamento médico não é rejeitado por completo, perder alguns meses pode significar passar de uma fase inicial para uma fase avançada da doença, com menos opções e menor probabilidade de sucesso do tratamento. A falsa sensação de segurança transmitida por suplementos ou terapias alternativas pode ser perigosa para o doente oncológico.

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Este artigo foi desenvolvido no âmbito do “Vital”, um projeto editorial do Viral Check e do Polígrafo que conta com o apoio da Fundação Champalimaud.

A Fundação Champalimaud não é de modo algum responsável pelos dados, informações ou pontos de vista expressos no contexto do projeto, nem está por eles vinculado, cabendo a responsabilidade dos mesmos, nos termos do direito aplicável, unicamente aos autores, às pessoas entrevistadas, aos editores ou aos difusores da iniciativa.

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Cancro | Produtos naturais | Vital

18 Jul 2025 - 08:45

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