Sumos em pó: “Um veneno” para a saúde ou uma boa forma de hidratação?
Manter níveis de hidratação adequados é fundamental para a saúde do organismo. Mas para quem não gosta de beber água pode ser difícil cumprir esta meta. Nesse contexto, criam-se, muitas vezes, estratégias para garantir o aporte suficiente de água através do consumo de chás, infusões, fruta e sopa, por exemplo.
No mesmo sentido, há quem recorra aos concentrados, como os sumos em pó, por serem fáceis de preparar e por terem um sabor agradável. No entanto, em alguns vídeos partilhados no TikTok, desaconselha-se totalmente o consumo destes sumos.
Segundo a autora de um dos posts, estes produtos são considerados “veneno em pó”, uma vez que são compostos, sobretudo, por “açúcar”, “aromatizante”, “edulcorante” e “conservante”. Mas será que os sumos em pó são uma boa alternativa para manter uma hidratação adequada? Ou são considerados “um veneno” para a saúde?
Os sumos em pó são “um veneno” para a saúde?
Em declarações ao Viral, Cláudia Marques, nutricionista, investigadora e professora da NOVA Medical School (NMS), considera “exagerado” afirmar que os sumos concentrados em pó são um veneno para a saúde.
“Se bebermos um copo de sumo em pó, isso não nos vai matar, mas é certo que este tipo de produtos contém substâncias que, em altas doses, podem ser prejudiciais para o organismo”, explica.
Aliás, salienta Cláudia Marques, “nenhum alimento pode ser considerado ‘um veneno’, por si só, porque a dose faz o veneno”, ou seja, consumir determinados alimentos em excesso é que pode ser prejudicial para a saúde.
Apesar de os sumos em pó não serem considerados um veneno, na perspetiva da nutricionista, deve-se ter em conta que “estes produtos não são interessantes do ponto de vista nutricional”, por isso, não devem fazer parte da alimentação diária.
Além de “o principal ingrediente da maioria dos sumos em pó ser o açúcar” estes produtos “podem conter outros aditivos alimentares, como aromas (para dar cheiro/sabor), corantes (para dar cor) e edulcorantes (adoçantes)”, acrescenta.
Alguns destes produtos “apresentam fruta em pó na lista de ingredientes, mas é numa quantidade muito pequena, largamente ultrapassada pela quantidade de açúcar”, avisa.
Por outro lado, os aditivos alimentares, como os que estão presentes em abundância nestes sumos em pó, “não são essenciais” à saúde.
O objetivo destas substâncias é “manter ou melhorar a segurança” dos produtos, bem como a sua “frescura, sabor, textura ou aspeto”, esclarece Cláudia Marques.
Todos os aditivos presentes no mercado “são avaliados pela EFSA (Autoridade Europeia para a Segurança Alimentar), para garantir que são seguros para serem consumidos” (pode ver aqui a lista dos aditivos aprovados).
Importa salientar que existem níveis de consumo seguros associados a estas substâncias, ou seja, “se o consumo de aditivos for superior àquele que é considerado seguro, ou se a exposição a este tipo de substâncias, mesmo não excedendo as doses aceitáveis, for crónica em vez de esporádica, isso pode trazer efeitos negativos para a saúde”, alerta a nutricionista.
Além disso, como estes produtos são ricos em açúcar adicionado, devem ser consumidos esporadicamente e com moderação.
Nesse contexto, a EFSA “recomenda que o consumo de açúcar livre (encontrado nestes sumos em pó) seja tão baixo quanto possível e, por isso, estes produtos que contêm grandes quantidades de açúcar devem ser evitados”, explica a professora da NMS.
A EFSA justifica esta recomendação ao afirmar, num texto, que “o consumo de açúcar é uma causa conhecida de cáries dentárias” e há provas que associam “o consumo de bebidas açucaradas, sumos e néctares a várias doenças metabólicas crónicas, incluindo a obesidade, a doença hepática gorda não alcoólica e a diabetes tipo 2”.
Quem deve ter particular cuidado com o consumo de sumos em pó?
Segundo Cláudia Marques, existem pessoas que devem ter especial atenção na ingestão de sumos concentrados em pó.
Por exemplo, refere, pessoas com um risco acrescido de desenvolver “obesidade, diabetes e doenças cardiovasculares” não devem, idealmente, incluir estes produtos na alimentação.
O mesmo se aplica a pessoas que já têm este tipo de condição. “Em pessoas com diabetes, é especialmente importante evitar estes sumos em pó, porque apresentam elevadas quantidades de açúcar e provocam um rápido aumento da concentração de açúcar no sangue (glicemia)”, sustenta.
Existem alternativas mais interessantes
Cláudia Marques refere que alguns sumos concentrados em pó “podem ter vitaminas adicionadas, como a vitamina C”. Contudo, do ponto de vista da nutricionista, “isto não deve ser visto como uma vantagem” nem como “uma razão para consumir sumo em pó”.
Por um lado, “a dose diária recomendada de vitamina C é facilmente atingida quando consumimos 2 kiwis ou 1 laranja média”, exemplifica.
Além disso, mesmo que estes produtos tenham “um alto teor em vitamina C, também contêm um alto teor de açúcar e, em comparação com fruta em natureza, perdem todos os outros benefícios: são baixos em fibra e têm grandes quantidades de açúcar livre, que é rapidamente absorvido”, defende.
Por isso, devem ser consumidos de forma esporádica e “não devem fazer parte da lista de compras habitual”. Para Cláudia Marques, “a bebida a privilegiar deverá ser sempre a água (que pode ser aromatizada)”.
Esta ideia também é defendida num texto do balcão digital do Serviço Nacional de Saúde (SNS 24). Ainda assim, aponta o SNS, “não é apenas com a ingestão de água que podemos garantir uma boa hidratação”.
Há outras fontes ricas em água “que podem ser consumidas, de preferência como complemento, e ajudam a manter-se hidratado”, acrescenta-se.
Cláudia Marques dá alguns exemplos de bebidas alternativas mais interessantes do que os sumos em pó, que ajudam a “garantir uma ingestão adequada de água”.
“Chás, infusões ou tisanas sem açúcar e/ou adoçantes e águas aromatizadas com fruta (laranja, limão, maçã, etc) ou especiarias, como a canela e ervas aromáticas como a hortelã”, são boas opções.
Importa ainda realçar que “a água está igualmente presente nos alimentos, em particular na fruta e nos hortícolas”. A nutricionista refere a melancia, o melão, a ameixa, a framboesa, a alface, o pepino, o tomate e o curgete como alimentos ricos em água.
De acordo com a informação disponível num ebook da Associação Portuguesa de Nutrição (APN), “o teor de água na fruta varia entre 75% e 95%, sendo um dos seus principais constituintes”.
Noutro ebook da APN, destaca-se também o alto teor de água dos hortícolas. “A água é um dos principais constituintes dos hortícolas e o seu teor varia entre 85g e 95g por 100g de produto”, lê-se.
No texto do SNS assinala-se ainda a sopa e o leite como boas fontes complementares de água.
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