PUB

Dia Mundial da Saúde Mental: 7 sinais de que pode estar perto de um burnout

10 Out 2024 - 10:05

Dia Mundial da Saúde Mental: 7 sinais de que pode estar perto de um burnout

A Organização Mundial da Saúde (OMS) define burnout como uma síndrome “resultante do stress crónico no local de trabalho que não foi gerido com sucesso”. O burnout afeta mais de 40 milhões de trabalhadores da União Europeia e é considerado o segundo problema de saúde relacionado com o trabalho mais reportado na Europa (ver aqui). Ainda assim, há pessoas que não se apercebem que podem estar perto de um burnout. Quais os sinais de alerta? O que fazer para evitar este cenário?

A 10 de outubro assinala-se o Dia Mundial da Saúde Mental. Este ano, o tema definido pela OMS é a “saúde mental no trabalho”. Em esclarecimentos ao Viral, uma psiquiatra e um psicólogo expõem sete sinais que indicam que pode estar perto de um burnout e sugerem um conjunto de estratégias para evitar este cenário.

1) Perda de empatia

Segundo Jaime Ferreira da Silva, presidente do Conselho de Especialidade de Psicologia do Trabalho, Social e das Organizações da Ordem dos Psicólogos Portugueses (OPP), um dos sinais que pode indicar que a pessoa está em “pré-burnout” é o “desgaste da empatia”.

Isto é, “há a diminuição da compaixão pelo outro e a pessoa fica mais virada sobre si própria, numa estratégia não necessariamente consciente de autodefesa”, explica. 

Aliás, refere Maria Antónia Frasquilho, psiquiatra, diretora clínica da AlterStatus e autora do livro “Burnout – Guia completo de prevenção e tratamento”, em contexto de burnout, há mesmo uma “despersonalização ou cinismo”. 

A pessoa “passa a ver a sua empresa ou os seus clientes como uma ‘coisa’ com a qual tem de lidar”, ou seja, “há uma perda total de empatia por aquilo que representam tanto as pessoas como os processos ligados ao trabalho”, esclarece.

PUB

2) Dificuldade em desligar do trabalho

Na perspetiva de Jaime Ferreira da Silva, “o sentimento de realização profissional também sofre com um quadro de pré-burnout”. 

A pessoa “tenderá a avaliar de forma mais negativa o trabalho que faz e o contexto profissional em que está”, expõe. Assim, por norma, “a motivação, o envolvimento e a dedicação ao trabalho também se fragilizam”.

Algumas pessoas, nesta situação, adotam “um mecanismo compensatório que normalmente desgasta e não promove a mudança”, prossegue.

No fundo, refere, “a pessoa coloca toda a sua energia no trabalho”, mas, como “não tem formas compensatórias e complementares de se reenergizar, cria-se um círculo vicioso”.

O problema é que as pessoas que estão a passar por um pré-burnout “nem sempre estão atentas” e “confundem isso com excelência no trabalho”, aponta Maria Antónia Frasquilho.

Têm “uma dedicação intensiva e uma disponibilidade permanente para realizar as tarefas sem conseguirem colocar limites”, acrescenta.

3) Sintomas físicos recorrentes

Segundo os dois especialistas, quando uma pessoa está perto de um burnout, também começam a surgir sintomas físicos variados. Maria Antónia Frasquilho avança que “começam a surgir dores de cabeça e sensação de fadiga intensa e fora do normal que não é reparada com o descanso”,

Além disso, surgem “perturbações somáticas”, tais como, “palpitações, tensão alta, urgência e frequência urinária”, alterações intestinais, sensação de “nó na garganta, nervosismo e aceleramento”, acrescenta a médica.

4) Alterações no sono

Os hábitos de sono também se alteram de forma significativa, o que contribui para o mal-estar característico do burnout e até da fase pré-burnout. Na perspetiva de Maria Antónia Frasquilho, é comum a pessoa ter insónias, que se podem traduzir de várias formas.

PUB

A psiquiatra dá o exemplo de uma paciente que conseguia adormecer, mas “acordava de hora em hora ou a cada duas horas com pensamentos acerca do trabalho” e, inclusive, “mandava emails para o escritório quando acordava” durante a noite.

Para a médica, este é um dos exemplos “de não conseguir desligar do trabalho”, nem mesmo no momento em que supostamente devia estar a dormir.

5) Instabilidade emocional

Um dos sinais muito evidentes de que se está perto de um burnout “é a menor contenção emocional e pior gestão das emoções”, informa Jaime Ferreira da Silva. 

A pessoa “pode dar respostas bruscas com mais facilidade, mostrar mais irritação e lidar pior com a frustração”, exemplifica.

Isto numa fase inicial. Pode chegar a um ponto de “exaustão emocional”, em que “a pessoa sente-se esvaziada do ponto de vista da sua capacidade de sentir emoções”. É o que se chama, de forma comum, de “esgotamento”, salienta Maria Antónia Frasquilho.

6) Perda de eficiência cognitiva

Jaime Ferreira da Silva assinala a “perda de eficiência cognitiva” como um sinal da condição de burnout e pré-burnout.

De modo geral, a pessoa começa a sentir que “não consegue memorizar tão bem os assuntos, que decide pior ou que demora mais tempo a tomar decisões”, clarifica.

Também há a possibilidade de o doente “não se conseguir focar, não conseguir aprender e reabilitar memórias”, realça Maria Antónia Frasquilho.

7) Problemas nas relações interpessoais

Os sinais associados ao pré-burnout e ao burnout, por provocarem mal-estar geral, também acabam por impactar indiretamente as relações interpessoais.

“Todos nós, conscientemente, podemos tentar fazer uma separação entre a vida pessoal e a vida profissional”, mas a verdade é que “as fronteiras têm vasos comunicantes” e não é “por um pessoa pôr a chave na porta de casa que fica revitalizada”, explica Jaime Ferreira da Silva.

PUB

Esta síndrome tem, de facto, “impacto na deterioração de relações sociais, familiares e profissionais e também no menor bem-estar e satisfação com a vida em geral”, defende.

O que fazer para evitar um cenário de burnout?

Adotar estratégias de autocuidado

Do ponto de vista de Jaime Ferreira da Silva, é fundamental “a tomada de consciência de que cada um de nós deverá ser responsável, em primeira instância, por cuidar do seu bem-estar” e adotar “estratégias de autocuidado”.

Nesse sentido, o psicólogo recomenda “que as pessoas tenham momentos para estar consigo, para se conectar consigo”.

“Podem ser coisas tão simples como o banho da manhã, a caminhada até ao local de trabalho, ou pequenos momentos antes do trabalho, em que a pessoa possa fazer uma espécie de self-check”, ou seja, “uma avaliação de como sente o seu corpo e a sua mente”.

Em termos práticos, Jaime Ferreira da Silva convida “as pessoas a usarem uma escala subjetiva de avaliação do bem-estar, com 20 pontos, que começa no -10 (o máximo do mal-estar) e vai até ao +10 (o máximo do bem-estar)”.

Ao fazer essa autoavaliação, “se a pessoa não ficar contente com a pontuação que está a atribuir, deve usar a sua criatividade e pensar como poderá subir um ponto ou dois na escala”, sugere. 

Para mais, “a prática de atividade física regular” também é essencial para o bem-estar geral. 

“Não temos de ser clientes habituais de ginásio”, aponta o psicólogo. A caminhada diária, exemplifica, “é uma boa forma de a pessoa dissipar as tensões e mobilizar o corpo”.

No mesmo sentido, “cuidar da higiene do sono” e ter “uma alimentação cuidada, sem exageros, e uma boa prática de hidratação facilitam a manutenção da saúde física, que naturalmente é o substrato para a saúde psicológica”, salienta Jaime Ferreira da Silva.

PUB

Momentos de convívio” e simples “saídas à rua”, sobretudo para quem faz teletrabalho, também são fundamentais para “a ativação sensorial de todos os sentidos, importante para a manutenção da saúde”, refere.

Na perspetiva do especialista, também se deve “trazer sempre uma dimensão de prazer a cada dia”, que se pode traduzir “num pastel de nata com o café, na gargalhada com o colega, ver uma série, fazer jogging”, o que for mais agradável para a pessoa.

Não esquecer que fazer pausas durante o trabalho e desligar do trabalho no momento em que se vai para casa também é muito importante. 

“O propósito do direito a desligar é precisamente permitir que as redes neuronais utilizadas no trabalho não sejam ativadas, e sejam ativadas outras, porque o cérebro saudável também necessita de complementaridade no seu tipo de ativação”, explica.

Para Maria Antónia Frasquilho, é importante sensibilizar as pessoas para o facto de que “estar mais tempo no trabalho não equivale a melhor imagem, nem a melhor produtividade”.

A importância do papel das empresas

Os dois especialistas são da opinião de que as empresas e as lideranças têm um papel muito importante na prevenção do burnout. Devem “manter uma monitorização do bem-estar e das práticas de autocuidado das suas equipas e naturalmente depois das pessoas que na organização têm a responsabilidade pela gestão de pessoas”, defende Jaime Ferreira da Silva.

Nesse sentido, salienta Maria Antónia Frasquilho, “há regulamentos para a prevenção dos riscos psicossociais que têm de ser aplicados nos ambientes de trabalho” (ver aqui).

Importa salientar que “esta obrigatoriedade engloba também as pequenas empresas e o profissional em nome individual”, destaca a médica. 

PUB

“As pausas após, por exemplo, um certo número de horas de trabalho está definido que devem existir”, tal como “o modo como os turnos devem ser organizados”, exemplifica.

Também é importante que os trabalhadores sejam “informados sobre a importância das suas tarefas”, tenham consciência “do propósito do seu trabalho” e “tenham alguma autonomia nas tarefas que realizam”, prossegue a psiquiatra.

Por outro lado, “devem evitar-se todos os conflitos evitáveis” e a empresa deve proporcionar “um bom ambiente físico de trabalho”.

Por exemplo, “trabalhos em locais remotos, onde a pessoa não interage com ninguém são uma ameaça à saúde mental”.

PUB

Além disso, tem de haver “organização” no trabalho. Do ponto de vista de Maria Antónia Frasquilho, a “desorganização está muito presente nos ambientes de trabalho hoje em dia”. 

Não há equipamentos, não há pessoas suficientes, estamos todos a trabalhar em cima do joelho” e isso também põe em causa a saúde do trabalhador.

Saber quando procurar ajuda

“Muitas destas situações [de pré-burnout] têm remissão espontânea, ou seja, a pessoa percebe que há um desequilíbrio e consegue corrigi-lo”, adianta Jaime Ferreira da Silva.

No entanto, se a pessoa “perceber que, ao fim de quatro a seis semanas, a situação não se altera e tendencialmente está a agravar-se, deve pedir ajuda”, apostando sempre, em primeiro lugar, “na ótica da prevenção e não da remediação”.

Por vezes, “as outras pessoas apercebem-se primeiro e alertam”, refere Maria Antónia Frasquilho. Nesse caso, é importante que as pessoas em risco de burnout “estejam atentas ao que dizem as pessoas à sua volta e não receiem pedir ajuda especializada”.

10 Out 2024 - 10:05

Partilhar:

PUB