Pessoas com sangue tipo A correm maior risco de ter uma trombose? Médico explica
Num vídeo partilhado no TikTok, alega-se que “o tipo sanguíneo A é o tipo que, de acordo com estudos, tem maior probabilidade de desenvolver trombose, se comparado aos outros”. Mas será mesmo assim? As pessoas com sangue tipo A correm um maior risco de ter uma trombose?
É verdade que as pessoas com tipo sanguíneo A têm um maior risco de ter uma trombose?
Segundo José Meireles, coordenador adjunto do Núcleo de Estudos de Doença Vascular Pulmonar da Sociedade Portuguesa de Medicina Interna (SPMI), “não é bem assim”. Em declarações ao Viral, o médico explica que a evidência científica sugere apenas que “os tipos de sangue não O têm maior risco de doenças trombóticas”, sobretudo “trombose venosa” (ver também aqui).
Com grupos “não O”, os estudos referem-se aos tipos sanguíneos A, AB, B e “outras variações mais raras”, sublinha o especialista.
Uma trombose resulta da formação de um coágulo num vaso sanguíneo que pode bloquear o fluxo sanguíneo (ver aqui).
Em condições normais, explica José Meireles, “ao fazer-se uma ferida ou um corte, é suposto serem libertadas moléculas que formam um coágulo para conter a hemorragia”.
Fala-se em trombose “quando isso acontece de forma espontânea ou induzida por algum fator patológico”, esclarece. Pode ocorrer “em veias” ou “em artérias”.
Segundo o médico, “pensa-se que o aumento de risco de trombose nas pessoas com sangue não O tem que ver com a presença de moléculas pró-coagulantes nestes tipos de sangue, ou seja, moléculas que aumentam a capacidade de o sangue formar coágulos”. Por exemplo, num estudo “que compara um milhão e meio de dadores de sangue” explica-se essa questão.
Mesmo assim, torna-se difícil isolar o fator tipo de sangue quando se estuda tantas pessoas. “No meio desse milhão e meio haverá fumadores e obesos”, fatores que, por si só, representam um grande risco de desenvolver trombose.
Assim, na perspetiva do membro da SPMI, não há motivo para alarme. “Correlação não é causalidade, ou seja, ter um grupo A ou B não quer dizer que se vai ter trombose, mas sim que há uma correlação aumentada”, explica.
Tal como explica José Meireles, “existem imensos fatores que aumentam o risco de ter trombose”, sendo que alguns representam um risco fraco, outros um risco moderado e outros um risco forte. A questão do tipo de sangue insere-se na categoria dos fatores de risco fraco.
Além de o tipo de sangue representar um risco fraco, “não é modificável, é um fator de risco que existe e que não há nada a fazer” para alterá-lo.
Por isso, segundo o médico, em prática clínica, “não se presta muita atenção ao tipo de sangue”, mas sim a fatores modificáveis.
Quais os fatores de risco para uma trombose?
Existem vários fatores de risco para uma trombose (ver aqui, aqui e aqui). Alguns têm um impacto mais significativo do que outros, mas nem sempre é possível apurar as verdadeiras causas.
Por exemplo, alguns “fatores de risco forte”, ou seja, que “aumentam 10 vezes o risco”, são: “ter estado internado no hospital por uma doença aguda”; ter tido “insuficiência cardíaca ou enfarte nos 3 meses anteriores”; “ser submetido a uma cirurgia de prótese”; “ter fraturas dos ossos grandes dos membros inferiores, sobretudo, com imobilização”; “e já ter tido um episódio de trombose antes”.
Depois, fatores como “fazer uma transfusão de sangue”, “a quimioterapia”, “a fertilização in vitro” e “os contracetivos orais com estrogénio” aumentam “duas a dez vezes o risco de ter uma trombose”.
Além disso, fumar, ter diabetes e ter hipertensão também são fatores de risco para uma trombose, apesar de, individualmente, não terem tanto impacto.
Segundo um texto do Serviço Nacional de Saúde britânico (NHS, na sigla inglesa), ter “excesso de peso”, “mais de 60 anos”, “cancro” e “varizes” são fatores com algum impacto na probabilidade de ter uma trombose. No mesmo sentido, a gravidez e o pós-parto também têm um risco significativo neste contexto.
Apesar de se conhecer vários fatores de risco para o desenvolvimento de uma trombose, é difícil perceber, após o evento, que fatores tiveram, de facto, um impacto significativo na doença.