Salsicha aumenta em 18% o risco de cancro do intestino? O que dizem os especialistas
Num vídeo partilhado no Instagram sugere-se que “a salsicha é o pior alimento do mundo”, porque “aumenta em 18% o risco de cancro do intestino”. Mas será mesmo assim? O consumo de salsicha aumenta o risco de cancro colorretal? O que diz a evidência científica sobre o impacto das carnes processadas na doença oncológica?
É verdade que o consumo de salsicha aumenta em 18% o risco de cancro do intestino?
Em declarações ao Viral, a oncologista Ana João Pissarra começa por adiantar que “está muito bem estudado que determinados tipos de alimentos aumentam o risco de cancro”.
Sobretudo no que diz respeito ao cancro colorretal, sabe-se que “o consumo de carnes vermelhas e alimentos processados” (como as salsichas) tem um impacto significativo no desenvolvimento desta doença.
No entanto, na perspetiva de Diogo Libânio, investigador, professor na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP) e assistente hospitalar de gastrenterologia no IPO do Porto, “é preciso colocar os dados disponíveis em perspetiva”.
Segundo o médico, a alegação de que a salsicha aumenta em 18% o risco de cancro do intestino “tem por base uma monografia elaborada pela IARC (Agência Internacional para a Investigação no Cancro), uma entidade na esfera da Organização Mundial de Saúde”.
Este estudo, publicado em 2015, “avaliou dados de 400 estudos relacionados com carne processada e a evidência foi revista por uma equipa de 22 especialistas”, avança.
De facto, os investigadores verificaram “que o consumo diário de 50 gramas de carnes processadas se associa a um aumento do risco de cancro colorretal de 18%” (ver também aqui e aqui).
Por carne processada “entende-se carne transformada através de salga, cura, fermentação e fumeiro ou com aditivos ou conservantes”, como “salsichas, fiambre, presunto e carnes enlatadas”, explica Diogo Libânio.
Tal como explica Ana João Pissarra, a forma como a carne processada é transformada torna-a num alimento “que causa lesões a nível da mucosa do intestino, quando é digerida pelo nosso organismo”.
Como as células do intestino “ficam alteradas, há uma maior tendência de se desenvolver cancro colorretal”, acrescenta.
Assim sendo, refere Diogo Libânio, o que mostra a evidência é que há “uma associação, mas não uma relação causal direta”.
Isto porque, por exemplo, “as pessoas que consomem elevadas quantidades de carnes processadas podem também ter outros comportamentos alimentares (e de estilo de vida) menos saudáveis, que contribuem para o aumento do risco verificado”, justifica.
Por outras palavras, comer carnes processadas, por si só, não causa cancro colorretal, mas fazê-lo aumenta o risco de doença. Quanto mais comportamentos de risco (como fumar e consumir álcool de forma regular) se tiver, maior a probabilidade de se desenvolver cancro colorretal.
Por esse motivo é que, explicam os dois especialistas, a par do tabaco, por exemplo, as carnes processadas também foram consideradas carcinogénicas para humanos pelo IARC.
Com o objetivo de se promover a eliminação de comportamentos de risco, aponta Ana João Pissarra, “as organizações de saúde recomendam que não se consuma, de todo, carnes processadas” (ver aqui, aqui, aqui e aqui).
A oncologista sublinha, contudo, que “é preciso haver um pouco de bom senso e perceber que hoje em dia é muito difícil fazer isto”. Ainda assim, “evitar o consumo de carnes processadas” é um princípio de prudência.
Esta ideia é reforçada por Diogo Libânio que defende que “consumir salsichas ou outras carnes processadas de forma esporádica, provavelmente, não terá um impacto significativo no risco individual de cancro colorretal, mas devemos procurar minimizar ou mesmo evitar o seu consumo”.
Além do impacto no desenvolvimento de cancro colorretal, também está a ser estudada uma associação entre o consumo de carnes processadas e o cancro gástrico.
Contudo, segundo o médico, ainda não há evidência suficiente para afirmar que o consumo destes alimentos aumenta significativamente o risco de cancro do estômago.
Noutros campos da saúde, o gastroenterologista considera importante salientar que “as carnes processadas têm também elevado teor de sal e gorduras, podendo contribuir para hipertensão, dislipidemia, obesidade e doenças cardiovasculares”.
Qual a importância da alimentação na prevenção do cancro colorretal?
Ana João Pissarra destaca que o cancro do colorretal “é muito frequente e muito mortal, tanto a nível nacional como mundial”.
Apesar de ter sido sempre “uma patologia mais frequente em idades mais avançadas”, nos últimos anos, “tem-se verificado um aumento da incidência em pessoas mais jovens, com menos de 50 anos”, frisa.
Ao tentar-se entender o motivo deste aumento, percebeu-se que “a grande maioria destes cancros não são hereditários”, mas sim “esporádicos, ou seja, são muito condicionados pelos estilos de vida”, esclarece a médica.
Dentro do estilo de vida, existem “cinco parâmetros importantes” para o desenvolvimento de cancro colorretal: “o tabagismo, o exercício físico, o consumo de álcool, o excesso de peso e a alimentação”.
Segundo Ana João Pissarra, a evidência mostra que “quem consegue controlar estas cinco vertentes pode reduzir o risco de cancro colorretal em 50%” ou até mais.
Por esse motivo, ambos os especialistas consideram fundamental sensibilizar a população para o facto de a alimentação ser um fator de risco ou de proteção para o cancro colorretal (ver também aqui e aqui).
Nesse sentido, além de se aconselhar a restrição de carnes processadas, recomenda-se também: a ingestão de “fruta, legumes, cereais e laticínios” e, por outro lado, a limitação do “consumo de carnes vermelhas”, informa Diogo Libânio.
Quanto ao método de confeção, “parece ser benéfico evitar os métodos de cozinha a elevada temperatura ou de contacto direto com a chama”, acrescenta o médico.
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Este artigo foi desenvolvido no âmbito do European Media and Information Fund, uma iniciativa da Fundação Calouste Gulbenkian e do European University Institute.
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