Reutilizar caixas de gelado para conservar ou aquecer alimentos é seguro?
Abrir o congelador e encontrar uma caixa de gelado é o sonho de qualquer criança. Mas a alegria dura pouco quando se percebe que, no interior das embalagens, não há gelados, mas sim refeições congeladas.
Mas será seguro reutilizar as caixas de gelado para congelar ou conservar alimentos? E para aquecer no micro-ondas? Dois especialistas explicam ao Viral os riscos associados a esta prática.
É seguro usar caixas de gelado para conservar alimentos?
As caixas de gelados são produzidas com um objetivo: conservar o gelado de forma segura, em temperaturas de congelação (que rondam os -18ºC). Utilizar estas embalagens para diferentes finalidades ou submetê-las a temperaturas mais elevadas pode constituir um risco de segurança alimentar.
Em declarações ao Viral, Fátima Poças, professora da Escola Superior de Biotecnologia da Universidade Católica do Porto e diretora do Laboratório Nacional de Referência para Materiais & Embalagens (LNRME), explica estas caixas de gelados, dependendo do tipo de plástico, podem não ser aptas para reutilização e, por essa razão, “não é correto usá-las para outros fins” que não seja conservar o produto original.
No mesmo sentido, Vítor Alves, professor de Engenharia Alimentar no Instituto Superior de Agronomia da Universidade de Lisboa e investigador no Centro de Investigação LEAF, afirma que a reutilização destes invólucros pode constituir um “risco de segurança alimentar” devido à possibilidade de ocorrer migrações – transferências de compostos químicos das embalagens para o alimento – quando sujeita a temperaturas mais elevadas.
“As caixas de gelados estão otimizadas para ser utilizadas nos gelados e na classe de alimentos que tenha propriedades semelhantes em temperatura de congelação”, explica Vítor Alves, sublinhando que, nestas condições, “a transferência de aditivos é muito lenta e de baixo grau”.
A diretora do LNRME lembra que, ao comprar a embalagem de gelado, o consumidor “tem a garantia absoluta de que a pode usar para guardar gelados”. Contudo, “essas embalagens não são para reutilizar, é uma prática que oferece risco”.
Apesar de não ser suposto reutilizar estas caixas, ambos os especialistas admitem que o seu uso para congelar outros alimentos não apresenta grandes riscos para a saúde, uma vez que, nesta situação, a embalagem está em condições semelhantes às da utilização principal – conservar o gelado no congelador. A caixa deve, no entanto, ser bem higienizada antes.
Antes de as caixas chegarem ao consumidor, foram submetidas a testes que permitem garantir a segurança do material nas condições de utilização expectável. Todas as embalagens que estão em contacto com alimentos têm de ser testadas previamente, seguindo as indicações do Anexo V do Regulamento Europeu 10/2011.
Num capítulo do Manual de Rotulagem Alimentar é explicado que, embora os testes de migração de substâncias possam incluir “condições mais críticas ou mesmo de abuso”, o objetivo principal é “verificar a aptidão dos materiais para contacto com os alimentos” em “condições que mimetizam as condições reais expectáveis de uso”.
“É importante o consumidor fazer uso apropriado do artigo para contacto alimentar uma vez que as suas características de resistência térmica podem ter um impacto negativo na transferência de substâncias para os alimentos (migração)”, pode ainda ler-se.
E para aquecer os alimentos no micro-ondas?
Aquecer alimentos dentro de caixas de gelados é um cenário não expectável e que, por isso, pode não ter sido acautelado nos testes. As temperaturas elevadas são o principal problema na reutilização destas embalagens, afirma Vítor Alves, principalmente se envolver o micro-ondas.
“A caixa [de gelados] não foi preparada para essa utilização e há uma grande probabilidade de os aditivos serem transferidos para o alimento”, explica o professor, acrescentando que “não é aconselhável o material plástico estar em contacto com alimentos quentes”.
Também Fátima Poças refere que “usar uma caixa que foi concebida para a congelação em alimentos quentes oferece risco”, nomeadamente devido às “limitações térmicas de utilização” que podem levar a uma “perda do formato da embalagem” – um “sinal óbvio” de que não foi feita para aquelas condições.
Por serem de plástico, é comum pensar-se que as caixas de gelado são semelhantes a qualquer outro recipiente hermético. No entanto, os tipos de polímeros usados e os componentes adicionados são diferentes em função da utilização expectável de cada tipo de embalagem.
Mesmo no caso de usar recipientes herméticos, é sempre aconselhado verificar se o material é apropriado para ir ao micro-ondas ou para conservar alimentos quentes. Existem símbolos que indicam a temperatura a que a embalagem pode ser sujeita, assim como se é apta ao uso em micro-ondas, congelador ou máquina de lavar loiça.
Se em algum momento o recipiente apresentar deformações após ser submetido a temperaturas elevadas – seja no micro-ondas ou na máquina de lavar loiça – não deve voltar a colocá-lo em contacto direto com alimentos. A integridade do material poderá ter sido comprometida, o que potencia as migrações de químicos para os produtos.
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Este artigo foi desenvolvido no âmbito do European Media and Information Fund, uma iniciativa da Fundação Calouste Gulbenkian e do European University Institute.
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