VII CNMSP
Que ameaças e problemas estamos a subestimar? As respostas de 5 especialistas em saúde pública
Há ameaças e problemas de saúde pública que ocupam espaço nas notícias e outros que podem não estar a receber a atenção que merecem. No terreno, os médicos de saúde pública acompanham de perto a evolução destas situações e podem identificar sinais de alerta antes de ganharem maior dimensão.
Foi a pensar nisso que, à margem do VII Congresso dos Médicos de Saúde Pública, que decorreu em Espinho entre 30 de setembro e 2 de outubro, perguntámos a cinco especialistas que ameaças e problemas consideram estarem a ser subestimados e o que é preciso fazer para lhes dar resposta.
João Paulo Magalhães
Presidente da comissão organizadora do VII Congresso dos Médicos de Saúde Pública

A ameaça: a desinformação
“Eu diria que talvez seja a desinformação. Há algo que é transversal: como é que a evidência científica realmente passa para aquilo que são as decisões, sejam decisões políticas centrais, políticas locais, intervenções ou medidas que qualquer grupo profissional de saúde pública faz.
Uma dessas questões é a desinformação. Podemos pensar nos movimentos antivacinas, na forma como há um descrédito que cria condições para desvirtuar o que é a verdade dos factos. Isso cria muitos desafios, e Portugal está a passar por isso também neste momento. Essa desinformação é depois veiculada por plataformas como as redes sociais, que amplificam esses sinais.
Eu diria que, neste momento, essa seja talvez a principal ameaça que identificaria de forma transversal às ameaças particulares e específicas, muitas delas sinérgicas. Isto vai desde a ameaça das alterações climáticas até novos vírus ou novas bactérias que ameaçam do ponto de vista infeccioso. Temos as ferramentas para dar uma resposta cabal a essas ameaças, mas, se elas estão desvirtuadas da sua realidade e as pessoas tendem a desconfiar das medidas que existem, temos um problema transversal.”
O que é preciso fazer:
“Há duas coisas que são importantes. A primeira tem que ver com sermos muito rigorosos a comunicar aquilo que sabemos, com a evidência científica e técnica que existe, mas também sermos muito rigorosos a comunicar a incerteza e o que não sabemos.
Temos de ter muita cautela, porque é muito fácil, na saúde pública, tentarmos dar resposta a tudo porque não queremos deixar esse espaço vazio. Temos que saber como é que preenchemos esse espaço vazio comunicando a incerteza.
Isso passa por ser frontal, ser transparente, atualizar a informação assim que ela vai saindo e dizer às pessoas que comunicar o risco é comunicar a incerteza. Essa comunicação deve também ocupar os diferentes meios, não só os órgãos de comunicação social tradicionais, mas também os outros meios de comunicação que chegam a grupos profissionais que muitas vezes não estão nos órgãos de comunicação tradicionais.
A segunda questão tem que ver com o sistema democrático. A saúde pública e a saúde não existem de forma isolada: existem num contexto em que o poder é exercido e em que a evidência é uma das componentes, mas há outras ordens sociais que fazem com que esse poder seja efetivado.
Temos também de chamar à razão e à responsabilidade os vários atores. Nós, enquanto técnicos, estamos aqui para proporcionar esta informação, mas os políticos também têm de ter a responsabilidade de não entrar na espuma do dia e nas politiquices da espuma do dia, para garantir que as pessoas mantêm, recuperam ou aumentam o grau de confiança que têm nas instituições públicas e para que reforcem as mensagens que são passadas pelas instituições.
São dois pontos: um, direto, de quem produz a evidência científica e técnica e de como a comunica; outro, da articulação com os atores que efetivamente decidem e que têm que atuar com mais responsabilidade relativamente a matérias que vão além dos seus ciclos políticos e do seu dia a dia.”
Joana Moreno
Vice-presidente da Associação Nacional dos Médicos de Saúde Pública

A ameaça: mosquitos transmissores de doenças
“Uma das ameaças que atualmente é um problema de saúde pública são os vetores transmissores de doenças. Já desde o início do ano temos vindo a ver que o número de mosquitos transmissores de doenças em Portugal tem vindo a aumentar. É algo que nós, enquanto associação e enquanto médicos de saúde pública no terreno e nos vários níveis da organização, temos estado a acompanhar, assim como as estratégias que mais recentemente têm vindo a ser implementadas.”
O que é preciso fazer:
“Quanto à população, é importante que esteja o mais informada possível, porque a informação é uma das principais formas de prevenção de doenças vindas de outros países, que podem também ser transmitidas pontualmente em Portugal continental e nas ilhas, onde existem vetores.
Enquanto associação, vamos trabalhando na comunicação com a população e na transmissão de informação relativamente a este assunto. Queremos também contribuir com as organizações que trabalham esta matéria, no sentido de podermos participar ativamente enquanto parceiros técnicos.”
Inês Subtil
Médica de saúde pública na ULS de Loures-Odivelas

A ameaça: infeções sexualmente transmissíveis
“Queria falar sobre o aumento do número de casos de doenças sexualmente transmissíveis que têm saído nas notícias e dar a perspetiva das unidades de saúde pública. Temos um sistema que se chama SINAV, no qual devemos receber as notificações de doença obrigatória. Várias destas doenças sexualmente transmissíveis são doenças de notificação obrigatória e devemos receber informação sobre os casos que estão a ocorrer.
O que tem acontecido é que estas notificações são anónimas, porque é um assunto sensível e, classicamente, sempre esteve assim no nosso sistema de notificação. A nível local, o objetivo dos médicos de saúde pública é prevenir novos casos, interromper a cadeia de transmissão, perceber quem são os contactos de alto risco dessas pessoas e encaminhar para a vacinação os casos em que é necessário.
Todas essas ações não conseguem acontecer se não soubermos quem são, de facto, aqueles casos e não pudermos telefonar e perceber onde estão. A nossa perspetiva, como médicos de saúde pública, é que sentimos que é um problema que está a ser cada vez maior. As pessoas estão a usar menos o preservativo, sentem-se seguras com a utilização da PrEP (profilaxia pré-exposição), procuram algumas alternativas, aumentam os seus comportamentos de risco, aumenta a incidência destas doenças e sentimos que temos muito para oferecer e não estamos a conseguir.”
O que é preciso fazer:
“Temos tentado que esta informação chegue de forma não anonimizada. Quando existe um caso, é notificado pelo médico que viu o doente, que pode ou não dar um contacto dessa pessoa.
Muitas vezes esta tarefa é mais uma das mil e uma tarefas que um médico clínico tem para fazer e acaba por não a fazer. Às vezes, o doente até permitia e consentia ser contactado. É preciso arranjar alguns automatismos neste sistema para que seja mais rápido para os clínicos notificarem-nos e verificarem se o doente quer ou não ser contactado, tentar desanonimizar, porque estamos a falar de partilha de dados de saúde entre profissionais e colegas, com a confidencialidade garantida.
Temos de falar todos em conjunto e tentar arranjar uma solução, porque os números estão a aumentar.”
Ricardo Mexia
Presidente da Direção do Colégio da Especialidade Médica de Saúde Pública da Ordem dos Médicos
O problema: saúde mental
“A questão da saúde mental, cujo peso também está a aumentar, muitas vezes fica um bocadinho preterida em relação ao resto.
Diria que a questão da saúde mental tende a ser um parente esquecido da nossa intervenção. Há um estigma associado e é difícil lidar com isso. Não sendo talvez aquela que tem maior carga, tem tido um aumento importante e talvez tenha uma aposta relativamente curta para aquilo que são as necessidades crescentes.”
O que é preciso fazer:
“Já temos uma estratégia nacional, essa dimensão também está a ser implementada. É preciso, por um lado, normalizar a doença mental e torná-la tão fácil de lidar por parte de quem a tem como qualquer outra doença.
Os profissionais também podem ter aqui um papel importante e precisamos de aumentar a literacia nesta matéria para encontrar soluções preventivas, desde a prescrição social, o combate ao isolamento, a promoção da atividade física e da socialização, até questões mais práticas, desde a escola, conseguirmos dar ferramentas às pessoas para lidar com os problemas de saúde mental e fazer alguma autorregulação nessa dimensão.”
Vera Leal Pessoa
Coordenadora da Unidade de Saúde Pública da ULS do Alentejo Central

O problema: desigualdades territoriais na vacinação
“Um dos problemas que podemos estar a subestimar está relacionado com as bolsas de suscetibilidade, ou seja, desigualdades territoriais no âmbito da vacinação. Quando fazemos uma avaliação das coberturas vacinais a nível nacional, vemos que, na maior parte das coortes e das vacinas, temos uma cobertura acima dos 95%, o que nos pode deixar mais descansados.
Contudo, quando descentralizamos e verificamos os territórios a nível local, há algumas coortes e algumas vacinas em que as coberturas estão muito abaixo dos 95% e sobre as quais temos de ter um olhar atento, fazer uma identificação do problema e definir prioridades, porque depois também não vamos conseguir investir em todos os grupos suscetíveis e implementar estratégias tendo em conta cada contexto.”
O que é preciso fazer:
“O problema está identificado. Cada equipa de coordenação a nível local tem as suas coberturas vacinais avaliadas. Importa olhar especificamente para cada contexto e para cada grupo. No Alentejo, por exemplo, temos população envelhecida, população que, em termos de literacia digital, tem alguma dificuldade, isolamento geográfico e alguns grupos com vulnerabilidade social. A isto, juntando os movimentos antivacinas, vão criar-se algumas brechas no que diz respeito à hesitação vacinal e ter implicações.
Quando pensamos na vacinação, não é na vacinação como um todo: temos de pensar nos outros determinantes, porque também vão influenciar o acesso à saúde e as barreiras que existem.
Passa pela identificação do problema, definição de prioridades em cada contexto, porque cada contexto terá a sua realidade, e implementação de estratégias envolvendo não só as equipas de saúde pública, mas também as equipas prestadoras de cuidados de saúde, para que todos trabalhemos em prol do mesmo objetivo.”
