Acaba ao fim de dois anos? Afinal, quanto tempo dura a paixão?
Nas redes sociais partilha-se a ideia de que a paixão tem um tempo limite em todas as relações. Há pessoas que defendem que dura seis meses, outras alegam que dura até um ano e até quem sugira que o tempo limite para se estar apaixonado é dois anos.
Segundo alguns vídeos partilhados no TikTok, a paixão traduz-se num sentimento de curta duração, mas muito intenso. Defende-se que as pessoas apaixonadas pensam constantemente na pessoa por quem sentem paixão, quase de forma obsessiva. Afinal, o que é a paixão? Quanto tempo dura? Que sentimentos surgem após a paixão?
A 14 de fevereiro, data em que se celebra o Dia dos Namorados – também conhecido como Dia de São Valentim ou Dia dos Afetos -, o Viral contactou duas psicólogas sexólogas para perceber a definição de paixão e esclarecer quanto tempo dura este sentimento.
O que é a paixão? Quanto tempo dura?
Na perspetiva das psicólogas consultadas pelo Viral, “paixão” é um conceito muito subjetivo e difícil de explicar.
A psicóloga e sexóloga Inês Melo começa por definir paixão como “um sentimento muito presente no início das relações românticas, associado a emoções muito intensas”.
Caracterizado por um fascínio e uma idealização da pessoa por quem se sente atração, este sentimento também altera a “neuroquímica cerebral”, avança Ana Carvalheira, professora investigadora do ISPA – Instituto Universitário.
Segundo a psicóloga, quando alguém sente paixão, existem alterações físicas e psicológicas. Por exemplo, o cérebro de uma pessoa apaixonada liberta duas substâncias principais, “a dopamina e a feniletilamina”, que “provocam bem-estar e uma sensação de euforia acompanhada por uma atração e um desejo muito grande por alguém”, explica.
Em termos cerebrais, esclarece-se num texto da Associação Americana do Coração, durante a paixão, há a libertação de feniletilamina, “uma substância semelhante a uma hormona produzida nas fases iniciais da atração”, que provoca “a sensação de tontura que algumas pessoas sentem quando se apaixonam”.
Por sua vez, a feniletilamina “desencadeia a libertação de norepinefrina, que ajuda o corpo a reagir ao stress, e de dopamina”, conhecida como a hormona “da alegria” e “da recompensa”.
Além disso, a dopamina ainda desencadeia “a libertação de testosterona nos homens, aumentando a sensação de excitação” e “a libertação de estrogénio” nas mulheres, o que estimula o “aumento da libido”, acrescenta-se.
Todas estas alterações levam “a um desejo sexual extremamente frequente e espontâneo”, salienta Inês Melo.
Aliás, na perspetiva de Ana Carvalheira, “a paixão é o melhor combustível do erotismo, para todas as pessoas”. Estar apaixonado “garante a excitação, o desejo e o interesse sexual”, acrescenta.
Apesar de ser considerado um bom sentimento, a paixão também pode estar associada a aspetos menos positivos. “É uma fase em que as pessoas sentem, muitas vezes, uma distração nas outras áreas da sua vida”, assinala Inês Melo.
“Parece que tudo faz gira muito à volta da pessoa por quem se está apaixonado” e há, até, “uma certa negação da própria individualidade, quase como se eu não existisse sem o outro”, acrescenta.
No que toca à duração deste sentimento, as duas psicólogas concordam que a paixão tem um tempo de vida curto e limitado. Em termos físicos e psicológicos, é um sentimento “muito exigente”, defende Ana Carvalheira.
Inês Melo tem um ponto de vista semelhante: “A paixão consome-nos tanto tempo e energia que seria insustentável para nós, enquanto seres humanos, senti-la a longo prazo”.
No entanto, não é possível afirmar que todas as paixões duram um determinado tempo. “Algumas pessoas sentem paixão durante 18 meses, outras são 12 e outras 24”, refere Ana Carvalheira. Isso depende, sobretudo, das características de cada pessoa.
Para Inês Melo, a duração da paixão também está dependente “da intensidade da relação” e do “tempo de qualidade” dedicado à mesma.
De forma a clarificar este ponto, a sexóloga recorre a uma analogia: “A paixão é como uma vela a arder. Ela pode arder a diferentes velocidades dependendo do oxigénio que lhe damos”.
Por exemplo, “numa relação em que as pessoas estão juntas durante mais tempo, é possível que este fogo arda um bocadinho mais rápido”.
Por outro lado, “numa relação em que as pessoas estão um pouco mais afastadas”, a chama pode demorar mais tempo a apagar.
Apesar de a paixão ser típica do início das relações e ter uma duração limitada, “é possível voltar a acender esta vela”, salienta Inês Melo. Segundo a sexóloga, “a paixão pode voltar a ser vivida noutros momentos da relação, em que algo volta a despertar” esse sentimento.
Ainda assim, é importante “não ficar à espera do que já não é possível voltar a ter”, sublinha Ana Carvalheira. “Há um determinado nível de intensidade que se sente no início de uma relação que já não é recuperável”, acrescenta.
A paixão está a diminuir: E agora? Quer dizer que já não gosto da pessoa?
Durante a paixão, “há uma certa negação da própria individualidade, ou seja, a pessoa deixa de estar tão preocupada com as suas necessidades e com a sua individualidade e passa a estar muito mais focada na outra pessoa”, explica Inês Melo.
Além disso, relembra, “há uma idealização do outro”, “não se vê defeitos” na pessoa por quem se está apaixonado.
À medida que o sentimento de paixão se vai dissipando perde-se um pouco o encanto e começa-se a encarar o outro de forma mais racional. “Vamos conhecendo melhor – e de forma mais consistente – a outra pessoa”, esclarece Ana Carvalheira.
Nesta fase, começa-se a ter noção dos defeitos do outro e, por vezes, “aquilo que no início nos encantava irrita-nos e incomoda-nos”, quando a paixão passa.
Por outro lado, refere Inês Melo, há também muito mais vontade de “voltar à minha individualidade e a outras áreas da minha vida e outras pessoas que também são importantes”. No fundo, “a outra pessoa deixa de ser o centro e passa a ser só parte da minha vida”, sublinha a psicóloga.
É comum acreditar-se que esta dissipação da paixão significa que “já não se gosta da pessoa”, porque se deixa de sentir “a adrenalina aditiva”.
Isto leva muitas pessoas a abandonarem uma relação e “a procurarem outras relações para voltarem a sentir paixão, mas acabam por ficar eternamente frustradas por não conseguirem mantê-la a longo prazo”, explica.
Na perspetiva de Ana Carvalheira, esta é uma realidade muito presente “nas sociedades ocidentais do mundo moderno”, em que se vive “sob os valores do imediatismo, da intensidade e da individualidade”.
Por outras palavras, “atualmente, há uma tendência para as pessoas não investirem” nas relações, ou seja, “eu estou com alguém enquanto essa pessoa nutrir as minhas necessidades e os meus interesses e quando isso começar a falhar procuro outra”, esclarece.
Noutro plano, se não se sentir um desinteresse e se houver um investimento, “a paixão pode dar lugar a outros sentimentos que também são importantes numa relação, como o amor, que depois também se liga a outras coisas mais antagónicas à paixão, mas muito importantes numa relação, como, por exemplo, a segurança e o conforto”, realça Inês Melo.
Nesta fase, “há a descoberta e aceitação dos defeitos da outra pessoa, ou seja, eu percebo que ela não é perfeita, mas aceito os seus defeitos”.
No mesmo sentido, salienta Ana Carvalheira, cria-se “intimidade” com a outra pessoa, bem como “uma conexão mais profunda de emoções e mais consistente”.
Intimidade entende-se pela capacidade mútua de fazer uma auto-revelação de questões “privadas e íntimas” e “sentir a compreensão e validação” por parte da outra pessoa.
Enquanto a paixão se traduz num sentimento ou num estado mais incontrolável e irracional, “o amor, além de ser um sentimento, também é uma escolha”, defende Inês Melo.
“Há pessoas que escolhem ficar depois da paixão dissipar e outras que escolhem sair”, conclui.
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