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Luís e Marta só descobriram a PHDA depois dos 30 anos: Diagnóstico tardio trouxe “conforto”, mas também “revolta”

31 Out 2024 - 09:40

Luís e Marta só descobriram a PHDA depois dos 30 anos: Diagnóstico tardio trouxe “conforto”, mas também “revolta”

Luís Silva tinha 38 anos quando, em junho de 2024, recebeu o diagnóstico de Perturbação de Hiperatividade e Défice de Atenção (PHDA), quando foi à procura de ajuda para tratar o que pensava ser “uma dificuldade em gerir o apetite”. Acabou por ser diagnosticado com uma perturbação do comportamento alimentar e com PHDA.

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História semelhante é contada por Marta (nome fictício). Apesar do percurso escolar e académico de sucesso, e de se ter formado em Medicina, sempre se sentiu “muito diferente” das outras pessoas. Foram alguns colegas de profissão, pediatras e pedopsiquiatras, que levantaram a hipótese de Marta ter PHDA. Em janeiro de 2023, aos 39 anos, viu essa hipótese confirmada.

A pretexto do mês para a consciencialização da PHDA, que se assinala todos os anos em outubro, Luís e Marta contam ao Viral como é ser diagnosticado na idade adulta e como o diagnóstico e o tratamento afetaram as suas vidas.

O diagnóstico: Luís queria mudar hábitos alimentares, Marta foi aconselhada a fazer despiste para a PHDA

Só a dada altura, durante a idade adulta, é que Marta foi alertada para a possibilidade de ter PHDA. “Quando estava a trabalhar com colegas de pediatria e de pedopsiquiatria, sugeriram que eu podia ter a PHDA”, conta.

Estas colegas “insistiram muito” para que fosse vista por um psiquiatra especializado, mas Marta também não deu muita importância à questão, porque “achava mesmo que a PHDA só existia na infância”. Aliás, admite, “este é um mito mesmo entre os médicos”.

Na altura, Marta “era seguida por uma psiquiatra” e decidiu abordar o assunto numa consulta. Mas a resposta que recebeu foi ao encontro do que estava habituada a ouvir. “Ela disse-me para tirar essa ideia da cabeça, porque no adulto não há PHDA”, relata.

Entretanto, uma sobrinha de Marta foi diagnosticada com PHDA e as suas colegas voltaram a insistir no assunto. Disseram-lhe: “Tens mesmo de ir, porque tens história na família. É muito provável que tenhas”.

De facto, a questão da hereditariedade é relevante na PHDA. Quem o diz é o psiquiatra e presidente da Sociedade Portuguesa de Défice de Atenção Carlos Filipe.

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Em esclarecimentos ao Viral, o especialista explica que “a PHDA é uma perturbação do neurodesenvolvimento, ou seja, do desenvolvimento do sistema nervoso, que tem um componente hereditário muito importante”.

Aliás, salienta, “é das perturbações que acompanhamos em psiquiatria que tem uma carga hereditária maior”. 

Depois de alguma insistência por parte das colegas, Marta acabou por ir a uma clínica no Porto e foi diagnosticada com PHDA, em janeiro de 2023.

O motivo que levou Luís ao diagnóstico foi diferente. “Eu sempre tive alguma dificuldade em lidar com a questão do apetite, ou seja, com a própria quantidade de ingestão de alimentos”, começa por contar.

Mas, durante a pandemia, com “a criação das aplicações de entrega de comida em casa” que permitiam que Luís pudesse pedir o que quisesse, “em qualquer altura e a qualquer hora”, esta gestão tornou-se ainda mais complicada.

Quando acabou a pandemia, “percebi, pelo meu aspeto no espelho e pela balança, que tinha ficado com alguns hábitos que estavam a ser muito difíceis de parar”, revela.

Luís tentou mudar esses comportamentos, mas não conseguia. Partilhou a angústia com uma amiga que pôs a hipótese de Luís ter PHDA e de isso estar na origem do comportamento alimentar que desenvolveu.

“Eu tinha algumas dúvidas. Já tinha ouvido falar de PHDA algumas vezes, porque começou a tornar-se um tema muito presente, mesmo nas redes sociais”, revela.

Mas, continua, “embora já tivesse feito terapia, na altura da pandemia, por causa da ansiedade, nunca tinha sido um assunto abordado” em consulta.

Vários meses depois, Luís foi diagnosticado com uma perturbação do comportamento alimentar e com PHDA por dois especialistas, um psicólogo e um psiquiatra.

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A ansiedade e a perturbação alimentar que Luís desenvolveu estavam, de facto, ligadas à PHDA. 

Segundo Carlos Filipe, estas situações são comuns. As comorbilidades são “extraordinariamente frequentes nestas pessoas, nomeadamente a perturbação depressiva, do humor e de ansiedade”, salienta o psiquiatra.

Por norma, “são desencadeadas pelo sentimento de falhanço, pelo sentimento de que a pessoa funciona constantemente abaixo das suas capacidades”.

A PHDA não diagnosticada pode provocar “uma diminuição enorme da confiança, da autoestima”. 

Por haver esta associação, muitas vezes, as pessoas com PHDA pedem ajuda especializada “não pela sintomatologia específica do défice de atenção, mas pela sintomatologia de depressão e de ansiedade que de alguma forma são secundárias”, explica Carlos Filipe.

Como foram feitos os diagnósticos de Marta e Luís?

Marta conta que a psiquiatra que a diagnosticou fez “uma colheita exaustiva” da sua “história familiar” e “de toda a sintomatologia que tinha desde a infância”. 

O processo de diagnóstico de Luís foi semelhante, apesar de ter sido diagnosticado por dois especialistas. “Fiz uma bateria de testes, aos quais respondi”, avança.

Além disso, também teve de levar à clínica, para ser entrevistada pelos especialistas, uma pessoa que o tivesse acompanhado na infância.

Luís escolheu a irmã, por ser “uma pessoa muito próxima” e também porque achava que os pais “não iam perceber nada do que se estava a passar”.

Por norma, o diagnóstico é feito nestes moldes. Carlos Filipe realça que “o diagnóstico é exclusivamente clínico e é feito com base nos sintomas: nos que são observados, nos relatados pelo próprio e nos relatados por terceiros, ou seja, professores, pais, companheiros”.

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Quando se trata de um adulto, há também “todo um evocar de sintomas na adolescência e na infância, que a pessoa ou aqueles que a acompanham consigam lembrar-se, ou até mesmo informações escritas do tempo em que estavam na escola”, explica.

Isto porque, justifica o médico, “a não ser em casos muito excecionais, a perturbação tem de estar presente desde a infância”, ainda que se possa manifestar de formas diferentes consoante a idade e o ambiente em que a pessoa se encontra.

A PHDA manifesta-se “por alterações ou dificuldades em vários domínios”, e não só pela questão da hiperatividade, como algumas pessoas acreditam.

Carlos Filipe explica que a perturbação afeta, por um lado, “a capacidade de a pessoa manter a atenção dirigida e a atenção focada por tempo suficiente e de forma voluntária”.

A “impulsividade” também é uma caraterística muito presente, ou seja, “a diminuição da capacidade de gestão dos impulsos, quer na sua produção, quer no seu controle”.

Além disso, “mas nem sempre o mais importante, também se verifica hiperatividade motora”, refere

Todos estes sintomas, numa pessoa com PHDA, verificam-se “com uma intensidade suficiente para interferir e perturbar a vida da pessoa em vários domínios, que podem ir desde os aspetos académicos, a aspetos sociais, relações familiares e a nível profissional”.

O diagnóstico trouxe “conforto” a Luís. Marta foi do “choque” e à “aceitação”

Na primeira consulta, quando os especialistas disseram que havia uma grande probabilidade de ter PHDA, Luís não ficou surpreendido.

Como já tinha algumas dúvidas e suspeitas em relação ao assunto, quando foi diagnosticado sentiu “um conforto maior”, porque, naquele momento, a sua forma de ser e o que sempre sentiu “passou a ter um nome”.

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Luís confessa que já tinha adotado alguns mecanismos para contornar questões que sabia que não eram compreendidas pelas outras pessoas, sobretudo “a pessoa que vive comigo, os meus pais, os meus amigos e os meus colegas”, especifica.

“Quando fui diagnosticado pensei: agora vou conseguir lidar ainda melhor com isto, vou encontrar ainda mais mecanismos, porque já sei qual é o caminho a seguir”, admite.

Ao contrário de Luís, Marta “não estava muito à espera” de ser diagnosticada com PHDA. 

“Passei por várias fases. Primeiro foi um choque, depois achei que talvez a médica estivesse enganada”, relata.

À medida que se foi informando mais sobre PHDA no adulto, Marta percebeu “que realmente tinha toda a sintomatologia desde muito nova”. 

Essa aceitação também levou a alguma “revolta, por ter passado por tantas dificuldades na vida e pelo diagnóstico não ter sido feito previamente”, tendo em conta que foi “sempre seguida em pediatria”.

Marta acredita que a sua “autoestima não teria sido tão baixa” se tivesse sido diagnosticada e tratada mais cedo.

Luís admite que, sobretudo no final da adolescência e na entrada da idade adulta, acreditava sempre que “não era capaz de nada” ou “não conseguia fazer isto ou aquilo”.

“Era uma crença limitadora muito grande”, por isso, “acho que se tivesse sido diagnosticado muito mais cedo, a minha vida, nesse sentido, teria sido mais fácil”, confessa.

Por outro lado, Luís também acredita que foi positivo ter sido diagnosticado na idade adulta. 

“Sinto que as pessoas à minha volta não iam ter a capacidade para perceber isto e não iam ajudar-me. Ainda bem que fui eu o responsável por procurar ajuda”, defende.

Quando Luís e Marta eram crianças não se falava tanto de PHDA. Aliás, ambos admitem que não foi fácil explicar à família o que é esta perturbação.

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A reação inicial que Marta recebeu das pessoas à sua volta não foi positiva. Achavam que “eu estava a inventar, que não era verdade e que tinha sido feito um diagnóstico sem sentido”, relata.

Aos poucos, “as pessoas foram aceitando”, até porque Marta teve a ajuda da irmã. “A minha sobrinha também tem PHDA, por isso a minha irmã ajudou-me muito também a consciencializar os meus pais”, admite.

Luís teve uma experiência semelhante, já que alguns familiares não acreditavam que a PHDA existia. “Eu levei pessoas da minha família às consultas para serem os profissionais a responder-lhes, porque eu percebi que não tinha mecanismos, nem conhecimento suficiente para explicar esse tipo de questões”, confessa.

Esta desinformação ainda permanece atualmente. Segundo Carlos Filipe, “embora a PHDA já esteja identificada desde os anos 50, pelo menos, há 40 anos falava-se pouco neste tipo de patologia”.

Hoje, apesar de tudo, “existe muito mais alerta por parte quer dos professores, quer dos pais, quer dos próprios, nomeadamente quando se trata de adultos”.

Ainda assim, existem outras questões que podem levar a um diagnóstico tardio. Por exemplo, refere Carlos Filipe, “há situações mais difíceis de diagnosticar, nomeadamente aquelas que não têm hiperatividade marcada ou em que a impulsividade também pode não estar tão presente, a pessoa é mais contida e é mais discreta”.

Esta é muitas vezes a “razão pela qual as raparigas, sobretudo – mas também alguns rapazes -, que estão no seu cantinho, que estão completamente no mundo da lua, mas não perturbam a sala, acabam por não serem sinalizadas”, explica.

O diagnóstico veio trazer sentido a alguns comportamentos 

Marta e Luís consideram que o diagnóstico trouxe algum sentido às dificuldades que sempre enfrentaram ao longo da vida. Sentiam-se sempre diferentes das outras pessoas e tinham a perceção de que nunca conseguiam estar à altura de determinados desafios.

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Apesar de ser uma criança “distraída”, “irrequieta”, “que desestabilizava a sala de aula” e “tinha uma grande dificuldade em fazer os trabalhos de casa”, Marta era boa aluna e tirava boas notas.

“Eu só estudava quando tinha o teste, muito em cima da hora”, ou seja, “ficava com ansiedade, entrava em hiperfoco e conseguia estudar em casa e ter boas notas nos testes”, conta.

Aliás, acrescenta, “uma das coisas que me diziam era que como eu era boa aluna e tirei o curso de medicina não podia ter PHDA”. 

Mas, de facto, “fiz sempre tudo com muito esforço” apesar de “as pessoas acharem que não, porque nas aulas e na escola era muito descontraída”.

Luís era visto como “preguiçoso” por algumas pessoas mais próximas. Na escola, “a opinião dos professores era sempre muito díspar: ou era preguiçoso, ou era a pessoa mais envolvida e motivada”.

Com o passar dos anos, sempre foi visto pelos colegas de trabalho como “muito intenso”. Isto porque, “se eu estiver efetivamente a gostar de fazer aquilo que eu estou a fazer, sou muito envolvido e criativo”, relata.

Além disso, Luís também sempre teve “complexos” em relação “a coisas pequenas, muito ligadas às rotinas”. 

“Sou desorganizado, estou sempre a perder as coisas”, admite. Como Luís nunca conseguiu esconder isso, perdia muito tempo e ficava com um sentimento de culpa muito grande.

“Quando eu passei para a parte profissional, sempre tive muito receio que esse tipo de coisas pequenas minhas se refletissem no trabalho”, confessa.

Marta também partilha estas características com Luís. “Desde a primária que tenho de apontar tudo. Lembro-me que tinha de apontar tudo num papel, porque eu chegava a casa e não conseguia dizer o que era trabalho de casa”.

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Já na idade adulta, Marta teve algumas dificuldades em gerir a sua rotina. “Quando vivia com o meu filho ainda me conseguia organizar, mas desde que ele saiu de casa para estudar que tem sido muito difícil para mim”.

O facto de ter alguém em casa impulsionava-a a executar tarefas, mas, hoje em dia, “coisas como arrumar a louça, pendurar a roupa e até levantar-se de manhã” são difíceis de fazer.

“Desde sempre que chego atrasada às aulas e no trabalho também tenho essa tendência, apesar de acordar duas horas antes”, admite.

Adormecer também é difícil para Marta. “Só adormeço com a televisão acesa, para me distrair, e este é um hábito que eu tenho desde pequena”.

Criar laços era igualmente desafiante. “Sentia uma dificuldade muito grande em fazer amigos e em aprofundar amizades, porque sentia que as pessoas não iam compreender o que me passava às vezes pela cabeça”, conta Marta.

Para Luís algumas caraterísticas da PHDA também dificultaram a sua vida. “As pessoas à minha volta não entendem muito bem isto, o que depois também dificulta um bocado as relações que se vão criando, porque ou se tem uma pessoa muito empática ao lado, ou então é muito difícil para a outra pessoa perceber e não criticar”, defende.

Como se trata a PHDA?

Marta e Luís referem que foram medicados com um psicoestimulante, que tomam desde o diagnóstico.

Tal como explica Carlos Filipe, a medicação receitada para a PHDA “aumenta a eficácia de uma série de redes neuronais, responsáveis pela vigília, ou seja, pela nossa capacidade de estarmos acordados, e pelo foco”, isto é, “pela nossa capacidade de inibir os estímulos distratores”, sejam “externos ou internos (como pensamentos múltiplos e constantes)”. 

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A medicação “deve ser usada sempre” em conjunto “com uma abordagem psicoterapêutica”, dando à pessoa “competências e uma série de estratégias – definidas caso a caso e em função das suas necessidades – que a ajudam a organizar-se melhor no tempo, no espaço, e nas prioridades”, acrescenta.

Tanto Luís como Marta foram aconselhados a ter um acompanhamento psicoterapêutico. Marta, no entanto, ao procurar por essa ajuda, percebeu que “os psicólogos, no geral, também não estão muito direcionados para a PHDA no adulto”. 

Benefícios do tratamento: Marta consegue focar-se mais no trabalho, Luís ficou mais “calmo” e “confiante”

Antes do diagnóstico de PHDA, Marta teve sempre algumas dificuldades durante o seu trajeto profissional. Especializou-se em Medicina Geral e Familiar e começou a dar consultas num centro de saúde.

Mas “demorava sempre mais tempo do que era necessário em cada consulta” e tinha “muita dificuldade em realizar as tarefas todas a tempo”, chegando mesmo a ter “episódios de burnout”.

Entretanto, mudou o ramo profissional e, mesmo antes do diagnóstico, encontrou um tipo de trabalho que executa com maior facilidade.

Com o tratamento, o seu desempenho profissional melhorou. “Senti, sobretudo, um maior foco a fazer até o meu trabalho”, conta. Também se sente “mais calma e com menos pensamentos” a toda a hora. 

Luís partilha dessa sensação de calma. A empresa onde trabalha há vários anos sempre proporcionou boas condições de trabalho. “Tive a sorte de ter um chefe que se preocupava em explorar as coisas boas que eu tinha em vez de estar preocupado com aquelas em que não era bom, confiava muito em mim e atribuía-me responsabilidades”, revela.

Mas, refere, “vivia sempre em tensão e, olhando para trás, o diagnóstico deu-me uma serenidade que as pessoas que trabalham comigo há muitos anos também sentiram”.

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Hoje, “estou calmo e confiante em relação àquilo que sei e consigo fazer”, “não só profissionalmente, mas também a nível pessoal”, acrescenta.

Apesar de tudo, a medicação “não é milagrosa”, admite Marta. “Melhora a sintomatologia, mas não cura”, até porque o seu efeito é temporário. Por isso é que deve ser tomada todos os dias.

“Ao final do dia, já não sou produtiva de todo” e continuo a ter “muita dificuldade em terminar as tarefas mais aborrecidas”, confessa.

Luís tem a mesma perceção, de que “mesmo com a melhor medicação” e todos os mecanismos possíveis, os esquecimentos, por exemplo, “vão voltar a acontecer”.

“Só acontece na infância”, “somos preguiçosos” e “pessoas hiperativas”. Os mitos sobre PHDA que ainda persistem

Apesar de já haver muita informação factual sobre PHDA disponível, ainda persistem muitos mitos sobre a perturbação. Do ponto de vista de Luís e de Marta, a própria designação da condição “não ajuda”.

Marta defende que ainda se associa muito a PHDA apenas a “pessoas que são hiperativas”, desconhecendo todo o conjunto de sintomatologia.

Tal como explica Carlos Filipe, “a hiperatividade não tem de estar sempre presente e até é o que menos perturba a pessoa”. Nas crianças, “é o que perturba mais os outros, mas não o próprio”, salienta.

Por outro lado, também há quem acredite que se trata apenas “de uma questão de défice de atenção”, aponta Luís.

Na perspetiva de Marta, a designação devia ser “desregulação da atenção” e não “défice”. Tal como também existe “uma desregulação emocional” na PHDA.

A crença de que a PHDA “só acontece na infância” também ainda persiste, na opinião de Luís e Marta.

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Outra ideia muito comum, prossegue Marta, é que “somos preguiçosos, insolentes, e que não somos capazes de fazer qualquer coisa mais desafiante”, em termos profissionais e académicos. Quando, na verdade, “somos capazes de fazer muita coisa e somos muito criativos”, defende.

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Isto “também tem coisas muito boas”, destaca Luís. “Temos uma parte criativa espetacular e uma capacidade de pensar mais além”.

Além disso, refere Marta, ainda hoje, “as mulheres continuam a ser diagnosticadas muito mais tarde”, por se achar que esta perturbação só se verifica nos homens ou porque a PHDA pode manifestar-se de forma diferente nas mulheres.

Nas redes sociais, partilham-se muitas vezes ideias vincadas e contraditórias sobre a PHDA. Ou se diz “que todas as pessoas têm” ou que a perturbação não existe, aponta Luís.

Carlos Filipe reconhece que “há um lado de desinformação muito grande, que tem que ver com crenças, negócios, preconceito, ou simplesmente ignorância”.

Por isso é que, na perspetiva do psiquiatra, “tem de haver um cuidado muito grande sobre aquilo que é a fonte de onde vêm essas informações”.

As pessoas precisam de perceber que “uma coisa é ter ansiedade antes de um exame e outra é ter uma perturbação de ansiedade” da mesma forma que “uma coisa é estar triste, outra é ter uma depressão”. 

O que distingue estas coisas é sempre “a intensidade e a duração dos sintomas”. O mesmo se aplica a uma perturbação do neurodesenvolvimento, como a PHDA: “os sintomas têm de ser persistentes, intensos e prevalentes (ou seja, têm de estar presentes em todas as situações)”, esclarece.

Uma pessoa pode estar distraída, irrequieta ou ter um comportamento impulsivo em certas alturas da sua vida. Mas tudo isto “é o padrão” das pessoas com PHDA, “não é o que lhes acontece de vez enquanto”, realça o médico.

A importância da consciencialização para a PHDA

Luís considera que, enquanto pessoa com PHDA diagnosticada na idade adulta, tem um papel importante na promoção da consciencialização para a perturbação, ao partilhar a sua história.

“Acho que para os miúdos que têm esta condição seria importante serem diagnosticados mais cedo, para também se sentirem mais confortáveis com eles próprios”, defende.

“Nós estamos sempre a dizer que as pessoas têm de se sentir bem na sua pele, mas, depois, alguém tem PHDA e dizemos que aquela pessoa é preguiçosa ou é isto e aquilo”, prossegue.

Na opinião de Luís, um diagnóstico atempado pode fazer toda a diferença no que diz respeito à baixa autoestima e à falta de confiança, comuns em pessoas com PHDA.

Marta também considera que este assunto “deve ser falado durante o curso de Medicina”. Quando estava a estudar, a médica diz que estudou “imensos temas, em psiquiatria, e nunca abordou a PHDA”. 

Além disso, defende a importância de “haver uma compreensão maior” em ambientes de trabalho em relação a questões específicas da PHDA.

31 Out 2024 - 09:40

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