Porque é que algumas pessoas sentem menos frio?
Os meses de outono e inverno podem ser particularmente difíceis de suportar para algumas pessoas. Há quem vista várias peças de roupa e continue com frio e, por outro lado, há pessoas que parecem só precisar de um casaco mais quente para combater as temperaturas baixas. Afinal, porque é que uma pessoa pode sentir menos frio do que outra quando ambas estão expostas à mesma temperatura?
Em declarações ao Viral, a especialista em Medicina Interna Ana Isabel Pedroso explica que fatores podem influenciar a perceção de frio e esclarece se as pessoas que sentem menos frio correm um maior risco de hipotermia.
Algumas pessoas sentem menos frio do que outras. Porquê?
Segundo Ana Isabel Pedroso, há vários motivos que levam uma pessoa a sentir menos frio do que outra quando ambas estão expostas à mesma temperatura (ver também aqui).
Um dos fatores mais importantes “é a genética”. A médica explica que “há uma predisposição genética para tolerar melhor o frio ou o calor”, por isso é que “há pessoas que conseguem viver em sítios muito gélidos” sem problema.
Além da predisposição genética, “o metabolismo” de cada um – ou seja, o conjunto de todos os processos físicos e químicos do corpo que convertem ou utilizam energia (ver aqui) – também tem impacto na perceção de frio. “Um metabolismo mais acelerado gera mais calor, por isso, essa pessoa tem menos sensação de frio”, esclarece.
Outro fator importante é “a composição corporal”, salienta Ana Isabel Pedroso. Por um lado, “quanto mais massa muscular temos, mais calor gera o nosso corpo” e, por consequência, “menos frio sentimos”.
A massa gorda funciona como uma espécie de “isolante térmico”, mas “não gera tanto calor como a massa muscular”, refere.
Noutro plano, existem ainda condições de saúde que têm impacto na sensibilidade ao frio. Segundo a especialista, “as pessoas com problemas de circulação sentem mais frio a nível das extremidades”.
Isto porque, explica-se num texto informativo da Fundação Britânica do Coração, “quando o coração bombeia sangue pelo corpo, está a fornecer o oxigénio e os nutrientes essenciais de que os músculos e os tecidos moles necessitam”, mas, “se esse fornecimento de sangue for limitado, pode-se notar mãos e pés frios, formigueiro e sensação de dormência”.
Há, inclusive, uma condição de saúde conhecida como “fenómeno de Raynaud” que “pode ser desencadeada pelo frio” e “as pessoas ficam com os dedos brancos”, explica Ana Isabel Pedroso.
Tal como se explica num texto do Instituto Nacional de Artrite e Doenças Musculoesqueléticas e da Pele dos Estados Unidos (NIAMS, na sigla inglesa), o fenómeno de Raynaud “provoca o estreitamento dos vasos sanguíneos das extremidades, restringindo o fluxo sanguíneo”, e afeta, sobretudo, “os dedos das mãos e dos pés”.
Além disso, refere Ana Isabel Pedrosa, as pessoas com hipotiroidismo (tiroide não produz hormonas suficientes) também são mais sensíveis ao frio (ver também aqui).
Num texto da Escola de Medicina de Harvard refere-se que também é comum uma pessoa com anemia (quando o sangue produz poucos glóbulos vermelhos) ser mais sensível ao frio, “embora seja invulgar” que a anemia “cause uma sensação de frio extremo”.
Por último, sabe-se que há pessoas que sentem menos frio, porque estão habituadas a estar expostas a temperaturas baixas. Por exemplo, uma pessoa que nasceu e viveu sempre num país onde a temperatura habitual é muito baixa é menos sensível ao frio.
Pessoas que sentem menos frio correm maior risco de hipotermia?
Na teoria, sim, as pessoas que sentem menos frio podem correr um maior risco de hipotermia, porque, à partida, “expõem-se mais” a temperaturas baixas.
Contudo, salienta Ana Isabel Pedroso, é importante ter em conta que a hipotermia “pode ter outras causas”, além da exposição ao frio. Por exemplo, prossegue a médica, “infeções muito graves”, “certos fármacos”, “desnutrição” e “hipotiroidismo” podem favorecer a hipotermia.
Tal como explica a médica, uma pessoa está com hipotermia quando a temperatura corporal está abaixo dos 35 graus.
Em termos de sinais, “uma pessoa com hipotermia está fria ao toque, pálida, prostrada (com uma fraqueza extrema), lenta, confusa, sonolenta e pode ter tremores”, esclarece.
Os casos de hipotermia são emergências médicas que requerem atenção profissional, pois podem ser fatais. Isto porque a pessoa começa a ficar “com os movimentos respiratórios mais lentos” e “a frequência cardíaca vai diminuindo” ao ponto de o coração poder parar de bater.