Pés, látex e saltos agulha. O que separa um fetiche saudável de uma perturbação?
Pés, roupas de látex ou sapatos de salto alto estão entre os exemplos mais conhecidos de fetiches: estímulos sexuais considerados atípicos que despertam atração em algumas pessoas. Estes interesses menos convencionais levantam questões sobre os limites e a diversidade da sexualidade humana. Podem os fetiches fazer parte de uma sexualidade saudável? Quais os sinais de que estamos perante uma perturbação? E quando se deve procurar ajuda especializada? A psicóloga e sexóloga Inês Melo responde.
Os fetiches podem fazer parte de uma vida sexual saudável?
Entende-se por fetiche “uma atração persistente por estímulos sexuais que sejam atípicos (uma parte do corpo que não é a genital, objetos não humanos, situações específicas, cheiros, texturas, etc.) ou que não contemplem aquilo que nós consideramos a prática sexual mais comum”, começa por explicar Inês Melo.
Embora, para muitas pessoas, o tema seja tabu, a psicóloga e sexóloga sublinha que “o fetiche, por si só, não constitui um problema”, ou seja, “pode fazer parte do quão diverso é o desejo sexual humano” e “coexistir com uma sexualidade saudável”, sendo, por exemplo, integrado “de forma consensual” na dinâmica de um casal.
Inês Melo adianta que a linha entre um fetiche vivido de forma saudável e uma perturbação é ultrapassada quando essa preferência sexual “traz sofrimento clinicamente significativo à pessoa ou até a outras pessoas”, tal como é estabelecido pelo Manual Diagnóstico e Estatístico de Perturbações Mentais (DSM-5).
Do ponto de vista clínico, adianta a psicóloga, é particularmente relevante “pensarmos sobre o quanto este interesse sexual, esta persistência para um determinado estímulo, traz prejuízo à vida da pessoa ou envolve comportamentos não consensuais com outras pessoas que estão também a sofrer ou a ter prejuízo com esse mesmo comportamento”.
“Existem, sim, muitos fetiches que são vividos de forma consensual e integrada na sexualidade e existem outros que, de facto, podem ser potencialmente problemáticos ou até constituir, mais à frente, abuso, agressão sexual e crime”, acrescenta.
Quais os sinais de alerta?
Existem vários sinais que podem indicar que se saiu do campo do fetiche saudável e se está perante uma situação problemática ou uma perturbação.
Um deles, detalha Inês Melo, “é a dificuldade em obter prazer para além desse mesmo estímulo persistente”, ou seja, quando a pessoa não consegue masturbar-se ou ter uma relação sexual satisfatória com outra pessoa se o fetiche não estiver presente. E isso, sublinha a sexóloga, “tem muito mais que ver com o sentir e a vivência da pessoa do que propriamente com o tipo de fetiche que existe”.
“Há pessoas que podem ter um fetiche com pés – que à partida será mais comum dentro do mundo dos fetiches – e isso trazer-lhes muito sofrimento, muita angústia e muito prejuízo à sua vida porque não conseguem ter uma relação sexual satisfatória sem a presença desse estímulo. E, por outro lado, há pessoas que podem ter fetiches mais complexos aos olhos dos outros e isso não lhes trazer tanto sofrimento ou prejuízo, ser vivido de forma consensual e, portanto, não precisar de um apoio ou de uma terapêutica para auxiliar na forma como vive a sua sexualidade”, exemplifica.
Outro sinal de alerta está relacionado com “a frequência com que a pessoa necessita deste fetiche para a obtenção de prazer e o nível de sofrimento que lhe causa”.
Muitas vezes, realça, o sofrimento estende-se a outras áreas da vida da pessoa que não estão diretamente ligadas à sexualidade, nomeadamente quando influencia negativamente “a forma como se relaciona socialmente ou, por exemplo, o seu desempenho no trabalho, porque passa muito tempo a pensar sobre aquilo”.
“Quando traz prejuízo às outras áreas da nossa vida e à relação que tenho comigo própria e com as pessoas à minha volta é um sinal também importante de procura de ajuda”, sustenta.
Por fim, a vivência de um fetiche com outra pessoa nunca poderá ser considerada saudável se não houver consentimento da outra parte.
“Quando não há consentimento, é um sinal de alerta gigante de que precisamos de procurar ajuda. Até porque sabemos que certos comportamentos relacionados com as perturbações parafílicas constituem um crime”, frisa.
Perante estes sinais, é fundamental que a pessoa procure ajuda “para que a sexualidade seja vivida de outra forma e que a pessoa consiga encontrar outros estímulos que lhe sejam prazerosos” e que não constituam um risco, nem tragam sofrimento a si e a quem está à sua volta.
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