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Da prevenção ao tratamento: Qual o papel das vacinas no controlo do cancro?

19 Set 2025 - 08:45

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Da prevenção ao tratamento: Qual o papel das vacinas no controlo do cancro?

Quando se ouve falar em vacinas, o mais comum é pensar naquelas que nos dão desde muito pequenos para prevenir várias doenças. Mas também existem vacinas terapêuticas, um tipo de imunoterapia que serve para tratar cancro, com menos efeitos secundários e uma resposta mais personalizada do que outros tratamentos oncológicos, como a quimioterapia ou radioterapia.

Em Portugal, há poucas pessoas a serem sujeitas a este tipo de tratamento, já que só está disponível através de ensaios clínicos, mas Nuno Vale, professor na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP), acredita que o Serviço Nacional de Saúde (SNS) estará “na linha da frente para a utilização” desta terapia quando “houver evidência científica tremenda”.

“É através das vacinas que o cancro pode ser transformado numa doença crónica”, considera o docente.

O que são vacinas preventivas?

As vacinas que previnem cancro fazem parte do Plano Nacional de Vacinação. Duas das mais conhecidas são a vacina contra a hepatite B e a vacina contra o vírus do papiloma humano (HPV). 

A primeira é administrada em três doses: uma logo após o nascimento, outra quando o bebé tem dois meses e a última aos seis meses. A vacina do HPV (ou do cancro do colo do útero) é aplicada em duas doses aos 10 anos de idade. Até 2020, a vacina era administrada gratuitamente apenas a raparigas mas, desde outubro desse ano, rapazes nascidos a partir de 2009 podem também fazê-la aos 10 anos.

Como o nome — preventivas — indica, este tipo de vacinas não trata a infeção, apenas “treina” o sistema imunitário para reconhecer e combater aquele vírus.

Estas vacinas podem impedir de forma indireta o aparecimento de um cancro. A hepatite B é uma das causas mais conhecidas de cancro do fígado e o HPV pode conduzir a cancro do colo do útero, entre outros. Ao prevenir os vírus, previne-se o surgimento de certas doenças oncológicas.

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O que são vacinas terapêuticas?

Já as vacinas terapêuticas servem precisamente para tratar o cancro, ou seja, só podem ser administradas quando o doente já tem um diagnóstico de doença oncológica. Mas a sua utilização não é tão ampla como a das vacinas preventivas: “Essencialmente são utilizadas em ensaios clínicos”, não estão aprovadas para uso clínico alargado e não são uma primeira linha de tratamento, diz Nuno Vale.

Estes medicamentos, normalmente aplicados por via intravenosa ou injetados diretamente no tumor, estimulam o sistema imunitário dos doentes oncológicos, combatendo os tumores, mas não evitando que surjam. As vacinas não são administradas em simultâneo com outros tratamentos oncológicos, como a quimioterapia ou radioterapia para que se estude com maior precisão os seus efeitos específicos.

As vacinas são constituídas por antigénios, moléculas que obrigam o corpo a produzir anticorpos contra elas. O sistema imunitário deteta as células cancerígenas e destroi-as, poupando as células saudáveis, o que não acontece noutros tratamentos. 

A quimioterapia, por exemplo, tem “efeitos secundários muito severos e não é específica para as células de cancro, há uma grande quantidade de células saudáveis que acabam por fracassar”, nota o especialista. 

O que se tem observado na administração destas vacinas é que há efeitos secundários, mas muito mais fracos do que nos restantes tratamentos oncológicos: pode haver “aqueles sintomas habituais das vacinas, náuseas, comichão, vermelhidão na zona onde é aplicada”.

As vacinas mais eficazes, e aquelas que têm sido cada vez mais estudadas, são personalizadas para cada doente, podem ser feitas a partir do próprio tumor. Também há vacinas “mais genéricas”, “mas a personalização está a ocorrer por necessidade, para haver mais eficácia”, explica Nuno Vale.

Que avanços houve nos últimos anos?

Nos últimos anos “muitas [vacinas terapêuticas] falharam”, várias vezes devido à “tecnologia utilizada”. Mas em 2024, houve um novo “impulso” quando o primeiro ensaio clínico de uma vacina contra cancro do pulmão começou em sete países. “Os primeiros resultados foram muito positivos”, diz o docente. 

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O medicamento experimental está a ser utilizado em sete países — Reino Unido, EUA, Alemanha, Hungria, Polónia, Espanha e Turquia — e recupera a tecnologia presente nas vacinas da Covid-19. A vacina BNT116 utiliza o RNA mensageiro (mRNA), que apresenta ao sistema imunitário marcadores do Carcinoma Pulmonar de Não Pequenas Células (CPNPC, o tipo mais comum de cancro do pulmão), preparando o corpo para combater células cancerígenas onde esteja presente esse marcador.

“A tecnologia [do mRNA] não foi desenvolvida para a vacina da Covid-19, [os investigadores] estavam a pensar utilizá-la precisamente para vacinas contra o cancro”, explica Nuno Vale. Mas acabou por haver um incentivo para desenvolver aquela tecnologia muito mais rápido do que seria expectável graças à pandemia. De certa forma, o desenvolvimento célere das vacinas terapêuticas deve-se também à Covid-19

Em Portugal, há alguns ensaios clínicos, mas poucos — Nuno Vale não sabe ao certo quantos são, mas diz que a maior parte decorre no Instituto Português de Oncologia (IPO) do Porto. No entanto, existem mecanismos para que doentes portugueses possam participar em ensaios fora do país, mediante autorização do Infarmed, como já aconteceu em casos recentes, explica. “Isso é possível, mas depende muito da dinâmica interna do próprio hospital e depois da fase em que está o tumor”.

Nuno Vale acredita que, mais cedo do que tarde, a integração deste tipo de terapias no Serviço Nacional de Saúde (SNS) poderá acontecer “se os resultados forem promissores e houver evidência clínica robusta a nível europeu”.

As vacinas terapêuticas só podem ser administradas a pessoas que tenham um diagnóstico de cancro, esse é o primeiro critério de elegibilidade para um ensaio clínico como o que está a ocorrer para o tratamento do cancro do pulmão. O facto de a pessoa ter necessariamente de estar doente implica um envolvimento muito “intenso” dos médicos, tanto dos que irão conduzir o ensaio, como dos que acompanham o doente. “Muitas vezes, as pessoas não entram em ensaios clínicos porque não têm informação”, relata Nuno Vale.

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Outros critérios incluem o tipo de cancro, o estadio da doença e uma avaliação clínica detalhada, dependendo do ensaio clínico em questão.

Porque é que a personalização é importante?

“Estas vacinas têm informação sobre aquele tumor, e essa informação é crucial para que o sistema imunitário desenvolva as defesas necessárias para atacar as células de cancro”, explica Nuno Vale, que é também investigador principal do grupo de Medicina Personalizada do Centro de Investigação em Tecnologias e Serviços de Saúde. Isso significa que o tratamento deixa de ser apenas localizado — mesmo quando a vacina é injetada diretamente no tumor, a resposta do organismo pode abranger células tumorais que estejam espalhadas por diferentes partes do corpo. 

A grande vantagem é que as células imunitárias do próprio doente passam a ter a capacidade de “ir atrás” das células cancerígenas, independentemente de onde estas se encontrem no organismo. Essa abordagem não só aumenta a eficácia do tratamento, como permite prevenir a progressão da doença e diminuir o risco de metástases.

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Os tumores variam muito entre pacientes, tanto ao nível genético como na forma como evoluem. “Se isso varia de paciente para paciente, a vacina também tem de ser ajustada ao paciente”, defende o investigador. Segundo Nuno Vale, é essa personalização que poderá, no futuro, tornar o cancro numa doença crónica, passível de ser controlada com tratamentos de manutenção mais eficazes e menos agressivos.


Este artigo foi desenvolvido no âmbito do “Vital”, um projeto editorial do Viral Check e do Polígrafo que conta com o apoio da Fundação Champalimaud.

A Fundação Champalimaud não é de modo algum responsável pelos dados, informações ou pontos de vista expressos no contexto do projeto, nem está por eles vinculado, cabendo a responsabilidade dos mesmos, nos termos do direito aplicável, unicamente aos autores, às pessoas entrevistadas, aos editores ou aos difusores da iniciativa.

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19 Set 2025 - 08:45

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