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“Ouvir e esclarecer, sem julgar”: a importância de falar com os filhos sobre sexualidade e como fazê-lo

4 Set 2026 - 08:15

“Ouvir e esclarecer, sem julgar”: a importância de falar com os filhos sobre sexualidade e como fazê-lo

Falar sobre sexualidade com os filhos pode não ser fácil. Entre ter dúvidas sobre o momento certo para abordar o tema e o receio de não saber como responder a algumas perguntas, muitos pais acabam por adiar estas conversas. Mas criar um espaço de diálogo aberto, adequado à idade e sem julgamentos pode ajudar as crianças e os adolescentes a compreender melhor o próprio corpo, as relações e os limites.

A 4 de setembro, data em que se assinala o Dia Mundial da Saúde Sexual, Tânia Gaspar, psicóloga clínica e da saúde e diretora do Serviço de Psicologia, Inovação e Conhecimento (SPIC) da Universidade Lusófona, explica a importância de falar com os filhos sobre sexualidade desde cedo e como pode fazê-lo.

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Porque é que é importante falar com os filhos sobre sexualidade?

Para Tânia Gaspar, o diálogo sobre sexualidade “deve ser enquadrado em toda a comunicação que existe entre pais e filhos”, ou seja, “deve ser visto como qualquer outro tema da vida”. Tal como “ensinamos as crianças a comer, a fazer exercício, a relacionarem-se com os outros, a serem educadas”, temos de falar sobre isto, “que também é um assunto tão importante”.


A psicóloga admite que “é um tema sensível” de abordar. Em primeiro lugar, “continua a ser um assunto mais complexo de falar, de modo geral, na sociedade, na escola, etc.”.

Por outro lado, “entre pais e filhos ainda há uma maior inibição a este nível, porque, além de os pais, muitas vezes, não saberem como abordar estes temas, os filhos também se sentem mais intimidados a falar com os pais do que com os amigos, por exemplo”.


Apesar disso, “é importante que a educação sexual comece em casa”, sublinha-se num documento da Ordem dos Psicólogos Portugueses (OPP). “Os pais e mães ou cuidadores/as devem preparar-se para conversar sobre sexo e sexualidade de forma aberta e positiva, não só para que as crianças tenham acesso a informações corretas, mas para que desenvolvam uma compreensão saudável da sexualidade – essencial ao longo da vida”, lê-se.

Na perspetiva de Tânia Gaspar, “esta educação sexual deve vir desde muito cedo”, nomeadamente em relação a questões como privacidade e consentimento.

“Pode ser muito desconfortável”, mas é importante, “até porque vai ajudar a evitar uma série de situações abusivas”, explica a psicóloga.

Portanto, “quando os filhos têm dúvidas”, é essencial “poderem falar com os pais, e os pais devem ouvir e esclarecer, sem julgar”, sublinha.

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Quando e como fazê-lo?

Tânia Gaspar defende que as conversas sobre sexualidade devem ser introduzidas e exploradas ao longo da vida dos filhos, sendo fundamental adaptar a linguagem consoante a idade e maturidade.

“Obviamente, aos 3 anos não vou falar de penetração”, exemplifica. Nesta fase, deve-se “ajudar a criança a compreender e a conhecer o seu corpo”, bem como “a respeitar o seu corpo e o dos outros”.

Às vezes, “os pais não têm a perceção de que as crianças quando fazem certas perguntas não têm o mesmo conhecimento nem a mesma realidade que um adulto”, e “ficam assustados com determinadas questões que, segundo a ideia dos pais, são precoces”, explica. Mas, muitas vezes, “foi algo que as crianças ouviram e estão curiosas para saber o que é e até questionam os pais inocentemente”.

Enquanto psicólogos, “temos relatos de pais preocupados com isto desde os três anos, que é quando as crianças começam, por exemplo, a ter curiosidade pelos seus genitais”.

Nesta altura, há muitos pais “que ficam logo aflitos” e até “acabam por ser punitivos, por exemplo, batem e repreendem, como se aquilo fosse uma coisa má”.


Como não há uma explicação por parte dos pais, “a criança não percebe o que está a acontecer e fica com a ideia de que os pais ficaram muito zangados por uma coisa que ela não percebe o que tem de mal”.

Esta situação deve ser “tratada com mais calma, como uma coisa natural, com as indicações de adaptação social, para não haver comportamentos socialmente desajustados, mas sem esta questão de penalização”, esclarece.


Neste contexto específico, é importante ir explicando às crianças que “brincar com as suas partes do corpo é natural e privado (como ir à casa de banho)” e ajudar “a distinguir o que a criança pode fazer em público e em privado no que respeita ao seu corpo”, sugere-se no documento da OPP.

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Esta também é uma boa altura para, progressivamente, incluir temas como o consentimento. “Ensinar a criança sobre consentimento ajuda-a a entender que o corpo de cada pessoa é único e deve ser tratado com respeito”. Isso inclui “o direito de cada pessoa de dizer ‘não’ quando não se sente confortável”, acrescenta-se.

Se na infância estas conversas passam, sobretudo, por ensinar a conhecer e respeitar o próprio corpo e o corpo dos outros, na adolescência ganham novas dimensões. Esta é, muitas vezes, a fase em que os pais tentam iniciar conversas sobre sexualidade, mas nem sempre conseguem fazê-lo da melhor maneira.

“Hoje em dia, já não há ‘a conversa’, vamos aproveitando pequenos momentos em que eles fazem uma pergunta”, refere Tânia Gaspar. Mas nesta fase, em específico, em que surgem as mudanças físicas da puberdade, “é natural que os jovens mantenham esta intimidade protegida dos pais”.

Na perspetiva da psicóloga, os pais “não se devem sentir necessariamente ofendidos se os filhos não quiserem estar a falar abertamente sobre estes temas e devem respeitar a sua privacidade”. 


Neste contexto, o ideal é continuar a mostrar abertura ao diálogo e disponibilidade. Sempre que houver uma oportunidade para abordar questões relacionadas com sexualidade, a conversa deve ser feita com calma e sem julgamento.

Às vezes, os filhos colocarem uma simples dúvida sobre um método contracetivo pode levar a uma preocupação excessiva por parte dos pais. Esse tipo de reação pode assustar o adolescente e fazer com que não volte a fazer questões sobre o assunto.

Por outro lado, “também é importante haver respeito por parte dos pais”, no sentido de não forçarem os filhos a partilharem detalhes. Deve-se “dar espaço, porque o jovem tem a sua vida, a sua intimidade e também deve querer preservar isso”, aponta Tânia Gaspar.


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Esse equilíbrio e as conversas sobre sexualidade vão ser sempre muito mais fáceis se já houver um histórico de comunicação entre pais e filhos desde muito cedo. Há uma evolução natural, em que se abordam questões como consentimento, limites, respeito, relações e prevenção (seja de infeções sexualmente transmissíveis, seja de gravidezes não planeadas).

Como abordar o tema com um filho adolescente quando nunca falou sobre sexualidade?

Existe “cada vez mais acesso a informação massificada, muitas vezes descontextualizada”, começa por adiantar Tânia Gaspar. “Mesmo que os pais se esforcem muito, ao colocarem proibições” nas redes sociais e na internet, “basta um amigo na escola ter essas permissões” que eles passam a saber de coisas que de outra forma não saberiam tão cedo.

O que acontece, muitas vezes, é alguns pais quererem ter conversas sobre sexualidade de forma abrupta, “quando não criaram essa intimidade, nem essa abertura”, ao longo dos anos. Fazer isto, sobretudo na adolescência, “é difícil”, defende a psicóloga.

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Por isso, “o conselho que damos é, para quem tem filhos pequenos, comece a conversar sobre estes assuntos cedo”. Quem tem mais filhos crescidos, “é uma questão de um dia sentar-se com eles, ser honesto, dizer que há temas que deveriam ter sido falados antes, e dar espaço e abertura” para os jovens falarem sobre isso.

Por outro lado, há outras formas de dar informação. “Antigamente, os pais davam livros ou punham preservativos na gaveta dos filhos”.
Hoje em dia, há quem envie “artigos de sites fidedignos” sobre saúde, para “introduzir informação de uma maneira mais discreta”.

Além de dar informação, é preciso estar lá para os filhos, para os ouvir e não para os penalizar. “Tem de haver um exercício dos próprios pais de se acalmarem e respirarem, para conseguirem ter estas conversas” de forma produtiva. “É melhor que eles contem as coisas, até para a proteção deles, mas, para isso acontecer, os pais não podem julgar”. 

Muitas vezes, “os jovens só querem ser ouvidos”. Ouvir não significa concordar, é apenas “estar disponível” e haver uma confiança mútua “que previne que as coisas corram mal”. Isto também permite que, “se alguma vez, eles sentirem que algo não corre bem”, consigam confiar nos pais e falar com eles, sem serem julgados e punidos.

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4 Set 2026 - 08:15

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