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“Nobody wants this”: É possível ter uma relação saudável quando as crenças religiosas são diferentes?

12 Out 2024 - 09:31

“Nobody wants this”: É possível ter uma relação saudável quando as crenças religiosas são diferentes?

A relação entre Joanne, uma mulher agnóstica que tem um podcast sobre sexo, e Noah, um rabino recém-solteiro, é o centro da história de “Nobody Wants This” (“Ninguém Quer Isto”, em português), a série mais vista na Netflix nas últimas duas semanas, em Portugal e no Mundo.

Nas redes sociais, a série está a ser elogiada por muitos espectadores que a consideram um exemplo positivo do que deve ser uma relação amorosa saudável, sobretudo no que diz respeito à aceitação das diferenças (religiosas e não só), à comunicação aberta e à resolução de problemas.

Ao longo dos 10 episódios da primeira temporada, o principal desafio do casal é gerir as diferenças religiosas e lidar com a resistência de alguns amigos e familiares à união, sem prejudicar o futuro da relação. 

Partindo da ficção para a realidade, o Viral questionou Rute Agulhas, psicóloga clínica e forense, terapeuta familiar e de casal e membro da Ordem dos Psicólogos Portugueses (OPP), sobre como pode ser possível ter uma relação amorosa saudável quando os dois elementos do casal não têm as mesmas crenças religiosas.

É possível ter uma relação saudável com alguém que tem uma crença religiosa diferente?

Em declarações ao Viral, Rute Agulhas não nega que as relações entre pessoas com diferentes convicções religiosas têm desafios, mas começa por lembrar que, em todos relacionamentos, há diferenças com as quais é necessário lidar.

A psicóloga explica que “as pessoas são diferentes, têm bagagens culturais e valores diferentes”, formas distintas de ver o mundo e até “formas de ver a parentalidade e padrões educativos” distintos. Nesse sentido, “a diferença ao nível das crenças religiosas pode ser apenas mais uma”, salienta.

Por isso, a relação pode funcionar e as coisas poderão correr bem, “se houver disponibilidade” por parte de cada pessoa “para ceder e para fazer um esforço de integração daquela que é a crença da outra pessoa”, prossegue a especialista.

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Aliás, “aquilo que caracteriza uma relação saudável é a capacidade de ser complementar”. As pessoas de um casal devem ser como “duas peças de um puzzle que encaixam”, na medida que “essa complementaridade implica aceitação e integração da diferença”, defende.

No que diz respeito às crenças religiosas, isso pode significar cada elemento do casal ter “rituais diferentes”. Por exemplo, uma pessoa “celebra o Natal e a outra não, ou uma celebra o aniversário e o outro não celebra”.

Para explicar como esses rituais podem ser respeitados sem obrigar o outro a segui-los, Rute Agulhas dá o exemplo de um casal em que a mulher todos os domingos de manhã vai à igreja rezar: “Ele acompanha-a, vão juntos, mas ela entra na igreja e vai à missa, porque tem a sua fé, e ele fica cá fora à espera, vai beber um café”.

Neste caso, continua, nem ele “tem de ir” à igreja obrigado, “nem ela fica chateada por ele não entrar”, porque “há a aceitação da diferença e convive-se com esta diferença, integrando-a na relação e no dia a dia”.

No fundo, estas questões podem existir, mas, na perspetiva da especialista, “se houver um respeito pela posição do outro e pela crença do outro e se houver uma tentativa de integrar as diferenças, a relação pode correr bem”.

O desafio acaba por ser “o da aceitação, da integração, da diferença e do respeito”, como deve acontecer em qualquer relação.

O que não fazer: impor a crença ou tentar “converter” a outra pessoa

Um dos maiores problemas neste tipo de relações surge quando uma das pessoas “quer impor a sua crença e acha que a sua crença é mais correta” do que a da outra.

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Há quase uma tentativa de “converter o outro”, aponta a psicóloga. Quando as estratégias para atingir esse fim passam por “tentar impor, manipular e chantagear, as coisas provavelmente não vão ocorrer bem”, defende Rute Agulhas.

Isto porque “estamos a falar de duas pessoas adultas com uma determinada crença, que cresceram, muitas vezes, com essa crença ou têm valores que vêm das suas famílias de origem”. Assim sendo, a crença religiosa de alguém “não muda só porque sim ou só porque o outro insiste e tenta argumentar”, explica. 

Neste contexto, “às vezes, as coisas agudizam-se” e as suas posições tornam-se mais vincadas, realça a psicóloga.

À medida que isso acontece, “as pessoas ficam mais rígidas e depois é difícil conciliar” e encontrar um meio de “entendimento e de negociação”.

No fundo, salienta, “deixa de ser uma relação complementar e passa a ser uma relação assimétrica”.

Mesmo quando uma das pessoas da relação acaba por ceder sempre muito mais, “isto, naturalmente, traz ressentimento, frustração, revolta e raiva”, o que pode acabar por desgastar o compromisso.

Só é possível construir uma relação saudável através de “um processo de negociação” em que “ambas as partes cedem um pouco”, lembra a especialista.

Este tipo de processo implica “comunicar e falar abertamente sobre aquilo que se pensa e sente, sem juízos de valor, sem críticas destrutivas e sem gozo pelo que o outro acredita”.

Rute Agulhas alerta que esta comunicação não deve ser feita com expectativa de que se vai conseguir “mudar” ou “dar a volta” à outra pessoa, porque, nesse cenário, quando essa mudança não se concretiza, gera-se muita “frustração”.

Podem surgir “desafios acrescidos”, mas não “insuperáveis”

No momento em que o casal tem filhos pode haver uma dificuldade acrescida num contexto em que duas pessoas têm crenças religiosas diferentes.

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“É uma questão de particular importância”, porque “quando as pessoas não entram em acordo, pelo menos até aos 16 anos, nenhum dos pais pode impor a sua religião à revelia do outro, portanto tem de haver acordo”, explica Rute Agulhas.

Por exemplo, “um quer batizar o filho na Igreja Católica e o outro não quer”. Numa situação dessas, “quem não quer” pode chegar ao ponto de “recorrer ao tribunal para impedir que isso possa acontecer”, aponta.

Mas, mais uma vez, “se as pessoas estiverem juntas e houver esse respeito pela crença do outro, deve-se tentar encontrar um ponto de equilíbrio”, reforça a psicóloga.

Apesar de tudo, é “um momento mais desafiante” e em que alguns casos não conseguem “integrar estas diferenças”.

Outro desafio destas relações é a lidar com a “gestão das famílias de origem, dos amigos e das pessoas da comunidade religiosa” de cada membro do casal.

Na visão da psicóloga, gerir este cenário “nem sempre é fácil”, mas, salienta, estes “são desafios acrescidos, não são insuperáveis”.

Hoje em dia, “a diversidade é muito grande e a multiculturalidade também”, por isso, conclui, “é cada vez mais provável” surgirem casais com crenças religiosas diferentes.

Quando pode ser benéfico para o casal fazer terapia?

Na perspetiva de Rute Agulhas, é importante que as pessoas não peçam ajuda especializada apenas “como o último dos últimos recursos”.

Deve-se procurar ajuda, preferencialmente, “quando ainda não se chegou ao patamar da crítica, do desprezo, da raiva e do distanciamento”, refere.

A psicóloga conta que, muitas vezes, “os casais marcam terapia de casal com um psicólogo e, ao mesmo tempo, marcam com o advogado para o divórcio”, ou seja, “o objetivo da consulta é ‘separar melhor’”. 

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Nestes casos, já “nem é possível fazer uma abordagem terapêutica no sentido de manter o casal”.

Por isso, recomenda, “sempre que as pessoas comecem a sentir” que um determinado assunto “está a começar a gerar desacordo, crítica, mal-estar e sofrimento”, não devem “deixar escalar”.

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No mesmo sentido, também se deve “contrariar a ideia errada de que só os fracos é que vão pedir ajuda ou que temos de ser capazes de resolver tudo sozinhos”, salienta.

A terapia de casal e familiar pode, de facto, ajudar neste contexto (ver aqui, aqui, aqui e aqui). Segundo Rute Agulhas, “às vezes, a presença de uma terceira pessoa neutra, de fora, ajuda a ver as coisas de outra maneira, a pensar”.

Na terapia, cria-se também “um espaço de comunicação importante”, porque “há muitas pessoas que falam sobre coisas nas consultas que jamais falariam em casa”, conclui.

12 Out 2024 - 09:31

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