Morreu Ângela Pereira. O que é a aspergilose invasiva?
Morreu esta quinta-feira Ângela Pereira, a jovem de 23 anos que, há duas semanas, pedia, através da sua conta de Instagram, “ajuda, partilhas, uma segunda opinião” relativamente ao quadro clínico que apresentava. “Para mim, existe uma grande vontade de viver”, escreveu.
Ângela Pereira tinha sido diagnosticada com leucemia há três anos, tinha sido submetida a seis linhas de quimioterapia e a dois transplantes de medula óssea. Depois do último transplante, desenvolveu uma aspergilose invasiva “resistente a todos os antifúngicos disponíveis”, de acordo com um comunicado emitido pelo Instituto Português de Oncologia do Porto (IPO-Porto), onde era seguida.
A publicação de Ângela Pereira foi amplamente partilhada e pessoas próximas da jovem estabeleceram contacto com o Centro de Aspergilose Nacional do Reino Unido. Há cerca de uma semana, o Correio da Manhã avançou que a equipa médica que acompanhava Ângela Pereira estava em contacto com médicos dessa instituição para criar um novo plano de tratamento.
Mas, apesar dos esforços, o estado de saúde de Ângela Pereira terá piorado nos últimos dias.
O caso recebeu muita atenção nos meios de comunicação e nas redes sociais, e a aspergilose invasiva, uma infeção rara causada por um fungo, foi muito falada. Afinal, que doença é essa?
O que é a aspergilose invasiva? É diferente de outras infeções provocadas pelo mesmo fungo?
A aspergilose invasiva é uma forma grave de infeção fúngica provocada pelo fungo Aspergillus, um bolor comum no ambiente que não costuma causar problemas em pessoas saudáveis.
“A maioria das pessoas é naturalmente imune e não desenvolve doenças causadas pelo Aspergillus”, lê-se no site do Centro Nacional de Aspergilose do Reino Unido. “Para aqueles que inalam o bolor Aspergillus e têm um sistema imunitário saudável, o corpo geralmente isola-o e destrói-o antes que ele se espalhe para os pulmões”
Mas, no caso de pessoas com pulmões danificados ou sistemas imunitários mais enfraquecidos, “respirar os esporos pode levar a doenças, que podem ocorrer de várias formas diferentes”.
“A condição não é contagiosa e não pode ser transmitida entre pessoas ou animais”, sublinha-se no texto.
Há outras doenças que podem ser provocadas por este fungo, como o aspergiloma, que é uma espécie de “bola fúngica” que pode surgir em áreas onde já houve doença ou onde há uma cicatriz — acontece, por exemplo, em casos de pessoas que tenham tido tuberculose.
Mas a aspergilose invasiva, a que Ângela Pereira desenvolveu após um transplante de medula óssea, é a mais grave das doenças provocadas por este fungo porque pode invadir e destruir ativamente tecido pulmonar e até espalhar-se para outras partes do corpo. Também por isso é potencialmente fatal.
Quais são os fatores de risco para desenvolver esta infeção?
Esta infeção surge quase exclusivamente em indivíduos com sistemas imunitários debilitados, afetando essencialmente doentes com problemas hemato-oncológicos, doentes submetidos a transplantes ou pessoas com infeções por VIH, lê-se num artigo que descreve um caso clínico, publicado na Acta Médica Portuguesa.
Podem ser fatores de risco outras condições que também diminuam o número ou a função dos glóbulos brancos.
Em alguns casos, muito menos frequentes, pode surgir devido a corticoterapia sistémica (uso prolongado de corticoides).
Quais são os principais sintomas?
Os sintomas iniciais podem assemelhar-se aos de uma pneumonia comum, incluindo febre, tosse, dor no peito, chiadeira e dificuldade respiratória que piora progressivamente. O muco nasal pode tornar-se muito abundante e ter sangue e é possível registar-se uma perda de peso significativa.
Pode ainda provocar dores de cabeça, lesões cutâneas, problemas de visão ou outros sintomas, dependendo dos órgãos afetados para além dos pulmões.
Quando o coração é afetado, é possível que o doente desenvolva uma endocardite, uma infeção do revestimento interno do coração, que pode ser tratada cirurgicamente ao substituir as válvulas afetadas.
Como se faz o diagnóstico?
É comum suspeitar-se que há presença de qualquer forma de aspergilose quando, após um raio-X aos pulmões, os profissionais de saúde notam que a imagem dos pulmões não aparece inteiramente a preto, mas há uma espécie de mancha branca, que parece uma nuvem no exame.
Também se podem fazer outros exames de imagem, como tomografias computadorizadas (TAC). A biópsia do tecido é outro dos métodos para confirmar a natureza da infeção e é possível ainda fazer análises para detetar a presença do fungo no organismo.
Para terem a certeza do diagnóstico, os profissionais de saúde recorrem a uma combinação de vários exames.
Como se pode tratar?
A aspergilose invasiva tem “habitualmente um mau prognóstico”, lê-se numa descrição de um caso clínico publicado na Acta Médica Portuguesa.
O tratamento baseia-se em medicamentos antifúngicos potentes, que podem ser administrados oralmente ou por via intravenosa.
O prognóstico está dependente de outras doenças que o indivíduo possa ter e do sistema imunitário. “Se a aspergilose invasiva não melhorar com os medicamentos utilizados, pode, eventualmente, levar à morte”, lê-se no Medline Plus, uma plataforma governamental dos Estados Unidos que disponibiliza informação sobre saúde.