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Mais filhos, menos risco? 7 mitos e verdades sobre o cancro do ovário

8 Mai 2025 - 10:21

Mais filhos, menos risco? 7 mitos e verdades sobre o cancro do ovário

O cancro do ovário é um dos tumores ginecológicos mais difíceis de detetar em fases iniciais. Segundo a Liga Portuguesa Contra o Cancro, são diagnosticados mais de 300 mil casos novos por ano mundialmente.

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É menos comum do que outros tipos de cancro (como o da mama ou do colo do útero), mas continua a ser uma das principais causas de morte por doença oncológica. Isto porque os sintomas surgem tardiamente e não há rastreio recomendado para a população.

A propósito do Dia Mundial do Cancro do Ovário, que se assinala a 8 de maio, Joana Bordalo e Sá, oncologista e presidente da Federação Nacional dos Médicos (FNAM), esclarece, em declarações ao Viral, sete mitos e verdades sobre esta doença.

Não ter filhos aumenta o risco de desenvolver cancro do ovário?

“Não ter filhos, aquilo a que chamamos nuliparidade, confere um risco aumentado, sim”, confirma Joana Bordalo e Sá.

É, portanto, seguro afirmar que há uma associação entre a ausência de filhos e o aumento do risco de cancro do ovário — as mulheres que nunca engravidaram têm maior probabilidade de desenvolver a doença.

Por outro lado, a ideia de que, quanto mais filhos uma mulher tem, menor será o risco de ter cancro do ovário gera dúvidas. “Isso já não podemos afirmar. Não há evidência científica suficientemente sólida para afirmar que o risco continua a diminuir proporcionalmente com o número de gestações”, continua a especialista em oncologia.

E a pílula contracetiva?

Neste caso, a resposta da médica é clara: “sim”. A toma prolongada do contracetivo oral tem um efeito protetor e “bem documentado em diversos estudos”, acrescenta a presidente da FNAM.

Isto está relacionado “com os processos da biologia da ovulação”, como explica Joana Bordalo e Sá. Por inibir a ovulação normal, diminuindo o número de alterações celulares nas estruturas ováricas ao longo da vida reprodutiva, consequentemente, reduz o risco de mutações malignas.

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Aliás, dados divulgados pelos Centros de Controlo e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC, na sigla inglesa) indicam que as mulheres que usaram contraceptivos orais têm reduzido para metade o risco de desenvolver cancro do ovário.

Ademais, esta proteção parece persistir no tempo. Vários estudos apontam para que, mesmo depois da interrupção da toma da pílula, o risco diminuído se tenha mantido por mais de 10 anos.

O diagnóstico do cancro do ovário faz-se através do Papanicolau?

“Isso é completamente falso”, explica a médica oncologista. O Papanicolau é um exame fundamental para o rastreio do cancro do colo do útero, mas não é o exame que serve para detetar o cancro do ovário.

A especialista explica que, “quando são detetadas células anómalas num Papanicolau, o habitual é serem provenientes de um cancro do colo do útero”. Ainda assim, salvaguarda que, “em casos muito avançados, o cancro do ovário pode manifestar-se indiretamente no colo do útero, mas o Papanicolau continua a não ser a via de diagnóstico”.

O diagnóstico de cancro do ovário é, normalmente, feito com recurso a exames de imagem, como a ecografia e a TAC (tomografia computadorizada), e, posteriormente, confirmado com biópsia ou cirurgia.

O cancro do ovário é frequentemente diagnosticado numa fase inicial?

Infelizmente, “a maioria dos diagnósticos, cerca de 80%,  é feita quando a doença já está numa fase avançada”, explica Joana Bordalo e Sá. Isto deve-se ao facto de ser “um cancro silencioso” e de não haver um “rastreio previsto para a população”. 

“Os sintomas iniciais são vagos e confundidos com outras condições”, continua a oncologista, que acrescenta que, “por se tratar de um órgão tão ‘interno’, para começar a haver sintomas é porque [o tumor] já está muito grande ou já passou para outros órgãos”.

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Alterações intestinais, aumento do volume abdominal, queixas urinárias, perda de peso ou até falta de ar podem ser sinais de alarme, mas, muitas vezes, surgem tarde. 

Ovário poliquístico pode evoluir para cancro do ovário?

Não está provado que a Síndrome do Ovário Poliquístico (SOP) evolua para cancro. “Pode haver uma associação entre as duas”, refere a especialista, “mas não quer dizer que seja causal”, sublinha.

A SOP, contudo, pode estar relacionada com outro cancro ginecológico — o cancro do endométrio. As mulheres com ovários poliquísticos têm, segundo algumas investigações, três vezes mais probabilidade de desenvolver cancro do ovário. 

A maioria dos casos tem origem hereditária?

“Não. Quando as mutações hereditárias BRCA acontecem, sabemos que essas mulheres têm um risco aumentado de ter cancro da mama e do ovário. Mas esses casos são minoritários, clarifica a presidente da FNAM.

Aliás, a maioria dos diagnósticos não tem origem genética identificável. “O não ter tido filhos biológicos é mesmo das condições mais frequentes associadas”, sublinha.

Há, contudo, outros fatores de risco a ter em conta. “A menarca precoce, a menopausa tardia, a ausência de uso de contracetivos orais” são alguns exemplos apontados por Joana Bordalo e Sá. Além disso, a idade é um fator a ter em atenção. Segundo a Liga Portuguesa Contra o Cancro, a maioria das mulheres diagnosticadas tem mais de 55 anos.

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Se tenho antecedentes familiares, devo remover os ovários?

“A remoção profilática dos ovários é eficaz para prevenir o cancro, mas não se aplica a todas as mulheres”, adianta a especialista em oncologia. 

“Só no caso de haver mutações hereditárias nos genes BRCA1 e BRCA2 é que se pondera a remoção dos ovários. Havendo esta mutação hereditária, justifica-se a vigilância apertada e, em alguns casos, a cirurgia”. 

Até nesses casos, a remoção dos ovários, “normalmente, só é feita depois de a mulher ter completado o seu ciclo reprodutivo”, destaca Joana Bordalo e Sá.

 

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