Paracetamol causa autismo e AVC é provocado por vacinas da Covid-19. As mentiras sobre saúde que marcaram 2025
A saúde é um terreno fértil para a desinformação — não é novidade, repete-se todos os anos. Em 2025, vários líderes políticos e figuras públicas impulsionaram narrativas falsas e mitos sobre saúde.
O Presidente dos Estados Unidos afirmou que a toma de paracetamol na gravidez era a causa do aumento de casos de autismo. Em Portugal, Gustavo Santos insinuou que Nuno Markl tinha tido um AVC devido à vacina da Covid-19 e, nas redes sociais, circulou a ideia de que correr fazia a pele envelhecer mais rápido.
Estas foram só algumas das muitas mentiras que suscitaram alarmismo sem fundamento. Durante todo o ano, no Viral, estivemos atentos a novas narrativas falsas, verificamos factos junto de especialistas e explicamos o que diz a evidência.
Eis as cinco mentiras sobre saúde que marcaram este ano.
1 – Paracetamol na gravidez é a causa do aumento dos casos de autismo
“O uso de paracetamol durante a gravidez pode estar associado a um grande risco de autismo”, afirmou o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, numa conferência de imprensa na Casa Branca em setembro.
Trump afirmou mesmo que o fármaco era o responsável pelo aumento de casos de autismo e recomendou que as grávidas não o tomem, exceto em casos de febre muito alta.
Na altura, o psiquiatra Carlos Filipe e o especialista em Medicina Geral e Familiar Paulo Santos disseram, em declarações ao Viral, que não há qualquer evidência que sustente as afirmações de Trump.
“O autismo tem uma causa predominantemente genética”, explicou o psiquiatra. É possível que haja vários fatores que contribuam para o aparecimento do autismo, mas o único comprovado é a idade do pai e a diferença de idades entre o pai e a mãe.
“Quando existe a passagem dos genes do pai e da mãe para a criança, os genes com mais idade são, de facto, mais propensos a dar erros nessa transmissão”
A questão do paracetamol levantada por Trump pode ter surgido a propósito de “trabalhos observacionais que apontam no sentido de poder haver uma relação entre o paracetamol e o autismo”, sublinhou Paulo Santos. E esses estudos não provam qualquer causalidade porque há vários fatores confundidores difíceis de isolar.
“Quando se ajusta para o facto de algumas crianças terem o mesmo componente genético, essa associação entre o paracetamol e o autismo desaparece”, explica o médico. O que significa que “o componente genético justifica mais o aparecimento de um caso de perturbação do espetro do autismo do que propriamente a toma do paracetamol”.
O Infarmed reforçou que o uso do paracetamol mantém-se inalterado na União Europeia e pode ser utilizado para reduzir a dor ou a febre durante a gravidez, se clinicamente necessário.
Além disso, nem sequer é certo que haja um aumento do número de casos de autismo: “Os critérios de diagnóstico de autismo foram de tal forma alargados que hoje são classificados como tendo autismo pessoas que, há uns anos, nunca teriam sido classificadas como tal”, explicou Carlos Filipe.
E a Federação Portuguesa de Autismo (FPA) refere a existência de um aumento nos últimos 30 anos, mas “este crescimento pode, em parte, ser resultado de uma maior consciencialização relativamente ao autismo, das mudanças nos critérios de diagnóstico do autismo e do facto de as crianças serem diagnosticadas cada vez mais cedo”.
2 – O AVC de Nuno Markl foi provocado pela vacina de Covid-19
O humorista Nuno Markl sofreu um acidente vascular cerebral (AVC) no final de novembro. Pouco tempo depois, o ex-apresentador e escritor Gustavo Santos publicou um vídeo: “Acorda, Nuno”, começava por dizer.
Entre outras características — “pré-obeso”, “flácido” —, descrevia Markl como “pró-vacinas com orgulho”, e incentivava-o a “questionar a ciência” e pesquisar os riscos da “picada que andou a promover”, referindo-se à vacina da Covid-19.
Nas redes sociais, a narrativa repetia-se: a vacina da Covid-19 era a “culpada” do AVC hemorrágico de Nuno Markl. Essa ideia é falsa e não tem qualquer fundamento científico ou lógico. Quem o disse foi Rui Araújo, neurologista, no “Vamos aos Factos”, o programa de rádio semanal do Polígrafo e da TSF, quando o locutor foi a figura da semana.
“Não há qualquer fundamento para a ideia de que o AVC tenha sido causado pela toma da vacina”, afirmou o especialista, sublinhando que “não há qualquer associação lógica”.
A vacina tem associado “de forma muito rara”, “muitíssimo pontual”, um “tipo específico de AVC”, a trombose venosa cerebral, o que não é o caso de Nuno Markl, que teve um AVC hemorrágico.
O mais comum é esses casos serem desencadeados por “hipertensão arterial”. Associar a toma da vacina a um AVC é “perigoso e absolutamente falacioso”, considerou Rui Araújo, já que pode “induzir medo nas pessoas, um receio infundado” que pode levar a “desfechos desfavoráveis” como não tomar vacinas recomendadas. “É absolutamente danoso para a saúde pública”.
Não faz sentido “associar um evento esporádico a outro evento esporádico”, “não é assim que a ciência se faz nem é assim que a lógica opera”.
3 – Ivermectina cura cancro
Este não é um mito recente, mas voltou a ser amplamente discutido quando, em janeiro, o ator Mel Gibson afirmou que três amigos curaram cancros em estadio IV com a toma de ivermectina e de fenbendazol, dois antiparasitários.
Gibson era o convidado daquela semana do podcast do norte-americano Joe Rogan, que conta com mais de 20 milhões de seguidores no Youtube.
Com uma audiência tão vasta é de esperar que a afirmação, que Mel Gibson apresentou como sendo certa e comprovada, tenha chegado a muitas pessoas. Mas não há evidência que sustente o que foi dito pelo ator.
A ivermectina é “um agente antiparasitário de largo espectro, incluído na lista de medicamentos essenciais da Organização Mundial da Saúde (OMS) para várias doenças parasitárias”, lê-se num texto da OMS.
Mas o cancro não é um parasita. “O cancro ocorre nas nossas células, não é um microorganismo [externo]. Se fosse um parasita, seria possível transmiti-lo, mas sabemos que o cancro não se ‘pega’”, dizia a oncologista no Hospital Lusíadas de Lisboa Daniela Macedo, em 2024, em declarações ao Viral.
Os estudos que mostram algum potencial efeito da ivermectina na inibição de células cancerígenas foram feitos in vitro.
O fenbendazol só pode ser utilizado em animais, não está aprovado para uso em humanos. A American Cancer Society diz que, ainda que haja alguns relatos de histórias de “sucesso”, grande parte desses pacientes estava a fazer terapias comprovadas em paralelo, logo isso não serve de prova. A organização diz que são necessários mais estudos.
4 – Fluoretação da água é nociva para a saúde
Ainda antes de ser eleito como secretário da Saúde dos Estados Unidos, Robert Kennedy Jr. já tinha deixado claro que “a Casa Branca de Trump” iria “aconselhar todos os sistemas de abastecimento público norte-americanos a remover o flúor da água para consumo”.
Alguns meses depois, em abril, o estado do Utah aprovou uma lei que segue a linha de pensamento do secretário da Saúde norte-americano: deixou mesmo de se adicionar flúor à água para consumo.
Robert F. Kennedy Jr. diz que o flúor está associado a problemas como “artrite, fraturas, cancro nos ossos, perda de QI, doenças do neurodesenvolvimento e problemas de tiroide”.
Mas a fluoretação da água com quantidades controladas não representa um perigo para a saúde. Os efeitos nocivos só se verificam a partir de 1,5 miligramas por litro de água. Nos Estados Unidos há verificações constantes desse valor, que nunca ultrapassa os 0,7 mg/L.
A American Dental Association divulgou vários estudos que comparam comunidades que têm água fluoretada com outras que não têm. Na altura, Paulo Rompante, professor universitário no Instituto Universitário de Ciências da Saúde (CESPU), disse, em declarações ao Viral que as conclusões eram muito simples: “As que não têm água fluoretada têm a saúde oral má ou miserável, as outras não”.
Um estudo dos Institutos Nacionais de Saúde (NIH) dos Estados Unidos, publicado em janeiro, foi amplamente utilizado como argumento para sustentar a proibição da fluoretação da água.
A monografia analisou 74 estudos de 10 países diferentes e afirma que o QI de crianças com maior exposição a flúor é mais baixo. O estudo era feito com base na análise à concentração de flúor na urina, e não diretamente na água.
A grande impulsionadora local desta medida foi a republicana Stephanie Gricius, que garantiu que esta é uma questão de “liberdade individual”. Já o especialista consultado pelo Viral considerou que se tratava de “uma decisão política” e sublinhou: “Quem estuda [o tema] está a rir-se disso”.
Os resultados não serão visíveis a curto prazo, mas daqui a alguns anos Paulo Rompante prevê que “a saúde oral [naquele estado] piore drasticamente”.
5 – Correr acelera o envelhecimento da pele e causa rugas
É uma ideia amplamente partilhada nas redes sociais: quem corre fica com runner’s face (rosto de corredor, em português) — isto significa que correr acelera o envelhecimento da pele e provoca rugas, logo, supsotamente, quem corre fica com esses sinais mais evidenciados.
Quando a tendência começou a ganhar mais tração nas redes sociais, o Viral falou com o dermatologista e professor da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra (FMUC) Ricardo Vieira.
O especialista disse que essa designação “é de cariz meramente popular” e refere-se à “tendência dos corredores de fundo de possuírem menor espessura de gordura subcutânea, o que lhes poderá conferir uma menor volumetria do rosto, com acentuação das feições”.
Runner’s face “não corresponde a nenhuma entidade medicamente reconhecida e confunde um menor volume facial com envelhecimento da pele, que não são a mesma coisa”.
O envelhecimento pode ser intrínseco ou extrínseco e a exposição solar é o principal fator ambiental relacionado com o envelhecimento extrínseco, sublinhou o dermatologista. Ao longo do tempo, a pele vai ficando com rugas profundas, flacidez e hiperpigmentação”.
Ou seja, não é a corrida que provoca envelhecimento, mas o facto de muitos corredores fazerem atividade física ao ar livre de forma prolongada. Estes efeitos são ainda mais marcados se não se usar protetor solar nem vestuário protetor, como chapéu/boné.
A prática de exercício físico como a corrida tem, na verdade, um impacto positivo na pele. “É um indutor da síntese do colagénio e promove uma inibição do stress oxidativo, contribuindo favoravelmente para a saúde e aspeto da pele”, defende o médico.