Medo, ansiedade e tristeza. Os danos dos incêndios florestais na saúde mental da população
Os incêndios florestais têm ocupado os principais espaços noticiosos na rádio, na televisão, na imprensa e no digital. Só este ano, em Portugal, já arderam mais de 274 mil hectares. Mas os danos dos fogos não são apenas materiais, afetando também a saúde. Os efeitos mais conhecidos estão relacionados com o impacto do fumo no sistema respiratório e cardiovascular, mas, neste cenário, também a saúde mental pode sofrer.
Que impacto têm os incêndios florestais na saúde mental da população?
Um incêndio florestal pode ser uma situação traumática para as vítimas dos fogos, mesmo depois de o perigo passar, tal como se explica no guia prático “Como recuperar emocionalmente de situações de incêndio”, elaborado pela Ordem dos Psicólogos.
Segundo este guia prático, “após o incêndio, é natural sentirmos medo do que o futuro nos reserva; ficarmos em choque e sentirmo-nos incapazes de reagir”.
“Podemos, também, sentir tristeza ou raiva e um sentimento de injustiça de vermos a nossa segurança e o que construímos ter sido ameaçado ou consumido pelas chamas”, acrescenta-se.
No mesmo sentido, num texto publicado no site da Associação Americana de Psiquiatria refere-se que sentir “ansiedade avassaladora, preocupação constante, dificuldade em dormir e outros sintomas típicos da depressão são reações comuns antes, durante e depois dos incêndios florestais”.
Isto acontece porque, tal como referia o psicólogo Tiago Pereira em declarações anteriores ao Viral, a exposição a este tipo de situações “tem um impacto muito significativo na saúde mental e no bem-estar”.
Em situações de desastre natural, como um incêndio florestal, são postos em causa três fatores importantes para o bem-estar geral: “a sensação de controlo sobre as nossas vidas, a previsibilidade e a segurança”, justificava o psicólogo.
A sintomatologia desencadeada pelo stress deste tipo de situações “tende a desvanecer-se”, explicava Tiago Pereira. No entanto, quando esses sintomas se mantêm, “há um risco do ponto de vista da saúde mental”.
No guia da Ordem dos Psicólogos, sublinha-se que “cada pessoa reage à sua maneira e ao seu ritmo – não há o certo e o errado; são reações naturais as que virmos manifestarem-se”, mas há alguns sinais de alerta que merecem particular atenção, sobretudo se durarem há mais de um mês.
Algumas dessas “bandeiras vermelhas” passam por “perder o interesse em coisas que antes davam prazer”, “recorrer ao consumo de álcool ou outras substâncias de forma frequente” e “sentir dificuldades na realização de tarefas e cumprimento das responsabilidades habituais”.
São também sinais de alerta: “não ter um sono reparador e/ou ter pesadelos sobre os incêndios”, “evitar a todo o custo lugares, pessoas ou atividades que nos relembrem os incêndios” e “estar sempre em modo alerta, assustarmo-nos com facilidade, sentir dificuldade em relaxar e em sentirmo-nos seguros/as”.
É preciso também prestar atenção a mudanças de comportamentos como “irritarmo-nos com facilidade e termos comportamentos agressivos, por exemplo, gritar com familiares, gritar com desconhecidos ou ser agressivo/a”.
Em caso de sentir necessidade de ajuda psicológica, a Ordem dos Psicólogos recomenda ligar para o Serviço de Aconselhamento Psicológico SNS24, disponível através do 808 24 24 24.
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