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Massajar este ponto atrás da orelha ajuda a dormir melhor? O que diz a ciência

21 Fev 2025 - 09:14

Massajar este ponto atrás da orelha ajuda a dormir melhor? O que diz a ciência

Está a preparar-se para dormir, quando se lembra que viu no Instagram um vídeo sobre um método de relaxamento para dormir melhor. “Caso ninguém lhe tenha dito, pode massajar este ponto atrás da sua orelha e dormir como um adolescente”, alega-se na publicação em causa.

A técnica divulgada nas redes sociais consiste em massajar “o alto por trás da orelha”, fazendo “pequenos círculos”, durante um a dois minutos. No vídeo, aconselha-se que esta massagem seja feita de ambos os lados.

Esta prática tem por base a acupressão, uma técnica da medicina tradicional chinesa que segue os mesmos princípios da acupuntura, mas sem utilizar agulhas. O propósito é aplicar pressão com as mãos sobre determinado ponto como forma de tratamento de determinados problemas de saúde. 

Dormir mal é um problema que afeta cerca de metade da população adulta portuguesa. Um inquérito realizado pela Sociedade Portuguesa de Pneumologia (SPP) e pela Sociedade Portuguesa de Medicina do Trabalho (SPMT) revela que “46% dos portugueses com idade igual ou superior a 25 anos dorme menos de seis horas por dia”, enquanto “21% diz que demora mais de 30 minutos para adormecer”.

Mas será que esta massagem pode ajudar a melhorar a qualidade do sono? Hugo Canas Simião, psiquiatra, somnologista na Clínica Teresa Rebelo Pinto de Psicologia do Sono e autor da página Psiquiatra do Sono, explica ao Viral o que diz a ciência sobre esta técnica.

Massajar ou aplicar pressão neste ponto atrás da orelha ajuda a dormir melhor?

Massajar a zona por trás da orelha não faz parte das recomendações europeias para o tratamento de insónias, afirma Hugo Canas Simião. Contudo, o especialista reconhece que esta prática pode ter efeitos positivos para algumas pessoas.

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“Existe alguma evidência de que a acupressão pode ter efeitos positivos, mas não a suficiente para afirmar que esta prática é eficaz no tratamento da insónia”, garante o especialista. 

O somnologista acrescenta ainda que a acupressão “parece ter mais evidência quando a pressão ou massagem é aplicada na base do polegar do que quando aplicada na zona por trás da orelha – mencionada nas redes”.

De facto, nas diretrizes europeias para o diagnóstico e tratamento da insónia refere-se que as medicinas alternativas – como a acupuntura, acupressão, aromaterapia, reflexologia podal, homeopatia, entre outros – “não são recomendadas para o tratamento da insónia devido à falta de evidência”.

Apesar de este não ser um tratamento para a insónia validado pela ciência, Hugo Canas Simião reconhece que pode ter benefícios para algumas pessoas: “A evidência não é robusta, mas existem estudos que mostram que pode ter resultados e, sobretudo, que é seguro”.

O especialista sublinha que, sendo uma prática da medicina tradicional chinesa, a explicação para esta técnica “passa por um conjunto de pressupostos” que são distintos dos reconhecidos pela medicina convencional.

Existem alguns artigos sobre os potenciais efeitos da acupressão na melhoria da qualidade do sono, mas a maioria dos ensaios apresenta limitações metodológicas ou enviesamentos.

Isto porque, como se refere numa revisão sistemática (publicada em 2016), existe “um desafio metodológico sério” na realização dos estudos sobre acupressão, uma vez que é difícil criar ensaios clínicos duplamente cegos, ou seja, em que os participantes não saibam se fazem parte do grupo experimental ou de controlo.

No mesmo artigo, o grupo de investigadores concluiu que a acupressão pode melhorar entre 13% e 19% a qualidade do sono (com base no Index de Qualidade de Sono de Pittsburgh – um questionário que permite perceber a qualidade do sono do indivíduo). No entanto, o ponto mais vezes analisado nos 38 estudos considerados para esta meta-análise está localizado no pulso (conhecido como ponto HT7 ou Shenmen).

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Também numa revisão sistemática e meta-análise, publicada em 2020, sugere-se que a acupressão auricular “pode ser promovida como um possível método alternativo para o controlo da pressão arterial e do sono” em pacientes com hipertensão e insónia. Também neste artigo, refere-se que são necessários ensaios clínicos para contornar as limitações existentes na literatura.

Hugo Canas Simião reconhece que o ato de aplicar pressão numa determinada área pode “desviar a atenção do indivíduo para esse ponto” e, por consequência, afastar a atenção de “qualquer preocupação ou pensamento” que possa estar a prejudicar o sono. O médico reconhece que existe alguma evidência de que a pressão pode “criar algum tipo de relaxamento”.

O especialista refere ainda que as duas explicações possíveis – foco e relaxamento – fazem também parte das técnicas recomendadas para o tratamento da insónia. 

Por isso, considera que esta prática pode ser utilizada pontualmente para “ajudar a adormecer”, uma vez que não constitui qualquer risco para a saúde do indivíduo.

Reforça, contudo, “que a evidência não é suficientemente robusta para tratar insónias” e, por isso, “caso haja uma persistência da insónia, será recomendável recorrer a estratégias mais eficazes – nomeadamente cognitivo-comportamentais – ou procurar aconselhamento médico”.

Existem várias técnicas cientificamente comprovadas para melhorar a qualidade do seu sono: tornar o quarto mais agradável para dormir, criar uma rotina com uma hora fixa para dormir, evitar cafeína, nicotina ou álcool perto da hora de deitar, evitar sestas durante o dia ou realizar atividades físicas regularmente.

Poderá também fazer terapia cognitivo-comportamental para a insónia – uma abordagem cognitiva, comportamental e psico-educativa que se foca nas causa e sintomas da insónia. Além da terapia cognitiva, esta técnica inclui ainda terapia de relaxamento ou meditação, criação de hábitos de dormir, terapia de restrição de sono e terapia de controlo de estímulos (a fim de manter o ritmo circadiano).

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Em casos graves de insónia, poderá ser necessário tomar medicamentos apropriados para esta condição. Antes de tomar qualquer fármaco para dormir, o paciente deverá aconselhar-se junto do seu médico.

Em suma, aplicar pressão ou massajar a parte de trás da orelha pode ajudar algumas pessoas a relaxar antes de dormir, no entanto, não é uma técnica considerada eficaz para o tratamento de insónia. São precisos mais estudos para obter conclusões mais robustas.

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Sono

21 Fev 2025 - 09:14

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