Mais de metade da população está infetada com a Helicobacter pylori? É motivo de preocupação?
“Estima-se que mais de metade da população esteja infetada com uma bactéria que aumenta o risco de cancro do estômago”. A afirmação surge num vídeo partilhado no TikTok sobre a Helicobacter pylori (ou H. pylori), uma bactéria que se instala na mucosa gástrica e pode provocar uma infeção no estômago. Mas será que a estimativa partilhada no TikTok corresponde à realidade?
É verdade que mais de metade da população está infetada com h. pylori?
Em declarações ao Viral, Marco Silva, gastroenterologista nos Hospitais Trofa Saúde, adianta que a infeção crónica por H. pylori é uma das “mais comuns no ser humano” e, “durante várias décadas”, os dados mostravam que mais de metade da população estava infetada, mas atualmente já não é bem assim.
“A prevalência em alguns países ainda pode ser superior a 80% na idade adulta”, mas “os estudos epidemiológicos mais recentes referem que a prevalência mundial em adultos desceu para cerca de 45% na última década”, adianta Marco Silva. Portanto, a nível global, “já não é rigoroso dizer ‘mais de metade’”, defende o médico.
A prevalência não é uniforme e está geralmente “relacionada com as condições socioeconómicas e de saneamento a que cada geração foi exposta na infância, que é quando a infeção é tipicamente adquirida”.
O número de casos é superior “em África (cerca de 70-80%), na América Latina (cerca de 60%) e na Ásia (cerca de 55%) e mais baixa na América do Norte (cerca de 35%) e na Oceânia (cerca de 25%)”, explica o especialista (ver também aqui).
Segundo um texto publicado no balcão digital do Serviço Nacional de Saúde (SNS 24), Portugal é “um dos países europeus com maior número de casos” de infeção por H. pylori.
“Estudos de coorte nacionais [ver aqui, aqui e aqui] encontraram uma prevalência superior a 70% entre os 18 e os 30 anos, subindo para mais de 88% acima dos 40 anos”, adianta Marco Silva.
É motivo de preocupação?
Na perspetiva do gastroenterologista, os dados são “motivo de atenção, mais do que de alarme”. A maioria das pessoas infetadas “nunca vai desenvolver doenças diretamente relacionadas com a bactéria”, sublinha.
De facto, “a Helicobacter pylori é classificada pela Organização Mundial de Saúde como um agente carcinogénico do Grupo 1, o mesmo grupo do tabaco”. Apesar de esta infeção ser “o principal fator de risco isolado para o cancro do estômago”, não significa que todas as pessoas com a bactéria vão desenvolver cancro.
Segundo o especialista, “Portugal, em particular o norte do país, apresenta uma alta prevalência de adultos infetados com Helicobacter pylori e mesmo uma pequena percentagem de complicações representa um peso significativo de doença a nível populacional”. Essa combinação “justifica que se leve o tema a sério”, defende o médico.
A transmissão da H. pylori “ocorre sobretudo de pessoa para pessoa, através do toque com as mãos de pessoas infetadas, após contacto com fezes, saliva, água e/ou alimentos contaminados”, lê-se no texto do SNS 24.
Pode ainda transmitir-se “através do beijo ou outro tipo de contacto próximo, razão pela qual esta infeção tem tendência a concentrar-se em famílias, nomeadamente coabitantes, e entre pessoas que vivem em lares”.
Marco Silva esclarece que “um nível socioeconómico baixo, ter um agregado familiar numeroso, haver sobrelotação habitacional e falta de acesso a água tratada e saneamento básico são fatores de risco identificados para a transmissão desta bactéria”. É por isso que “a prevalência tem vindo a diminuir à medida que as condições de vida melhoram”.
Como se manifesta uma infeção por H. pylori? Quais as possíveis complicações?
“A maioria das pessoas infetadas não tem sintomas e pode viver décadas sem saber que é portadora da bactéria”, sublinha o gastroenterologista.
Quando há manifestações, os sintomas mais comuns são: “desconforto abdominal, sensação de enfartamento após as refeições, saciedade precoce, náuseas ou eructações [arrotos] frequentes”.
Importa sublinhar que “nenhum destes sintomas é específico desta bactéria”, ou seja, pode haver outras causas para estas manifestações.
Há, no entanto, “sinais de alarme que não devem ser ignorados e que justificam avaliação médica, como a perda de peso não intencional, vómitos persistentes, dificuldade a deglutir, fezes pretas ou anemia”, salienta Marco Silva.
Regra geral, “a infeção causa gastrite crónica” e geralmente “não dá sintomas relevantes nem evolui para condições mais graves”.
Em casos raros, “pode evoluir para úlcera péptica que pode complicar-se com hemorragia digestiva ou perfuração gástrica/duodenal”, aponta.
Num subgrupo ainda mais pequeno, a inflamação prolongada leva a alterações consideradas pré-malignas. Estas condições “podem evoluir para lesões displásicas e cancro gástrico”.
A infeção também está associada a “um tipo raro de linfoma do estômago, o linfoma MALT, que nos estágios iniciais pode ser curado apenas com a erradicação da bactéria”. A Helicobacter pylori pode, ainda, “causar anemia ferropénica ou púrpura trombocitopénica imune”, acrescenta o médico.
É possível prevenir a infeção? Como se trata?
A prevenção passa, sobretudo, “por medidas de higiene e saneamento, como a lavagem frequente das mãos, o consumo de água potável e tratada e evitar partilhar talheres e copos”.
Deve-se, ainda, “ter mais cuidado quando já existe um caso confirmado dentro do agregado familiar, uma vez que a via intrafamiliar é a principal forma de transmissão”.
A nível populacional, “a melhoria geral das condições de vida e de saneamento é, de longe, a medida mais eficaz a longo prazo”.
As orientações em relação ao tratamento têm mudado nos últimos anos. Antes “tratava-se sobretudo quem tinha sintomas ou complicações, mas, atualmente, os consensos internacionais recomendam tratar todas as infeções confirmadas, sobretudo pelo seu papel na prevenção do cancro gástrico”, explica Marco Silva.
O tratamento baseia-se numa “combinação de antibiótico(s) e inibidor da bomba de protões, durante 10 a 14 dias”.
A erradicação da bactéria “deve ser sempre confirmada, pelo menos quatro semanas depois de terminado o tratamento”, sublinha o especialista.
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