Mais de 13 milhões de crianças não têm qualquer vacina, diz a OMS. O que justifica este número?
Um relatório recente da Organização Mundial da Saúde (OMS) e da UNICEF sobre a cobertura global da vacinação infantil estima que ainda existem 13,5 milhões de crianças “zero doses”, ou seja, não receberam nenhuma vacina no primeiro ano de vida em 2025. Embora esse número represente quase 750 mil crianças a menos do que no ano anterior, o progresso é contrariado pelo aumento de crianças que começam o esquema de vacinação e não o completam.
Cerca de 7,3 milhões de crianças receberam a primeira dose da vacina DTPa (que protege contra a difteria, o tétano e a tosse convulsa), mas abandonaram o esquema de vacinação antes de receberem a primeira dose contra o sarampo.
De modo geral, registou-se um aumento de um ponto percentual em relação ao ano anterior, apesar de a cobertura global manter-se um ponto abaixo dos níveis de 2019. “90% dos bebés em todo o mundo – quase 116 milhões – receberam pelo menos uma dose da vacina contra difteria, tétano e tosse convulsa, e 85% – ou 110 milhões – completaram o esquema de três doses”, sublinha-se no relatório. Porque é tão difícil recuperar a cobertura vacinal registada antes da pandemia de Covid-19? O que justificam estes números?
Porque é que ainda existem tantas crianças sem qualquer cobertura vacinal?
Na perspetiva de Luís Varandas, pediatra e investigador na área das vacinas, “pode-se olhar para os números da OMS de duas formas: o lado otimista diz que há uma recuperação em relação ao que aconteceu na pandemia; o lado pessimista é que o aumento registado não é suficiente para controlarmos algumas doenças”.
Em declarações ao Viral, o professor no Instituto de Higiene e Medicina Tropical (IHMT), começa por explicar que durante a pandemia de Covid-19 “houve zonas do globo em que a cobertura de vacinação caiu a pique”, nomeadamente nos países em desenvolvimento, “porque o sistema de saúde colapsou e todos os recursos foram enviados para lidar com a pandemia”.
Por esse motivo, “no pós-pandemia, vimos uma série de infeções aumentar em grande parte do mundo”, acrescenta (ver também aqui).
No relatório da OMS refere-se que, em 2025, “em comparação com os valores de referência de 2019 [pré-pandemia], as Américas e o Sudeste Asiático recuperaram totalmente e melhoraram o seu desempenho, sendo esta última, atualmente, a região com melhor desempenho”.
Embora “as regiões de África, do Mediterrâneo Oriental e da Europa tenham registado melhorias no ano passado, a sua cobertura continua abaixo dos níveis anteriores à pandemia da Covid-19”. Em contrapartida, “o Pacífico Ocidental registou um declínio, tornando-se a região que mais se afastou do seu valor de referência de 2019”, acrescenta-se.
Um dos grandes problemas atuais é o facto de muitas crianças não completarem o esquema de vacinação. Para se fazer a avaliação da cobertura vacinal utiliza-se muito a vacina DTPa como indicador, porque “é uma cobertura padrão e foi uma das primeiras vacinas a ser administrada”, explica Luís Varandas.
As grandes referências são a primeira e a terceira dose da DTPa e o que se tem percebido e preocupado os especialistas é que “muitas pessoas vêm à primeira doses e depois não voltam”.
Isto deve-se a vários fatores. Nos países em desenvolvimento, em que se verifica uma menor taxa de vacinação, “a grande mobilidade das populações” e “a dificuldade de acesso aos serviços de saúde” são aspetos importantes. São populações que, “muitas vezes, estão longe dos serviços e têm dificuldade em se deslocar” ou, noutros casos, “podem chegar lá e não ter a vacina e depois não voltam lá outra vez”, exemplifica o médico.
Outra questão relevante neste contexto “é o problema dos conflitos”. O grande exemplo “é o Sudão”, mas outras regiões, como “o norte da Nigéria” e “vários países do Médio Oriente” estão “num conflito permanente” e logo aí “estão milhões de crianças que não são vacinadas”, sublinha.
A hesitação vacinal também é um fator importante. É um termo utilizado para descrever as situações, cada vez mais recorrentes, em que as pessoas “adiam ou recusam a vacinação para si próprias ou para os seus filhos”.
Este fenómeno “cresceu muito nos últimos anos”, em grande parte devido à pandemia de Covid-19. Tanto nos países em desenvolvimento “como nos países ditos desenvolvidos”, a hesitação vacinal cresceu, porque “houve muito receio da vacina da Covid-19”.
Os receios prendiam-se “com a nova tecnologia – que não era assim tão nova –, com a rapidez do desenvolvimento das vacinas e com as dúvidas sobre os efeitos secundários a médio e longo prazo”.
Tudo isso “fez com que as pessoas olhassem para a vacinação de outra maneira, houve muita desconfiança – perfeitamente injustificada – em relação à vacina da Covid-19”.
Além disso, existem “situações específicas” relacionadas com determinadas vacinas. Por exemplo, a poliomielite ainda é endémica no Afeganistão e no Paquistão, apesar de a doença estar praticamente erradicada no resto do mundo, devido à vacinação (ver aqui).
A vacina contra o HPV (vírus do papiloma humano) e contra a hepatite B também foram difíceis de implementar em alguns países.
A cobertura da vacinação contra o sarampo é uma situação particularmente alarmante. “O sarampo é a doença mais contagiosa que conhecemos e para a controlarmos precisamos de ter coberturas vacinais globais de 95%”, sublinha Luís Varandas.
Atualmente, refere a OMS, apenas 84% das crianças receberam a primeira dose da vacina e 77% receberam a segunda dose.
Os números para a cobertura vacinal da DTPa “também são desanimadores”, porque “há uma quebra grande da primeira para a terceira dose”.
“Portugal é dos países com melhor cobertura”
Em Portugal, “e em muitos países europeus, não houve uma redução significativa da cobertura vacinal” desde 2019.
“A DGS publica com alguma regularidade o boletim de vacinação e continuamos com coberturas muito acima da média, mesmo a nível europeu”, sublinha Luís Varandas.
Os dados do último relatório do Programa Nacional de Vacinação (PNV) mostram que “as coberturas vacinais de todas as vacinas incluídas no esquema geral recomendado do PNV, avaliadas até aos 6 anos, permanecem muito elevadas, sendo de 98% a 99% no fim do primeiro ano de vida e atingindo ou ultrapassando, no geral, a meta dos 95%, à semelhança de anos anteriores”.
A hesitação vacinal também cresceu em Portugal com a Covid-19, mas, na perspetiva de Luís Varandas, “continua a ser muito residual”.