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Luto coletivo: Como a morte do Papa Francisco pode afetar os fiéis (e os não crentes)

26 Abr 2025 - 08:00

Luto coletivo: Como a morte do Papa Francisco pode afetar os fiéis (e os não crentes)

O Papa Francisco morreu esta segunda-feira, aos 88 anos. Na quarta-feira, milhares de pessoas assistiram à cerimónia de trasladação do corpo do líder da Igreja Católica para a Basílica de São Pedro e, até ao final do dia de quinta-feira, os fiéis tiveram a oportunidade de se despedirem.

A morte do Papa faz-se sentir por todo o mundo, com a realização de cerimónias e partilhas nas redes sociais. Em Portugal, o governo decretou luto nacional “nos dias 24, 25 e 26 de abril, em sinal de homenagem pela morte do Papa Francisco”.

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Mas o que é o luto coletivo e como se processa? E como pode a morte de uma figura como o Papa ter impacto na população?

Hoje, no dia em que decorre o funeral do Papa Francisco, a psicóloga Vânia Sousa Lima, membro da Ordem dos Psicólogos Portugueses (OPP), explica ao Viral o que é o luto coletivo e como a morte do Papa Francisco pode afetar os fiéis (e os não crentes).

O que é o luto coletivo e como se processa? 

Tal como se explica num documento da Ordem dos Psicólogos Portugueses, o luto, em si, “é uma reação natural à perda e um processo que tem como objectivo adaptarmo-nos a uma nova realidade, encontrando formas de lidar com o que aconteceu e recuperando emocionalmente”. 

O luto pode ocorrer em diversas situações, como a “morte de um ente querido”, a “morte de um animal de estimação”, o “fim de uma relação significativa”, a “perda de um emprego” ou o “diagnóstico de uma doença grave”, exemplifica-se. 

Além disso, o luto pode ser individual ou coletivo. Segundo Vânia Sousa Lima, tal como o luto individual, o luto coletivo “é um processo” e “uma resposta emocional, cognitiva e comportamental de pessoas que experienciam uma perda”.

A grande diferença é que, no luto coletivo, “a perda é percebida e experienciada por uma comunidade, por um grupo ou até por um país, tendo uma componente social”, explica.

Pode haver um luto coletivo em relação a uma celebridade ou a uma figura com um grande impacto num grupo ou numa comunidade, mas também se pode falar em “processos de luto coletivo em situações de guerra, de acidentes aéreos, ou de atentados terroristas”, por exemplo.

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Apesar disso, é importante realçar que esta também é “uma experiência idiossincrática, ou seja, pessoas que estejam a experienciar um luto coletivo” também o exprimem e percecionam “em função das suas características, motivações, representações e experiências anteriores”. No fundo, mesmo o luto coletivo tem uma componente individual.

Além disso, salienta Vânia Sousa Lima, o luto coletivo tem outra particularidade: para ser experienciado “não é necessário haver uma ligação direta com a figura perdida ou com as vítimas”.

Estar de luto é um processo em que “cada pessoa reage de forma diferente”, ou seja, “não existe um calendário ou uma forma certa de fazer um luto”, explica-se no documento da OPP.

Por norma, “num primeiro momento, é expectável que a resposta emocional, cognitiva e comportamental” das pessoas que estão de luto “seja mais intensa”, com grandes “manifestações de sofrimento e tristeza”, avança Vânia Sousa Lima.

Tal como se esclarece num documento da Associação Americana de Psicologia (APA, na sigla inglesa), esta fase “pode deixar-nos com uma série de emoções, incluindo raiva, desespero, depressão, confusão, frustração, exaustão, solidão e ansiedade”. 

Durante o luto, também é possível “ter dificuldade em dormir”, “problemas de concentração”, “falta de motivação”, “fadiga” e dificuldade em relacionar-se ou reencontrar-se com os outros após a perda.  

Eventualmente, há uma “aceitação da perda” e “uma atribuição de significado dessa perda”, refere Vânia Sousa Lima.

No caso do luto coletivo, “o processo de sofrimento acaba por ser mais normalizado”, porque “é uma dor experienciada não apenas por uma pessoa, mas por toda uma comunidade”, explica.

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O facto de “o choque, a tristeza e a inquietação serem experienciadas por outras pessoas também permite normalizar a própria experiência”. Isto é algo “que pode não ser tão fácil de ocorrer em perdas individuais, porque não existem ‘outros’”.

Qual o impacto que a morte do Papa pode ter na população?

Em primeiro lugar, refere a psicóloga, “é evidente e expectável que os familiares, amigos e pessoas que trabalhavam com o Papa” tenham um processo de luto mais intenso e com manifestações mais ativas.

No entanto, especificamente no contexto da morte do Papa Francisco, “há um marcador histórico, cultural e social, que gera também esta representação de proximidade” com mais pessoas além daquelas que tinham uma ligação direta com o pontífice.

Por outras palavras, apesar de muitas das pessoas que passam por este luto coletivo não conhecerem propriamente o Papa ou de nunca terem estado com ele, existem vários fatores que as fazem sentir-se próximas desta figura.

Até porque “o luto só funciona dessa forma”, ocorre (em diferentes intensidades) “por se considerar que há uma perda relevante e que gera ameaça”, explica Vânia Sousa Lima.

Assim, por exemplo, “pessoas que participaram em celebrações, que estiveram presentes em algum evento ou assistiram a algum discurso público também sentem, de alguma forma, que fazem parte desta história” e que tinham alguma proximidade com o Papa.

Neste contexto, toda “a expressão pública” do luto coletivo pela morte do Papa – através de “cerimónias na Praça de São Pedro”, das missas, ou até de conversas em cafés e de publicações no Instagram e no Facebook – “dá a perceção de que esta figura em particular é uma figura relevante”, o que acaba por normalizar ainda mais o sofrimento em torno da perda.

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Por outro lado, a morte do Papa Francisco, em específico, tem outra vertente que pode tornar o luto coletivo ainda mais abrangente. Na perspetiva de Vânia Sousa Lima, este luto pode não só ser percecionado pelos fiéis, mas também por pessoas não crentes.

O luto “pode fazer particular sentido para pessoas que viam esta figura não apenas como um líder religioso, mas também enquanto líder político e social”, defende.

“Há um conjunto alargado de pessoas – sejam pobres, migrantes, refugiados, deslocados de guerra, divorciados, homossexuais – que se reveem na ação do Papa ao longo destes anos e que o identificam como alguém que lhes deu voz”, explica. 

Portanto, sublinha, “também os não católicos, de alguma forma, identificam a perda de uma figura que procurou sublinhar elementos básicos de valores universais, como os direitos humanos”.

Neste contexto, esta perda pode ser “percebida como uma ameaça” e trazer “alguma insegurança e incerteza”, porque se tratava de uma figura com um grande impacto a nível mundial que dava voz a direitos fundamentais das pessoas.

No fundo, “há uma dimensão política e social, integrada num dado contexto histórico, que torna esta perda uma perda diferente”, realça.

Como lidar com o luto?

Não há propriamente uma “forma certa” de lidar com o luto. Acima de tudo, deve ter-se em conta que “as respostas ao luto são individuais” e, “tanto no individual como no coletivo, é necessário respeitar o modo como o outro reage e se expressa (ou não), em diferentes momentos”, esse luto.

No caso do luto coletivo, “apesar de ser uma experiência partilhada” e isso, em si, permitir “gerar o sentido de pertença e de conexão com uma determinada comunidade”, não deve “haver pressões sociais para que a expressão emocional, cognitiva e comportamental seja feita de um determinado modo”, defende Vânia Sousa Lima.

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No fundo, “expressar o luto pode ajudar, mas não o expressar também”. Na perspetiva da psicóloga, “mais importante do que falar sobre isso, é poder ser ouvido e ter interlocutores capazes de compreender a experiência”.

Além disso, grande parte das pessoas expressam o luto, sobretudo neste tipo de contexto, através de atividades coletivas, como “missas”, “vigílias” e funerais.

Cerimónias como estas são fundamentais para algumas pessoas, “não apenas para prestarem homenagem, mas também para realizarem o seu próprio luto”, sublinha.

Numa fase inicial do luto, “participar em cerimónias contribui para a gestão emocional”. Por outro lado, continuar a frequentar estes rituais, ao longo do tempo, também ajuda “no processo de atribuição de significado” da perda.

Num processo de luto, “o significado é criado relacionalmente”, através da “partilha de histórias e de memórias que se tem sobre” quem (ou o que) se perdeu.

Apesar disso, “existem outras pessoas que não se reveem nestas atividades coletivas” e isso não significa que não estejam “em sofrimento ou que não sintam tristeza ou insegurança”, realça a psicóloga.

Há quem prefira “realizar atividades simbólicas individuais” e “é importante respeitar isso”, lembra.

Quando procurar ajuda?

Vânia Sousa Lima começa por explicar que “não há um marcador temporal claro”, ou seja, “não há consenso” sobre quando se deve procurar ajuda em contexto de luto.

Em causa está o facto de o luto ser um processo diferente para cada pessoa. Por isso é que é tão importante respeitar “o que” cada pessoa experiencia, bem como “quando” e “como”.

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Um sinal de alerta importante é “quando se percebe que esta experiência e a resposta emocional, cognitiva e comportamental, é prolongada no tempo e é de uma intensidade tal que gera sofrimento para o próprio”, explica a psicóloga.

Se, além disso, “este sofrimento tem um impacto efetivo noutras áreas da vida da pessoa, como relações, trabalho e atividades de lazer, há um indicador claro de que pode fazer sentido o pedido de ajuda, seja quando se experiencia uma perda nestes moldes coletivos, seja em contexto de luto individual”, defende.

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