Justin Timberlake diagnosticado com doença de Lyme. Que condição é esta?
Nas últimas semanas, nas redes sociais têm-se multiplicado vídeos da digressão do cantor norte-americano Justin Timberlake. Os fãs gravavam para mostrar um comportamento algo insólito que se ia repetindo noite após noite: Timberlake cantava uma ou outra palavra das músicas e apontava o microfone para a frente a pedir que o público cantasse o resto. Os fãs também se queixaram de longos atrasos e diziam que o artista não se conectava com o público.
“Tenho enfrentado alguns problemas de saúde e fui diagnosticado com a doença de Lyme — não digo isto para que sintam pena de mim, mas para esclarecer o que tenho enfrentado nos bastidores”, escreveu o cantor numa publicação no Instagram, como forma de justificar aos fãs o que se tem passado em cima do palco.
“Tive de tomar uma decisão. Parar a digressão? Ou continuar e descobrir uma solução. Decidi que a alegria que me traz atuar supera em muito o stress passageiro que o meu corpo estava a sentir”.
Justin Timberlake afirmou que sentia dor neuropática, fadiga e enjoos e não percebia porquê, mas com o diagnóstico de doença de Lyme chegou a resposta. Afinal, que doença é essa, que sintomas causa e como se pode prevenir?
O que é a doença de Lyme?
A doença de Lyme é uma zoonose, ou seja, uma doença infeciosa que pode ser transmitida entre animais e humanos. Neste caso, é a picada de uma carraça infetada por uma bactéria que pode provocar a doença em humanos.
Foi identificada em 1977, dois anos após uma quantidade elevada de casos de artrite ter sido registada em crianças, na cidade de Lyme, no estado do Connecticut. Em 1976, o departamento de saúde do estado e a Universidade de Yale organizaram um inquérito que procurava perceber exatamente quantos casos destes havia e o que os poderia estar a causar.
Vários doentes tinham lesões na pele e viviam em zonas de mato, com menos densidade populacional, o que indicava que a causa podia ser a picada de um inseto. Com alguns estudos, foi possível perceber que eram as carraças que transmitiam a doença, e, em 1982, o entomologista Willy Burgdorfer determinou que a infecção era causada por uma bactéria espiroqueta Borrelia até então desconhecida. Como é comum na prática científica, a bactéria recebeu o nome dele: Borrelia burgdorferi.
Os sintomas variam com o tempo. De acordo com o Centro de Controlo e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC), os primeiros sintomas surgem entre três a 30 dias depois da picada e os mais comuns são febre, dores de cabeça, fadiga e uma mancha avermelhada na pele, designada por eritema migratório, no local da mordedura.
“É comum ocorrer uma pequena protuberância ou vermelhidão no local da picada da carraça, que surge imediatamente e se assemelha a uma picada de mosquito. Essa irritação geralmente desaparece em 1 a 2 dias e não é um sinal da doença de Lyme”, esclarece o CDC.
Se o tratamento tardar, os sintomas podem agravar, e, meses depois de a carraça ter transmitido a bactéria, podem surgir manchas noutras partes do corpo, dores neuropáticas, dores de cabeça intensas, tonturas, falta de ar, artrite, paralisia facial, entre outros.
Nem sempre é simples diagnosticar a doença de Lyme, já que há sintomas comuns a muitas outras doenças e pode não haver vermelhidão, segundo o Serviço Nacional de Saúde inglês (NHS, na sigla inglesa). As análises ao sangue que ajudam a identificar a doença nem sempre são rigorosos numa fase inicial.
Qual o tratamento?
Quando um paciente é diagnosticado com doença de Lyme, o médico deve prescrever o antibiótico mais adequado aos sintomas apresentados. Em alguns casos, o tratamento pode durar cerca de um mês, mas é “importante terminá-lo, mesmo que se sinta melhor”, lê-se no site do NHS.
Se os sintomas forem mais avançados, em alguns casos, os doentes podem ser encaminhados para um hospital para o antibiótico ser administrado por via intravenosa. “A maioria dos doentes fica melhor depois do tratamento com antibiótico”, mas para algumas pessoas essa melhoria pode demorar meses, sublinha o NHS.
Há casos em que sintomas, como dores e fadiga, podem persistir durante anos e “não é claro porque é que isso só acontece a algumas pessoas”. Nesses casos, não há nenhum tratamento específico.
Como prevenir?
Há algumas formas para reduzir a probabilidade de ser picado por uma carraça: cobrir a pele quando se anda ao livre, usar repelente e usar roupas claras para ser mais fácil identificar os aracnídeos.
No caso de ser picado e identificar rapidamente a carraça, é possível removê-la com a ajuda de uma pinça. Deve segurar-se na carraça o mais próximo possível da pele e puxá-la para cima lentamente, com cuidado para não a esmagar. Depois, segundo o NHS, se limpar o local da picada com um antisséptico ou com água e sabão, a probabilidade de desenvolver a doença é baixa, já que a transmissão costuma ocorrer 24 horas após o início da refeição da carraça, mas a maior parte das Borrelia só passa para o sangue do hospedeiro ao fim de 48 horas.
Já houve uma vacina para a doença de Lyme comercializada nos Estados Unidos, mas em 2002 foi descontinuada porque o fabricante alegava demanda insuficiente. A proteção que a vacina concedia ia decrescendo ao longo do tempo, por isso as pessoas que foram vacinadas já não estão protegidas contra a doença.
A Pfizer e a Valneva estão a desenvolver uma vacina para a doença que Lyme, que tem demonstrado forte resposta imunitária, assim como um perfil de segurança satisfatório em estudos pré-clínicos e clínicos. Os participantes do ensaio clínico concluíram a série de vacinação primária de três doses em julho de 2024 e serão monitorizados até ao final de 2025.
É uma doença comum?
A incidência da doença de Lyme é bastante variável. Em países de clima temperado tem maior incidência e é endémica na região nordeste dos Estados Unidos, na Europa Central e Escandinávia e em algumas regiões da Ásia, em particular na zona norte do Japão.
Na Europa estima-se que ocorram cerca de 65 mil casos anualmente e segundo o relatório REVIVE 2022, elaborado pelo Departamento de Doenças Infeciosas do Centro de Estudos de Vetores e Doenças Infeciosas Doutor Francisco Cambournac, tem-se verificado um aumento da incidência das doenças transmitidas por carraças por todo o continente. Por ano, foram reportados, cerca de 129 mil casos entre 2005 e 2020, segundo uma análise de 2023.
Em Portugal, segundo a mesma análise, regista-se menos de um caso por cada 100 mil habitantes por ano. E apesar de desde 1999 ser uma doença de notificação obrigatória, é possível que haja subnotificação. Um estudo de 2006 analisou dados do Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge e concluiu que “a comparação entre o número de casos notificados e o número de casos positivos confirmados pelo laboratório mostra que a borreliose de Lyme é claramente uma doença subnotificada”.
Nos Estados Unidos, foram notificados mais de 89 mil casos em 2023, de acordo com dados do CDC, mas há estimativas que apontam para 476 mil diagnósticos por ano. Isso acontece porque o número apresentado pelo CDC reflete apenas os casos registados pelas autoridades de saúde pública, que não têm forma de obter os dados totais.