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Jessie J fez uma mastectomia: O que é? Quando é recomendado fazer esta cirurgia?
A cantora britânica Jessie J (nome artístico de Jessica Cornish) anunciou em junho deste ano que tem cancro de mama. Desde então, tem feito várias partilhas nas redes sociais sobre como está a lidar com a doença e como tem corrido o tratamento. Há duas semanas, a cantora foi submetida a uma mastectomia e já revelou que os resultados da cirurgia foram positivos. O que é uma mastectomia? Quando é recomendado fazer? Há riscos?
Neste artigo, esclarecemos cinco questões sobre a cirurgia feita a Jessie J.
O que é uma mastectomia?
Uma mastectomia é uma cirurgia em que há a remoção total de uma das mamas (ver aqui, aqui e aqui). Quando são removidas ambas as mamas, chama-se “dupla mastectomia”.
Tal como se explica no site do Serviço Nacional de Saúde britânico (NHS, na sigla inglesa) e num documento do IPO de Lisboa, a mastectomia tem como objetivo tratar o cancro de mama, em situações em que não é possível conservar a mama ou por escolha da pessoa.
Em alguns casos, também se pode recomendar “fazer uma mastectomia para prevenir” o cancro “se houver um risco elevado de o ter”, refere-se no site do NHS.
Segundo o IPO de Lisboa, existem dois tipos principais de mastectomia: a “mastectomia simples ou total” e a “mastectomia radical modificada”.
Na mastectomia simples remove-se “apenas a mama”, ou seja, a “aréola”, o “mamilo”, a “pele” e a “glândula mamária”, explica-se no documento do IPO de Lisboa.
Por outro lado, na mastectomia radical modificada há a remoção de “toda a mama” e dos “gânglios linfáticos axilares, preservando um ou ambos os músculos peitorais”, acrescenta-se.
Quando é recomendado fazer uma mastectomia?
Por norma, “muitas mulheres com cancros em fase inicial podem escolher entre a cirurgia conservadora” – em que se remove o cancro, mas deixa-se a maior quantidade possível de mama – e “a mastectomia”, explica-se num texto da Sociedade Americana do Cancro.
Algumas doentes preferem fazer uma mastectomia com o objetivo de “eliminar” o cancro de forma imediata. No entanto, sabe-se que realizar uma mastectomia em vez de uma cirurgia conservadora “reduz apenas o risco de se desenvolver um segundo cancro na mesma mama, não diminui a probabilidade de o cancro voltar a aparecer noutras partes do corpo, incluindo na mama oposta”, esclarece-se.
Apesar disso, há de facto situações em que a mastectomia pode ser particularmente recomendada. Por exemplo, se a pessoa não puder fazer radioterapia (porque está grávida ou devido a certas doenças), se “já teve a mama tratada com radioterapia no passado” ou se fez uma cirurgia conservadora “que não removeu completamente o cancro” pode ser aconselhado recorrer a uma mastectomia.
Ter “um tumor com mais de 5 cm de diâmetro”, ter “um tumor grande em relação ao tamanho da mama” ou ter “duas ou mais áreas de cancro” em partes diferentes da mesma mama também são fatores que podem levar à recomendação de uma mastectomia.
Noutro plano, aconselha-se ainda a realização de uma mastectomia se o cancro de mama for “inflamatório” (um tipo de cancro raro, mas agressivo) ou se houver “um fator genético, como uma mutação BRCA, que pode aumentar a probabilidade de um segundo cancro”, refere-se no mesmo texto.
Também se tem em conta a preferência da pessoa. Há doentes que preferem “fazer uma cirurgia mais profunda em vez de fazer radioterapia”.
Além disso, “em alguns casos, as mulheres com um risco elevado de cancro da mama podem querer fazer uma mastectomia antes de o cancro se desenvolver”, sublinha-se num texto da Universidade de Johns Hopkins.
Há riscos associados a este tipo de cirurgia?
Tal como acontece com todas as operações, fazer uma mastectomia também pode provocar “hemorragias e infeções no local da cirurgia”, aponta-se no texto da Sociedade Americana do Cancro.
Após uma mastectomia, pode haver dor, sensibilidade ou inchaço no local da cirurgia (ver aqui, aqui e aqui). Também é possível verificar-se uma acumulação de sangue e/ou de um líquido claro na ferida.
Além disso, a pessoa pode sentir que o movimento do braço ou do ombro está mais limitado, ou até ter uma dormência no peito ou no braço.
Se os gânglios linfáticos axilares forem removidos, é possível verificarem-se outros efeitos secundários, como o linfedema (ver aqui).
Importa ainda salientar os riscos relacionados com a saúde mental. “Na mulher, a mama é parte integrante da sua identidade e da sua feminilidade”, refere-se no documento do IPO de Lisboa.
Por esse motivo, “quando é realizada uma mastectomia, surgem alterações profundas na sua imagem e autoestima”.
Todas as pessoas lidam de formas diferentes com a doença, mas “o medo de que as alterações no seu corpo afetem o seu aspeto físico e, consequentemente, atinjam o seu relacionamento afetivo e socioprofissional, é sentido por muitas mulheres”, acrescenta-se.
Quais os cuidados a ter após uma mastectomia?
Após a mastectomia, é importante que “mantenha a sua independência ao cuidar de si (higiene, pentear, vestir e alimentar-se) pois estas atividades fazem parte da sua recuperação”, explica-se no documento do IPO de Lisboa.
No que toca à roupa, deve-se utilizar o soutien e a prótese almofadada recomendados. Para evitar ao máximo a dor e o desconforto, recomenda-se que “comece por vestir primeiro o braço do lado operado e só depois o outro” e “ao despir faça o movimento contrário”, realça-se no mesmo documento.
Além disso, é essencial evitar “temperaturas elevadas, banhos com água muito quente e exposição solar”.
Em caso de dor, deve-se tomar “os analgésicos indicados, cumprindo os intervalos” aconselhados. Tentar “adotar uma postura correta e relaxada” também ajuda na dor e no desconforto.
A recuperação física e psicológica é essencial após uma mastectomia. Em termos de reabilitação física, a fisioterapia é muito importante.
Por outro lado, “o apoio de familiares e amigos é igualmente fundamental na recuperação psicológica”, sublinha-se no documento do IPO de Lisboa.
Para muitas pessoas, o apoio das pessoas próximas pode não ser suficiente, pelo que, nesses casos, é fundamental recorrer a “serviços médicos de apoio”, de psicologia e psiquiatria.
Após a mastectomia, há “consultas de acompanhamento para verificar a recuperação e resolver eventuais problemas”, refere-se num texto do Cancer Research UK.
Há doentes que, após a mastectomia, ainda precisam de fazer outros tratamentos, como “quimioterapia”, terapias direcionadas, ou “terapia hormonal para ajudar a diminuir o risco de o cancro voltar”, salienta-se no site da Sociedade Americana do Cancro.
É possível fazer uma reconstrução mamária logo após a mastectomia?
De modo geral, a reconstrução mamária pode ser realizada quando a pessoa quiser (ver aqui, aqui e aqui).
“Algumas mulheres com cancro da mama, que fazem uma mastectomia, decidem fazer a reconstrução da mama durante a cirurgia ou mais tarde; outras preferem usar uma prótese. Outras, ainda, decidem não fazer nada”, explica-se num texto da Liga Portuguesa Contra o Cancro (LPCC).
A reconstrução da mama pode ser feita de várias formas. “Algumas pessoas escolhem fazer implantes – salinos ou de silicone”, refere-se no texto da LPCC.
Além disso, “também pode ser feita com tecido retirado de outra parte do corpo: pele, músculo e gordura podem ser transferidos para o peito, a partir da barriga, costas e nádegas”, lê-se.
O tipo de reconstrução mamária mais indicado “depende da idade, do tipo de corpo e do tipo de cirurgia que fez” e “o cirurgião plástico deverá explicar os riscos e benefícios de cada tipo de reconstrução”, acrescenta-se.
Este artigo foi desenvolvido no âmbito do “Vital”, um projeto editorial do Viral Check e do Polígrafo que conta com o apoio da Fundação Champalimaud.
A Fundação Champalimaud não é de modo algum responsável pelos dados, informações ou pontos de vista expressos no contexto do projeto, nem está por eles vinculado, cabendo a responsabilidade dos mesmos, nos termos do direito aplicável, unicamente aos autores, às pessoas entrevistadas, aos editores ou aos difusores da iniciativa.
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