VITAL
Isabel Rabiais teve cancro da pele. “A ideia de uma cirurgia associada ao rosto fez-me pensar não só na saúde, mas muito na identidade”
Aquilo a que se chama “sinais” corresponde, regra geral, a uma lesão benigna na pele designada por “nevo”. Os nevos são habitualmente castanhos, com cor uniforme, formato arredondado ou oval, limites bem definidos e tendem a manter-se estáveis ao longo do tempo.
Qualquer alteração dessas características ou o surgimento de um sinal em idade adulta “deve ser encarado como sinal de alerta”, diz Daniela Cunha, diretora do serviço de Dermatologia da Fundação Champalimaud. Foi assim, após o surgimento de um sinal, que Isabel Rabiais, 51, foi diagnosticada com cancro da pele.
“Estava tranquilamente a almoçar com uma amiga quando ela me disse que eu tinha um ponto negro no nariz”, contou, em entrevista ao Viral e ao Polígrafo.
Pouco tempo depois, foi fazer uma limpeza de pele e mencionou aquele ponto negro. Depois de o observar, a profissional disse que achava melhor não mexer naquela zona, “não se sentia muito confortável”.
Isabel não deu imediatamente muita importância, mas depois de a amiga — a que reparou naquela lesão pela primeira vez — ter insistido, acabou por falar com um médico que conhecia que a encaminhou para um serviço de dermatologia.
O diagnóstico foi dado no momento, “não foi um diagnóstico seguro, mas a médica quando olhou disse que provavelmente seria uma situação oncológica”. Quando chegaram os resultados dos exames, confirmou-se: Isabel tinha dois tumores malignos, o mais relevante no nariz.
Não contava com nada daquilo, apesar de ter “fatores de risco aos quais não pode fugir”: “Tenho uma pele muito clara, olhos claros, o meu pai também teve cancro de pele”. Mas sempre foi “cuidadosa”, já “há muitos anos saía de casa todos os dias com protetor solar”.
Daniela Cunha elenca outras formas de prevenção — “respeitar horários seguros, usar chapéu, óculos com proteção UV, vestuário adequado e aplicar corretamente protetor solar nas áreas expostas” — e sublinha que “o bronzeado não é saudável” e não é preciso apanhar sol em excesso para colmatar défices de vitamina D já que “a exposição solar necessária para a sua síntese é muito inferior àquela que provoca queimaduras ou bronzeado”. Esses são os comportamentos de risco e ideias erradas que mais frequentemente vê associadas à prevenção do cancro da pele.
“Sou uma pessoa tranquila, mas quando fui confrontada com este diagnóstico senti um impacto emocional muito forte, tive medo, senti-me insegura”. Isabel Rabiais é professora na Escola Superior de Saúde Atlântica e foi enfermeira durante vários anos em contexto de cuidados intensivos, mas garante que essa experiência e o conhecimento na área da saúde não mudaram nada. Naquele momento, teve medo, mesmo sabendo que aquele era um cancro “frequente” e tratável com cirurgia.
A cirurgia e a preocupação com a “forma como me via e como sou vista”
Foi nessa fase, “três ou quatro meses depois” do diagnóstico, que passou a ser acompanhada na Fundação Champalimaud. “Aí percebi que o tratamento ia implicar uma cirurgia mais complexa, uma cirurgia de Mohs, que eu nem sequer sabia o que era”.
“A cirurgia micrográfica de Mohs é atualmente o método mais preciso e eficaz para o tratamento de vários tipos de cancro da pele”, explicou a diretora do serviço de Dermatologia da Champalimaud, que fez a cirurgia de Isabel e a acompanha desde então.
“Trata-se de uma técnica cirúrgica realizada de forma faseada, em que o tumor é removido progressivamente”. Depois de cada fase, as “margens laterais e profundas do tecido removido são cuidadosamente mapeadas e analisadas ao microscópio durante a própria cirurgia”.
Se forem identificadas células tumorais numa determinada margem, retiram-se, e o processo “repete-se até que todas as margens estejam completamente livres de tumor”. Esta abordagem permite uma “taxa de cura muito elevada”, ao minimizar “o risco de recidiva e reduzir a necessidade de novas cirurgias”.
“E, ao mesmo tempo, preserva o máximo de tecido saudável”, já que só é removida a pele estritamente necessária. Em casos como o de Isabel, em que a zona operada é bastante visível, é uma técnica “particularmente importante”, explica Daniela Cunha.
A questão estética era uma das preocupações de Isabel: “A ideia de uma cirurgia associada ao rosto fez-me pensar não só na saúde, mas muito na identidade, na imagem, na forma como eu própria me via e também como sou vista”, recorda.
A comunicação “clara e verdadeira” com a equipa médica foi crucial para amenizar essas questões. “A médica explicou-me o processo todo com rigor, fez-me um desenho em que colocou as possibilidades todas, explicou-me que podia ficar com o nariz mais levantado”.
Depois dessa consulta, mal chegou a casa, Isabel pôs-se em frente ao espelho a imaginar como ia ficar. Com o dedo a fazer força na ponta do nariz, tentou simular o pós-operatório e olhou-se de vários ângulos. “Pensei: ‘meu Deus, vou ficar tão diferente’”.
Logo a seguir à operação notou muita diferença no nariz e partilhou com Daniela Cunha que aquilo a estava a incomodar. “Nota-se agora, passado um mês, vai-se notar menos, passados três, muito menos ainda e, passados seis meses, não se vai notar praticamente nada”, respondeu a dermatologista.
Três anos depois, Isabel diz que nota diferença, mas é a única: “A maior parte das pessoas diz-me que não se nota e isto disfarça-se com uma maquilhagem, está muito bem”.
Daniela Cunha explica que as questões estéticas e funcionais “são também uma prioridade para a equipa médica” e “a reconstrução cirúrgica é sempre planeada de acordo com princípios rigorosos de harmonização facial e preservação funcional, sobretudo em áreas sensíveis como pálpebras, lábios, nariz e orelhas”.
E “para além da cirurgia, o acompanhamento prolonga-se no pós-operatório”. “Depois da cirurgia já fiz duas biópsias porque a Dra. Daniela é muito atenta e quando desconfia de alguma coisa propõe logo biópsia. As biópsias têm vindo negativas e esta vigilância apertada, digamos assim, deixa-me muito tranquila”, diz Isabel.
É “fundamental” transmitir “uma mensagem de acompanhamento contínuo, proximidade e cuidado para ajudar o doente a atravessar todo o processo com maior segurança e confiança”, conclui a dermatologista.
Este artigo foi desenvolvido no âmbito do “Vital”, um projeto editorial do Viral Check e do Polígrafo que conta com o apoio da Fundação Champalimaud.
A Fundação Champalimaud não é de modo algum responsável pelos dados, informações ou pontos de vista expressos no contexto do projeto, nem está por eles vinculado, cabendo a responsabilidade dos mesmos, nos termos do direito aplicável, unicamente aos autores, às pessoas entrevistadas, aos editores ou aos difusores da iniciativa.
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