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“A inteligência artificial abriu o diálogo na consulta de oncologia”: Como o ChatGPT entrou no consultório

15 Jul 2025 - 08:45

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“A inteligência artificial abriu o diálogo na consulta de oncologia”: Como o ChatGPT entrou no consultório

Já se tornou cenário comum: um doente oncológico entra na consulta e traz várias “perguntas muito bem estruturadas”, feitas com recurso a modelos de linguagem de inteligência artificial. “Ainda hoje aconteceu”, comenta João Vasco Barreira, oncologista e co-autor da página The Twins Docs, em conversa com o Viral. E apesar de “desafiante”, reconhece que há questões que talvez ficassem por discutir não fosse a pesquisa prévia do doente.

“Sabe o que é que tem?” é a primeira pergunta que o médico costuma fazer na primeira consulta do acompanhamento oncológico. E se antes da utilização generalizada de ChatGPT, os doentes tinham pouco conhecimento, agora a resposta mais comum é: “Já sei, já li sobre isso”. E seguem-se as tais perguntas estruturadas.

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O “doutor Google” já existe há muitos anos, mas no motor de busca a informação aparece de forma mais dispersa. O tom conversacional característico dos modelos de linguagem facilita a apreensão de conhecimento e filtra a quantidade quase infinita de informação existente. “Esta será uma ferramenta valiosa para qualquer área da medicina, em particular num contexto como o da oncologia médica, em que a gestão da doença pode prolongar-se por muitos anos, com várias intervenções”, lê-se num artigo publicado na revista científica Cancer. 

O que muda na relação médico-doente?

“É uma consulta mais complexa, mas que dá muito mais gosto fazer”, resume João Vasco Barreira. O doente entra no consultório com mais informação, mas “não consegue processar” grande parte “porque não é profissional de saúde”, é preciso desconstruir e trabalhar tudo o que os modelos de linguagem expuseram — esse deve ser o trabalho do oncologista.

Feito isso, a própria confiança do doente no médico, que esclarece as dúvidas e valida (ou invalida) a informação tendo por base evidência científica, aumenta, considera o especialista. Recentemente, um doente chegou à consulta, disse “sem rodeios que tinha utilizado o ChatGPT” e tinha “muitas questões”. “Por um lado tinha ficado satisfeito com a informação, por outro muito confuso”: a quantidade de informação “nem sempre é vantajosa porque os doentes acabam por ler informação não adequada ao perfil exato da doença que têm”. 

Mas há um lado positivo: há uma maior noção “do panorama global da doença”, o médico consegue afastar “os receios” e filtrar a informação. “De outra forma só mais para a frente o doente teria as mesmas questões” e assim o trabalho vai sendo feito aos poucos, já não se “parte do zero”. O conhecimento também traz segurança aos pacientes que “até o transmitem no fim das consultas”. “É bom para os dois lados”, conclui o oncologista.

Há perigo de desinformação?

O ChatGPT “alimenta-se” de toda a informação, não tem sensibilidade nem uma noção precisa da melhor evidência. “Pode estar contaminado com desinformação e viés contra grupos socialmente vulneráveis, como mulheres, idosos ou pessoas negras”, nota o artigo supracitado.

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Ainda assim, esse não é o maior problema para os pacientes acompanhados por João Vasco Barreira. “Não é tanto a desinformação, é mais a generalização de informação”.

Ou seja, se um paciente com um cancro da próstata metastático questionar um modelo de linguagem sobre os melhores tratamentos para a sua situação, “o ChatGPT dá um rol de hipóteses”, mas importa ter em conta “as interações medicamentosas, o facto de uma terapêutica ser melhor do que a outra, entre outros fatores”, e essas especificidades são inalcançáveis para a inteligência artificial.

Partindo dessa informação, há um trabalho repartido entre o médico, que vai apresentando a evidência mais recente e fiável, e o doente, que “tem uma opinião sobre a própria doença e uma palavra a dizer sobre os tratamentos”. Até à data, João Vasco Barreira garante nunca ter sentido que os pacientes confiam mais na “palavra” de um modelo de linguagem do que na do médico: “Continuam a dar muito valor ao que é transmitido em consulta” e é essa a opinião que prevalece.

De que forma é que os profissionais de saúde se devem adaptar?

“A maior parte dos meus colegas mais experientes ou de outra faixa etária dizia que a generalização da inteligência artificial poderia ser um problema”, diz o oncologista. “Eu acho que é uma mais-valia”, desde que haja uma verificação das fontes, dos estudos, de tudo o que é veiculado pelos modelos de linguagem.

Para o médico, esse é o trabalho dos profissionais de saúde, a verificação: “A maior parte dos doentes não vai validar as fontes, não vai ler os estudos na íntegra, não vai correlacionar a doença nem estudar a fisiopatologia”. E essa articulação é “muito boa” para os clínicos: “Temos o lado de lá mais informado e damos uma capacitação maior ao paciente”.

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“A época da inteligência artificial permitiu abrir mais o diálogo na consulta”, há mais questões que não eram feitas por “vergonha” e abre-se uma discussão na consulta, que dificilmente aconteceria se o paciente não fizesse esta pesquisa. “Não que sejam assuntos com implicações no tratamento ou no prognóstico, costumam ser questões mais académicas”.

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Mesmo na sua prática clínica, João Vasco Barreira admite utilizar modelos de linguagem para “calcular a superfície corporal ou a dose de um medicamento”. É mais rápido e acaba “por ter uma dupla validação”, já que tudo passa “pelo sistema interno, como é óbvio”. “Assim consigo ter dois modelos que são independentes e dá-me mais segurança”, diz o clínico.


Este artigo foi desenvolvido no âmbito do “Vital”, um projeto editorial do Viral Check e do Polígrafo que conta com o apoio da Fundação Champalimaud.

A Fundação Champalimaud não é de modo algum responsável pelos dados, informações ou pontos de vista expressos no contexto do projeto, nem está por eles vinculado, cabendo a responsabilidade dos mesmos, nos termos do direito aplicável, unicamente aos autores, às pessoas entrevistadas, aos editores ou aos difusores da iniciativa.

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Cancro | ChatGPT | Vital

15 Jul 2025 - 08:45

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