Humidade em casa: os riscos para a saúde e o que fazer para evitá-los
A humidade dentro de casa é um problema comum em Portugal, especialmente nos meses mais frios. Mas além do desconforto, a exposição prolongada a ambientes húmidos pode representar um sério risco para a saúde, sobretudo respiratória.
O Viral Check falou com uma médica imunoalergologista para perceber que riscos existem para a saúde associados à exposição contínua à humidade.
Quais são os principais riscos para a saúde?
Em declarações ao Viral, a médica imunoalergologista Iolanda Alen Coutinho alerta que a “exposição prolongada à humidade no ambiente doméstico está claramente associada a diversos problemas de saúde, especialmente respiratórios e alérgicos, que afetam milhões de pessoas na Europa”.
Segundo a Academia Europeia de Alergologia e Imunologia Clínica (EAACI), cerca de 30% da população europeia sofre de alguma doença alérgica respiratória – condições particularmente frequentes em ambientes onde há muita humidade e presença de bolores, “que atuam como importantes gatilhos ambientais”, salienta a especialista.
Asma, rinite alérgica e conjuntivite alérgica estão entre as doenças mais comuns associadas à exposição prolongada à humidade. A médica destaca que estas se manifestam através de “espirros em salva, obstrução nasal, pieira, tosse, falta de ar, olhos vermelhos ou lacrimejantes” – sintomas que “são frequentemente agravados em locais húmidos e com ventilação inadequada”.
Além dos sintomas mais comuns, a humidade está associada a condições mais complexas, como a rinossinusite fúngica alérgica (RFA), causada por fungos como Aspergillus e Alternaria.
“A rinossinusite fúngica alérgica provoca inflamação intensa e produção de muco espesso nos seios nasais, afetando especialmente adultos jovens com predisposição alérgica”, refere Iolanda Alen Coutinho.
É também importante salientar que os fungos produzem compostos voláteis orgânicos microbianos (MVOCs) e partículas fúngicas que ficam suspensas no ar, que podem provocar inflamações crónicas nas vias respiratórias. De acordo com a médica imunoalergologista, a exposição contínua a esses agentes contribui para o agravamento dos sintomas e pode levar ao desenvolvimento de doenças persistentes.
Quem são as pessoas mais vulneráveis aos efeitos nocivos da exposição à humidade e aos bolores?
Como explica a especialista, há três grupos que são particularmente sensíveis aos efeitos nocivos da humidade e da exposição a bolores:
- Crianças: cujos sistemas respiratórios ainda estão em desenvolvimento;
- Idosos: têm o sistema imunitário mais frágil e, por isso, maior probabilidade de terem doenças respiratórias crónicas;
- Pessoas com doenças respiratórias ou imunossupressão (como VIH, cancro ou transplantados): têm risco elevado de infeções respiratórias graves, como aspergilose invasiva, que pode colocar a vida em risco.
“Foi cientificamente demonstrado que viver em casas húmidas aumenta o risco de sensibilização alérgica e o desenvolvimento de asma em todas as idades”, revela a médica.
Estudos científicos, como o que foi publicado na revista Science of The Total Environment, sugerem que a redução da humidade melhora significativamente a função pulmonar e até a saúde cardiovascular, sobretudo em idosos e pessoas vulneráveis.
Bolor nas paredes pode ser perigoso para a saúde?
A má ventilação e a falta de isolamento térmico favorecem a condensação, criando o ambiente ideal para o crescimento de bolores, especialmente em casas de banho e quartos.
“O bolor visível, incluindo o conhecido bolor preto (Stachybotrys chartarum), bem como fungos como Aspergillus, Chaetomium e Ulocladium, libertam esporos e micotoxinas que podem provocar reações adversas graves, tais como sintomas alérgicos persistentes, infeções pulmonares e agravamento de doenças inflamatórias crónicas pré-existentes”, ressalta a médica.
Sistemas de climatização: benéficos ou perigosos?
Ar condicionado, desumidificadores e outros sistemas de climatização podem ser úteis, mas também perigosos, alerta a especialista.
Se não forem limpos com regularidade, acumulam pó, ácaros, fungos e humidade, criando um ambiente ideal para a proliferação de fungos como Aspergillus, Penicillium e Cladosporium.
“Os esporos libertados por estes fungos são facilmente inalados e podem agravar ou até desencadear doenças respiratórias”, revela, acrescentando que “os níveis de humidade relativa acima de 50-60% facilitam o crescimento de microrganismos nocivos”.
Quais os sintomas de alerta associados à exposição ao bolor e à humidade?
Respiratórios:
– Espirros repetidos;
– Congestão nasal;
– Tosse crónica ou noturna;
– Pieira;
– Falta de ar ou aperto no peito.
Oculares:
– Olhos vermelhos;
– Comichão nos olhos;
– Lacrimejo excessivo.
Gerais:
– Fadiga constante;
– Dores de cabeça recorrentes;
– Irritação na garganta.
Sintomas de alarme (graves):
– Tosse com sangue;
– Perda de peso inexplicada;
– Febre prolongada;
– Sinusites que não melhoram com tratamento.
Quando procurar ajuda médica?
É importante não desvalorizar os sintomas, por isso, deve procurar ajuda se:
– A tosse durar mais de três semanas;
– Os sintomas forem mais intensos em casa e aliviarem ao sair;
– Houver crises frequentes de asma, resistentes à medicação;
– Tosse com sangue, febre contínua ou perda de peso.
O que fazer para proteger a saúde?
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), há várias medidas simples que podem fazer diferença:
– Ventilar a casa diariamente, especialmente cozinhas, casas de banho e quartos;
– Usar desumidificadores em zonas propensas à humidade (meta: 40-60% de humidade relativa);
– Evitar secar roupa dentro de casa, pois aumenta a humidade do ar;
– Corrigir infiltrações, deficiências de isolamento térmico e problemas estruturais;
– Limpar regularmente os filtros de ar condicionado e sistemas de ventilação;
– Remover bolor visível com soluções antifúngicas seguras, ou contratar profissionais especializados.