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Um homem ouviu uma voz e criou o Human Design, “um bingo da pseudociência”

4 Nov 2025 - 08:45

Um homem ouviu uma voz e criou o Human Design, “um bingo da pseudociência”

Durante oito dias e oito noites, em 1987, anos depois de se ter mudado do Canadá para Ibiza, Alan Robert Krakower ouviu “uma voz”. Essa voz — uma espécie de aparição, segundo o próprio — passou-lhe uma quantidade esmagadora de informação sobre física quântica, genética, bioquímica, astronomia, cabala, astrologia, I-Ching e chakras. Todo misturado, esse “conhecimento” deu origem a um sistema para definir cada ser humano (como reage, como interage com o meio que o rodeia), que Alan intitulou de Human Design. O homem, que mais tarde mudou o nome para Ra Uru Hu, nunca se considerou criador nem inventor, apenas “mensageiro”.

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Em 2012, um ano depois de Ra Uru Hu ter morrido, Ana Costa Soares descobriu o Human Design. A então engenheira civil começou por duvidar do sistema, estudou-o “de forma hipócrita, queria encontrar a falha”, conta, em conversa com o Viral. Em setembro de 2025, quando falámos, a perspetiva tinha mudado radicalmente: Ana Costa Soares já não parece ter grandes dúvidas, tornou-se especialista em Human Design, aprendeu com o próprio Ra Uru Hu, que deixou aulas gravadas, e agora acompanha várias pessoas, quase todas mulheres. 

Não existe qualquer evidência científica que mostre o mais pequeno indício de que o Human Design é confiável, mas Ana tem esperança: “Com o tempo, acho que algumas premissas serão provadas, como a existência de um monopolo magnético [um suposto iman com apenas um polo que existe no corpo de cada pessoa e que, na teoria do Human Design, atrai experiências e oportunidades alinhadas com o propósito de vida]”.

O bioquímico e divulgador de ciência David Marçal é crítico desta perspetiva: “É muito desonesto utilizar a resposta da ciência do futuro para justificar as nossas crenças místicas da atualidade”, defende.

“[O Human Design] utiliza palavras da genética mais ou menos ao calhas, faz uma grande mistura, e tenta dar um ar simultaneamente científico e tradicional”, não passa de um “cliché da pseudociência”. Essa estratégia é utilizada porque “a ciência tem credibilidade”, “a maior parte das pessoas percebe que a ciência as ajuda a viver mais e melhor”. 

O que diz o Human Design?

Segundo este sistema, para perceber de que forma cada ser humano é desenhado, basta saber a data, hora e local de nascimento. Esses dados entram num software e voilá, surge um gráfico incompreensível para um olho destreinado. É uma espécie de corpo humano com figuras geométricas preenchidas a diferentes cores — chama-se bodygraph e representa a  “pegada energética” de cada pessoa. 

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Para um “especialista” em Human Design, há várias conclusões que se podem tirar com um olhar rápido para essa imagem. Desde logo, percebe-se qual é o “tipo” da pessoa analisada. Este sistema, que se apresenta como “a ciência da diferenciação” por mostrar o lado “único e diferente de cada ser humano”, divide o mundo em quatro tipos de pessoas: manifestador, refletor, gerador e projetor.

Os manifestadores terão como “mecanismo natural de interação com o mundo” a “iniciativa”. “Estão aqui para iniciar, para rasgar novas realidades, novos caminhos”, explica Ana Costa Soares. O gráfico de um refletor é “muito fácil de identificar” porque as formas geométricas do bodygraph ficam “todas a branco”, o que significa que “têm os centros todos abertos, estão a ler em todas as vertentes, mental, emocional, etc.”. São pessoas com muita “sensibilidade de leitura” e que têm de “esperar muito tempo para tomar decisões”.

Geradoressão aquelas pessoas que têm uma energia consistente, estão aqui para produzir, para fazer, mas se estiverem a fazer o que não gostam, não têm energia nenhuma”. Já os projetores são melhores na “orientação”, não são construídos para a “produtividade desenfreada”, funcionam em “sprints”, “picos criativos” e “muitas vezes têm muita dificuldade no meio corporativo”.

Quando o Viral contactou Ana Costa Soares, a resposta foi quase imediata e a especialista em Human Design prontificou-se a analisar o gráfico da autora deste texto. Tipo: projetora. Estratégia: esperar o convite. Como tomar decisões: emocional. Perfil: 6/2. Assinatura: sucesso. Tema do não-ser: amargura. Sentido primário: tato. Ambiente: cavernas.

À primeira vista, pode ser difícil compreender o que é que alguns destes traços significam, mas durante 20 minutos a especialista analisou o que é que cada um quererá dizer. E a verdade é que não se enganou, mas todas aquelas informações pareciam encaixar em milhares (milhões?) de pessoas.

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Porque é que “parece verdade”?

Estas práticas são muito “atraentes” desde o primeiro momento, considera Renato Gomes Carvalho, psicólogo e membro da direção da Ordem dos Psicólogos Portugueses (OPP). Prometem “respostas”, dizem que vão “potenciar a vida ou que as pessoas vão descobrir o seu potencial, vão saber coisas que não sabiam”. 

Segundo os autores de “The Wellness Syndrome”, a “cultura do bem-estar” (em que o Human Design parece estar incluído) defende que qualquer pessoa pode ser tudo o que quiser e, por isso, quando algo negativo acontece, a culpa recai apenas sobre o próprio. Aquilo que pode, à primeira vista, parecer um pensamento positivo sobre a vida, revela falta de compaixão, empatia e consciência de contexto — palavras de André Spicer e Carl Cederström.

É em cima dessa base que se constrói o bem-estar enquanto “mercado”, considera o psicólogo consultado pelo Viral.

“No grande bazar do autoconhecimento e bem-estar há vários agentes”, todos com o mesmo objetivo: vender “o objeto mais brilhante”, aquele que atrai mais pessoas. Basta abrir uma porta para este mundo para se ser engolido por práticas, retiros e sistemas que prometem ajudar a encontrar 

E “todos nós, como seres humanos, temos uma necessidade de dar sentido à vida, ao mundo, descobrir algum propósito”. Por muito que Ana Costa Soares negue que o Human Design queira dar respostas concretas, é assim que o sistema se apresenta.

A própria, em “Redescobre-te com o Human Design”, publicado em 2024 pela Albatroz, insta os leitores a “descobrir a impressão digital genética” e à pergunta “se eu não pensar nas coisas,  como é que vou chegar a uma conclusão”, responde: “O Human Design dá-te a resposta”.

Tanto no livro como ao longo da entrevista insiste numa ideia: “Não é preciso acreditar, o Human Design não é um sistema de crenças”, basta “experimentar e ver o que acontece”. “Não há que ter medo de dizer que é um sistema que se foca no benefício e não em teoria comprovada”, diz tranquilamente. “Muitas pessoas relatam que se sentem mais leves, alinhadas, eu tenho a minha comprovação aí. Não me chegou isso durante muito tempo, nesta fase já me chega”, acrescenta.

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Renato Gomes Carvalho diz que o “viés de confirmação” pode ter um papel importante nessa “comprovação” de que Ana Costa Soares fala. É que a “tendência” é fazer uma interpretação das conclusões do Human Design que confirme crenças pré-existentes, transformando-as em certezas, quase verdades absolutas.

Ana Costa Soares não se identifica com essa lógica. Diz que isso acontece, sim, noutras práticas como “os horóscopos de jornal”, que dão “conselhos tão genéricos que as pessoas assumem que encaixam, porque de facto aquilo encaixa em qualquer pessoa”, mas não no Human Design, que considera ser muito mais diferenciador.

Mas há um ponto de contacto inegável com a astrologia, não só pela relação com o posicionamento dos planetas, como pela forma de chegar ao mapa astral e ao bodygraph, através da data, hora e local de nascimento. E nos dois casos, surge a mesma questão: “Estamos pré-definidos à nascença?”

“Há partes que estão fixas”, mas depois há o resto, “a abertura, a influência do ambiente, das experiências, do que comemos, como interiorizamos experiências e histórias e emoções”, diz a analista. É também assim que explica que duas pessoas que nasçam no mesmo dia, no mesmo local e perto da mesma hora não sejam exatamente iguais, apesar de terem gráficos iguais: o contexto serve como justificação para quase tudo.

O bingo da pseudociência

Há muito que David Marçal pensa e escreve sobre pseudociência. Após alguns anos, é natural que tenha começado a notar alguns padrões nas práticas que vai conhecendo. E sobre o Human Design diz: “Faz bingo em todos os argumentos da pseudociência”.

Não é só a já mencionada utilização “ao calhas” de termos científicos — o bioquímico diz que o Human Design é uma espécie de “pulseira Power Balance” mais sofisticada —, mas também a existência de uma autoridade, um guru e as ideias de tradições milenares.

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Sobre a tentativa de dar uma base científica ao Human Design, o bioquímico diz que tal não é possível, chama-lhe “mistura pseudo-científica”: “Basta pensar que essas tradições milenares são muito anteriores à ciência, a ciência moderna tem apenas cerca de 500 anos”.

É verdade que há exemplos de tradições milenares confirmadas pela ciência, como o caso da utilização de extrato de salgueiro como analgésico — “hoje chamamos-lhe acetilsalicílico, que é a aspirina, um relacionado [desse composto]”, confirma David Marçal. “Mas, em geral, ideias que não têm um entendimento do ser humano e do mundo com uma base científica muito raramente acabam por ser confirmadas pela ciência”.

Ana Costa Soares reconhece que a história de origem do Human Design pode causar estranheza e ceticismo. “Debati-me muito com isso durante muito tempo”, conta. A história de um homem que, aparentemente do nada, tem uma epifania e descobre um sistema que dá respostas sobre a vida é difícil de acreditar.

E a conversa volta ao mesmo: “[…] mas é uma questão de experimentar”.  Afinal, “tudo começa com um insight, a maçã na cabeça de Newton, por exemplo”, diz a analista de Human Design. 

“A história de Newton com a maçã é uma anedota”, não aconteceu mesmo assim, “cada vez menos existe um momento eureka, e cada vez mais a ciência é colaborativa, existem contributos cumulativos”, contrapõe David Marçal.

Mas esta história é útil para alguém como o canadiano Ra Uru Hu (nascido Alan Robert Krakower) chegar a guru. E o culto da personalidade é tal que, 14 anos depois de morrer, o site oficial do criador (ou “mensageiro”) do Human Design apresentou a possibilidade de falar com um modelo de inteligência artificial treinado com “ensinamentos” do próprio: chamam-lhe AI Ra. E até há uma versão paga (39 dólares por mês)  para quem quiser trocar mensagens ilimitadas e desbloquear análises mais profundas.

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“Agora, o Human Design é aplicado por gurus locais que garantem a veracidade ou a validade do método. Isto é típico da pseudociência. A ciência não depende da autoridade de ninguém”. Os mecanismos da ciência são outros, “não é um génio que tem uma ideia”.

Esses gurus locais formam-se em escolas de Human Design. Em Portugal, a formação total na Portugal Human Design School custa 7870 euros e é composta por três “cursos de formação base” e uma “formação profissional” dividida em quatro “níveis”. O primeiro dura três trimestres, com um mês de pausa entre cada um, o segundo faz-se em quatro fins de semana ao longo de quatro meses, o terceiro são dois fins de semana. Sobre o último módulo, diz-se que tem a duração de dois meses, mas não se percebe em quantos dias há sessões.

“É uma questão de saúde pública”

O preço das sessões varia de analista para analista e de acordo com o tipo de sessão. Há opções para todos os gostos e propósitos: desde análise de relações a sessões vocacionais ou aprofundamento de outro tema. Apesar de muitos analistas não revelarem o valor que cobram, de acordo com os que o têm público, o preço rondará os 150 euros por uma sessão de uma hora — bastante mais do que uma consulta com um psicólogo.

Para uma pessoa numa situação de vulnerabilidade, “com ansiedade, depressão ou outra alteração psicológica”, optar por uma prática “que não dá garantias de eficácia, não está baseada na ciência, não foi testada, pode levar a um agravamento da condição de vulnerabilidade inicial”, considera Renato Gomes Carvalho, psicólogo. 

Por prometer respostas e um nível profundo de autoconhecimento, o Human Design, como outros sistemas do mesmo género, “pode fazer com que as pessoas não estejam a procurar os serviços de que realmente necessitam para lidar com a situação que estão a viver”.

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E isso é “uma questão de saúde pública”: “Há registo de muitas situações por todo o país em que há situação de descompensação porque as pessoas não tiveram os serviços que realmente necessitavam”. Esses registos estão relacionados com outros motivos, mas a Renato Gomes Carvalho parece-lhe que os resultados podem ser os mesmos ao optar-se pelo Human Design em detrimento de práticas estudadas e comprovadas.

Mesmo para uma pessoa que seja acompanhada por um psicólogo, existe não só a possibilidade de deixar as consultas — a terapia é um processo mais lento, sem promessas — como pode “haver uma perturbação do desenvolvimento”. A solução, que para o psicólogo não é ideal, é “integrar essas crenças” nas consultas, informar o profissional de saúde, mas isso pode provocar “ruído naquilo que seria um processo de desenvolvimento pessoal mais salutar”.

Ana Costa Soares não quer “substituir” ninguém, diz que não é psicóloga nem pretende ser. Aliás, a própria é acompanhada por um psicólogo e parece-lhe incompreensível trocar uma coisa pela outra. “Isto é uma ferramenta de autoconhecimento que pode funcionar paralelamente, […] mas tem o lugar dela, é esse que tem de ocupar”. Vai mais longe: “Acho que pode ser até perigoso estarem a achar que o Human Design faz uma coisa que ele não faz, não ocupa o lugar da terapia”.

A analista diz que tem conhecimento de vários psicólogos que usam Human Design na sua prática profissional. De facto, ao percorrer a aba “analistas certificados” da Portugal Human Design School surgem alguns. 

Renato Gomes Carvalho relembra que “os psicólogos estão vinculados a um código ético e deontológico” e “um dos aspetos essenciais desse código tem que ver com as intervenções serem baseadas na ciência”: “Está claramente definido que as intervenções profissionais são baseadas na melhor evidência disponível e, neste caso, no quadro da ciência psicológica”. Isso significa que a inclusão de Human Design na prática clínica de um psicólogo pode constituir um incumprimento do código deontológico.

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Como desmontar ideias sem fundamento científico?

“É difícil” a tentativa de desconstruir ideias da pseudociência, diz David Marçal. “O ser humano não é 100% racional”, há alguma irracionalidade à mistura.

Os dois lados — racional e irracional —, aparentemente opostos, não existem em planos separados. “Não conseguimos separar do cérebro em dois e há obviamente sempre uma base emocional, mesmo na nossa atividade cognitiva mais racional”.

Esse é o primeiro ponto a ter assente antes de sequer tentar começar uma conversa. O outro é o facto de tudo isto ter uma forte base espiritual. Num momento em que a religião e outras crenças espirituais estão em declínio nas sociedades contemporâneas e ocidentalizadas, há uma nova “espiritualidade mal colocada”.

Pega-se na ciência (complexa, com nuance e que traz perguntas), junta-se a espiritualidade (que oferece soluções “simples e atrativas”, “uma espécie de chave para a vida”) e nascem sistemas semelhantes ao Human Design.

“E a comunicação da pseudociência também é boa”, sublinha o bioquímico. Há gurus muito convincentes que espalham a mensagem e, quando se está num meio assim, é difícil dar ouvidos à ciência.

“Dá muito trabalho” e nem é um trabalho que esteja “muito disposto” a fazer, admite David Marçal. Deve ouvir-se o outro lado, tentar perceber o que leva uma pessoa a acreditar em pseudociência e “tentar apresentar-lhe perspectivas alternativas”, nunca de um ponto de vista condescendente.

É comum, diz o bioquímico, haver “uma série de amigos, familiares, que têm ideias semelhantes, pelo que mudar de ideias não é fácil”. Mas é possível, ainda que “a taxa de sucesso seja baixa”.

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